Comportamento

Taj Mahal, joia arquitetônica da Índia, na mira de fanáticos hindus

Taj Mahal, joia arquitetônica da Índia, na mira de  fanáticos hindus

Turistas no Taj Mahal em Agra (Índia), em 19 de maio de 2022 - AFP

Trinta anos depois de um ataque de fanáticos hindus que destruiu uma mesquita secular em Ayodhya – ato que provocou distúrbios religiosos violentos -, os supremacistas têm como alvos outros locais muçulmanos como o Taj Mahal, joia arquitetônica e símbolo da Índia aos olhos do mundo.

A mesquita Gyanvapi, construída no século XVII na cidade de Varanasi, no estando de Uttar Pradesh (norte), é a mais ameaçada pelos partidários da Hindutva (supremacia hindu).


Na semana passada, de acordo com a imprensa local, aconteceram escavações ordenadas por um tribunal na área da mesquita, que teriam revelado um “Shiva Linga”, um objeto de forma fálica, “sinal” do deus Shiva para seus adoradores.

“Isto significa que é a área de um templo”, concluiu imediatamente Kaushal Kishore, ministro de Estado do BJP, o partido nacionalista hindu do primeiro-ministro Narendra Modi.

“Os hindus deveriam poder visitar e rezar”, acrescentou.

Os muçulmanos já estão proibidos de praticar suas abluções rituais no local em que foi encontrada a suposta relíquia. E agora temem que o local de culto islâmico tenha o mesmo destino que a mesquita Babri Masjid de Ayodhya (Uttar Pradesh), construída no século XVI.

Depois da destruição da mesquita em 1992, distúrbios religiosos – que estão entre os mais violentos da história da Índia independente – deixaram mais de 2.000 mortos, em sua maioria muçulmanos.

Os incidentes abalaram os fundamentos seculares do país e impulsionaram o nacionalismo hindu como força política dominante, preparando o caminho para a eleição de Modi em 2014 como chefe de Governo do país, que tem 200 milhões de muçulmanos.

– Orgulho nacionalista furioso e frágil –

Desde a década de 1980, o BJP apoia a construção de um templo dedicado ao deus Rama no mesmo local da mesquita e Modi iniciou a obra em 2020.

Desde então, extremistas hindus comparecem ao Taj Mahal, construído pelos mongóis – que governaram grande parte do subcontinente indiano entre os séculos XVI e XI – e declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

Eles reivindicam o direito de rezar no local, argumentando que o monumento foi construído na área de um antigo santuário dedicado a Shiva.

De acordo com Sanjay Jat, porta-voz da Hindu Mahasabha organização radical hindu -, o Taj Mahal foi construído em Agra (Uttar Pradesh) sobre um templo dedicado a Shiva “destruído pelos invasores mongóis”.

O mausoléu – construído entre 1631 e 1648 por iniciativa do imperador mongol Shah Jahan para perpetuar a recordação de sua falecida esposa Mumtaz Mahal – se tornou o símbolo universal do amor eterno, assim como a principal atração turística do país, que milhões de indianos e estrangeiros visitam a cada ano.

O fato de o Taj Mahal simbolizar a Índia aos olhos do mundo sempre enfureceu os supremacistas hindus. Atualmente, o ressentimento é expressado com ameaças abertas a sua integridade.

“Vou continuar lutando por isto até minha morte. Respeitamos os tribunais, mas, se necessário, destruiremos o Taj e provaremos a existência de um templo no local”, afirma à AFP Jat.

Este mês, um pedido foi apresentado por um membro do BJP em Uttar Pradesh para obrigar a Agência Arqueológica da Índia (ASI) a abrir 20 recintos do Taj que supostamente abrigariam ídolos hindus.

A ASI negou a existência de tais objetos e o tribunal rejeitou o pedido de maneira sumária.

Audrey Truschke, professora associada de História da Ásia meridional na Universidade de Rutgers (Estados Unidos), considera as afirmações “tão razoáveis quanto dizer que a Terra é plana”.

“Até onde posso discernir, não há uma teoria coerente sobre o Taj Mahal aqui”, afirma a especialista, que considera muito mais a expressão de um “orgulho nacionalista furioso e frágil, que não permite que nada não-hindu seja indiano e exige apagar a parte muçulmana da herança indiana”.