Taxas de juros têm queda firme com sinal de acordo sobre Groenlândia e cenário eleitoral

Os juros futuros negociados na B3 exibiram firme queda no pregão desta quarta-feira, 21, em linha com o recuo do dólar e renovando mínimas em toda a extensão da curva após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que está costurando um acordo sobre a Groenlândia e não vai mais impor tarifas comerciais à Europa programadas para 1º de fevereiro.

Já do lado doméstico, fez preço nos juros pesquisa eleitoral que mostrou maior competitividade do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) contra o presidente Lula no pleito presidencial. Com o fechamento da curva dos Treasuries, percepção positiva sobre chance de uma candidatura à Presidência mais propensa a realizar um ajuste fiscal, na visão do mercado, e queda acima de 1% da divisa americana, os DIs encontraram espaço para reverter o efeito do estresse de ontem na renda fixa global.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 diminuiu de 13,793% no ajuste de terça para mínima intradia de 13,725%. O DI para janeiro de 2029 caiu a 13,12%, vindo de 13,238% no ajuste de terça também. O DI para janeiro de 2031 cedeu de 13,57% no ajuste a 13,455%.

Evento mais aguardado do dia, o discurso de Trump no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, renovou ameaças tarifárias contra oito países europeus, mas foi menos beligerante devido à fala do mandatário de que não usará força para tentar controlar a Groenlândia, território atualmente pertencente à Dinamarca.

Já por volta das 16h30, o presidente disse em post na Truth Social que há uma estrutura de um acordo futuro já pronta, envolvendo a ilha e também a região do Ártico. Sem detalhar os termos da resolução, o republicano afirmou que ela atende os termos dos EUA e da Otan e, como parte dele, não vai aplicar tarifas que deveriam entrar em vigor sobre a Europa no próximo mês. Tanto os rendimentos dos Treasuries quanto os DIs registraram mínimas na sessão em seguida à publicação.

Gestor de portfólio da Connex Capital, Gean Lima aponta que as falas do republicano foram benignas para o sentimento de risco global, após o aumento das tensões geopolíticas terem piorado o desempenho dos mercados recentemente. “Vimos o efeito de hoje [quarta-feira] não só nos juros, mas também no comportamento do dólar contra o real e outras moedas”, observa. Para o gestor, porém, o imbróglio sobre a Groenlândia ainda pode gerar desdobramentos negativos para os preços de ativos, uma vez que Trump segue insistindo que terá o controle da ilha.

Como fator de descompressão adicional sobre as taxas futuras, ainda que não seja possível determinar se foi mais relevante do que o front externo, Lima destaca a enquete eleitoral da AtlasIntel divulgada nesta quarta. Nas hipóteses de primeiro turno testadas, Lula segue com vantagem em relação a todos os candidatos, com 48% a 49% das intenções de voto dos entrevistados.

Por outro lado, o mercado viu com bons olhos a melhora do filho de Jair Bolsonaro nas simulações de segundo turno. Se, na edição de dezembro da pesquisa, Flávio era o candidato escolhido por 41% dos ouvidos, contra 53% que optaram pelo petista – uma diferença de 12 pontos -, agora essa distância caiu para 4 pontos (49% de Lula contra 45% de Flávio).

“A pesquisa consolida Flávio como o candidato de direita mais provável. No entanto, é importante notar que ele ainda está relativamente intocado por ataques da esquerda, em parte porque sua alta taxa de rejeição faz com que seja visto como um oponente menos competitivo contra Lula”, observa a equipe econômica da BuysideBrazil.

Com 10 meses para a eleição, a percepção do mercado é que a distância de 4 pontos entre o petista e Flávio pode ser retirada, diz Lima, da Connex. Os agentes estão vendo o senador como um possível candidato apto a enfrentar Lula e, também, mais alinhado a um esperado ajuste nas contas públicas, observa. “Ele já disse em conversas com empresários que a pauta para a campanha seria fiscal.”