Tecnologia & Meio ambiente

Tadjiquistão inaugura polêmica barragem mais alta do mundo

Tadjiquistão inaugura polêmica barragem mais alta do mundo

Vista geral da represa hidroelétrica de Rogun, em 14 de novembro de 2018 - AFP

Projeto “vital”, ou delírio de grandeza? O Tadjiquistão inaugura nesta sexta-feira (16) a barragem mais alta do mundo em Rogun, desejada pelas autoridades deste país pobre da Ásia Central, apesar de trazer questões econômicas, ecológicas e geopolíticas.

Inaugurada em outubro de 2016 pelo presidente Emomali Rakhmon, muito ligado ao projeto, as obras da barragem de Rogun ainda não terminaram. Nesta sexta, será inaugurado apenas um dos seis geradores que deverão ficar ativos.

Em até dez anos, produzirá 3.600 megawatts – o equivalente a três reatores nucleares de nova geração, como os vendidos pelo grupo russo Rosatom na região.

Para o Tadjiquistão, que sofre com déficit crônico de fornecimento de energia elétrica e com diversos cortes de abastecimento no inverno, a barragem de Rogun é “vital”, como Rakhmon repetiu em diversas ocasiões.

Vendido para o grupo italiano Salini Impregilo por 3,9 bilhões de dólares, ela fica a 100 km a leste da capital, Dushanbe, e se tornará, com seus 335 metros de altura – 30 vezes mais do que a barragem chinesa de Jinping I – a construção mais alta de seu tipo no mundo.

Ela virou até “um conceito de consolidação nacional”, explicou o pesquisador Abdugani Mamadazimov à AFP, lembrando que o país está lutando para superar uma guerra civil de cinco anos que causou 150.000 mortes nos anos 1990.

Portanto, não é de surpreender que alguns tenham proposto batizar esta barragem com o nome de Emomali Rakhmon – já acusado por seus críticos de megalomania.

– Grande demais? –

Há dúvidas, porém, sobre se o Tadjiquistão realmente precisa desta barragem. O país já conta com Nurek, no sudoeste, uma das maiores represas do mundo, criada durante a era soviética. Alguns especialistas temem que as autoridades tenham sido ambiciosas demais.

No poder desde 1992, o chefe de Estado de 66 anos inaugurou em 2011 o “maior mastro de bandeira do mundo” (156 metros). Dushanbe também possui a maior biblioteca na região, a maior casa de chá do mundo e, em breve, “o maior e mais belo teatro na Ásia Central”, segundo Emomali Rakhmon.

Esses projetos, mesmo que desproporcionais, não apresentavam um risco ecológico. Mas Rogun está localizada “em uma área de intensa atividade sísmica, e diversos estudos advertiram para os riscos de uma construção tão grande quanto a barragem”, disse à AFP Filippo Menga, professor de geografia humana na Universidade de Reading (Reino Unido).

Os riscos geopolíticos do projeto, em uma região desértica, onde o acesso à água é limitado, diminuíram após a morte, em 2016, do presidente do Uzbequistão, Islam Karimov. Ele era um adversário fervoroso da barragem, já que seu país, especialmente o setor agrícola e o cultivo do algodão, dependem da água que vem do Tadjiquistão.

A ameaça era grande, já que o Uzbequistão é mais populoso e mais poderoso militarmente do que o Tadjiquistão, mas o sucessor de Islam Karimov, Shavkat Mirzioiev, aproximou-se de seu vizinho e iniciou uma distensão sem precedentes nas relações entre os dois países.

Por ora, Rogun ainda parece um enorme canteiro de obras, uma terra rochosa que cobre a área ao redor do poderoso rio Vaksh, graças à qual a represa produzirá seus milhares de megawatts.

O subengenheiro-chefe Sukhrob Ochilov comemorou o sucesso do projeto na quarta-feira, falando à imprensa. “Eu esperei por este momento. A inauguração de Rogun significa a construção de novas fábricas, o progresso econômico e o trabalho para o nosso povo”, declarou.