Uma estratégia de comunicação que ganhou repercussão durante a eleição presidencial dos Estados Unidos em 2016 voltou a chamar atenção nos debates eleitorais brasileiros de 2026. A prática de se posicionar atrás do adversário enquanto ele fala, adotada por Donald Trump diante de Hillary Clinton, foi reproduzida em confrontos envolvendo Flávio Bolsonaro (PL) e Fernando Haddad (PT).
O episódio mais recente ocorreu no domingo (18), durante o primeiro debate presidencial entre Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizado pela Band. Em diferentes momentos, o senador permaneceu atrás do petista, fazendo gestos e expressões faciais enquanto Lula respondia às perguntas.
A movimentação provocou comparações com a postura de Trump em 2016 e reacendeu a discussão sobre o papel da linguagem corporal na comunicação política.
Flávio Bolsonaro usa espaço do palco durante debate com Lula
O encontro entre Lula e Flávio Bolsonaro foi marcado por provocações, acusações e divergências sobre temas como corrupção, economia e segurança pública.
Além das declarações dos candidatos, a movimentação pelo estúdio se tornou um dos elementos mais comentados do confronto.
Durante as intervenções de Lula, Flávio apareceu em diferentes enquadramentos posicionando-se atrás do presidente. O senador balançou a cabeça, fez gestos de discordância e reagiu às falas do adversário sem necessariamente interrompê-lo verbalmente.
O formato do programa permitia que os participantes circulassem pelo cenário, abrindo espaço para esse tipo de interação.
A estratégia também gerou desconforto entre integrantes da campanha petista e contribuiu para aumentar a tensão do debate.
A disputa entre os dois candidatos acontece na reta final do segundo turno presidencial, marcado para domingo, 25 de outubro.
Trump popularizou estratégia contra Hillary Clinton em 2016
A comparação remete ao segundo debate presidencial dos Estados Unidos, realizado em 9 de outubro de 2016, na Universidade Washington, em St. Louis.
Na ocasião, Donald Trump e Hillary Clinton participaram de um encontro com perguntas feitas por eleitores, em um formato que permitia a circulação dos candidatos pelo palco.
Enquanto Hillary respondia a uma pergunta, Trump permaneceu próximo e atrás da democrata, aparecendo nas imagens transmitidas pela televisão.
A cena ganhou repercussão internacional e foi interpretada por críticos como uma tentativa de intimidação. Trump contestou essa interpretação.
O episódio passou a ser lembrado como exemplo de como o posicionamento dos candidatos pode influenciar a percepção do público, mesmo quando não há uma intervenção verbal direta.
Haddad também adotou movimentação semelhante contra Tarcísio
A estratégia não ficou restrita ao confronto presidencial de 2026.
Durante a disputa pelo governo de São Paulo, Fernando Haddad utilizou uma movimentação semelhante em um debate contra Tarcísio de Freitas (Republicanos), realizado em 9 de agosto.
Na ocasião, o petista também se posicionou atrás do adversário enquanto ele falava, permitindo que sua presença fosse registrada pelas câmeras.
Embora os episódios envolvam políticos de diferentes campos ideológicos, a semelhança está no aproveitamento do espaço físico do estúdio como parte da comunicação eleitoral.
O posicionamento permite que o candidato que não está falando continue visível ao público e transmita reações por meio de expressões faciais, gestos e movimentos corporais.
Linguagem corporal ganha importância nas campanhas
A utilização desse recurso demonstra que os debates eleitorais não são disputados apenas por argumentos e propostas.
A maneira como os candidatos ocupam o palco, reagem às críticas e interagem visualmente com os adversários também influencia a construção de suas imagens públicas.
Em transmissões televisivas, uma expressão de desaprovação ou um gesto feito atrás do oponente pode ganhar destaque independentemente do conteúdo da resposta apresentada.
Nas redes sociais, esse efeito tende a ser ampliado pela circulação de vídeos curtos, que frequentemente destacam momentos de confronto e reações dos participantes.
A estratégia pode transmitir segurança e domínio do ambiente para determinados espectadores. Para outros, entretanto, a mesma postura pode ser percebida como provocação, desrespeito ou tentativa de intimidação.
Não há evidência de que a utilização desse recurso, isoladamente, determine o resultado de uma eleição.
Debate eleitoral vai além das propostas
A repetição da estratégia em diferentes campanhas mostra como técnicas de comunicação política podem atravessar fronteiras e ser adaptadas por candidatos de orientações ideológicas distintas.
No Brasil, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro reforçou essa tendência ao transformar gestos e movimentações em parte do confronto político.
Com o segundo turno se aproximando, os candidatos buscam não apenas convencer os eleitores por meio de propostas, mas também produzir imagens capazes de repercutir nas redes sociais.
Nesse cenário, a postura diante das câmeras passou a disputar espaço com o conteúdo dos discursos, ampliando a importância da comunicação não verbal nas eleições.
Da IstoÉ