Surrealismo tropical

Surrealismo tropical

Foto de 1 de abril de 1970 do pintor espanhol Salvador Dali na apresentação de seu busto no museu Gustave Moreau em Paris - AFP/Arquivos

Tem uma história sobre arte que assenta como uma luva em muitos políticos atuais. Nela, a verdade e a mentira são tão irrelevantes uma como a outra. Ora leia.

Um dia o pintor Salvador Dali chegou em casa de Pablo Picasso com meia dúzia de telas debaixo do braço, reclamando em voz alta com o anfitrião.

— Pablo, disse Salvador ainda antes de a porta se fechar por detrás dele, você nem vai acreditar! Acabei de comprar estes quadros no mercado ali em baixo.

— Estão todos assinados por você, dizia, encostando as telas sem ordem aparente contra a parede branca da sala de estar, no apartamento no terceiro andar da Calle Montcada onde o génio surrealista malaguenho vivia em Barcelona.

— Miralos, Miralos! — Disse em quase frenesi — Acha que são verdadeiros?

Pablo olhou-o de uma maneira tão fria e desdenhosa que nem as quatro décadas de competição e amizade que uniram os dois pintores poderiam explicar; e, então, como protestando com o atrevimento do guri (Salvador era 23 anos mais jovem que ele), murmurou palavras secas e breves como uma ordem em surdina. Fica quieto, deixa eu olhar com atenção…

Era uma tarde de Junho e estava bastante calor na cidade Condal — a forma como os espanhóis se referem à capital da Catalunha — esse lugar de gente tão corajosa e singular que celebra como dia nacional a sua derrota contra a Espanha.

Languidamente, segurando as mãos atrás das costas, Picasso percorreu andando e com o olhar, apontado uma a uma a fila de quadros espalhados à pressa pelo pintor de bigodes retorcidos na parede bem iluminada pela luz espessa do final de tarde.

— Falso… falso — e seguia em compasso, ora chegando-se mais perto ora se afastando das composições cubistas que jaziam indefesas como os mamelucos de Goya contra o olhar do pintor de Guernica — falso… falso… falso — para rematar, imediatamente antes de atingir com o olhar a extremidade da sala onde o último quadro se encostava à esquina com a porta da cozinha — falso!

— São todos falsos, Salvador, enganaram você, moleque, espero que não tenha pago nenhuma fortuna por todo esse lixo!

Deixando Picasso terminar sua análise de especialista interessado, Salvador se aproximou do mestre, sorrindo como um Pica das Galáxias da arte universal e, deixando rolar um sarcasmo mole como relógios destorcidos, exclamou: Senhor Pablo, você está completamente enganado! Os dois primeiros — disse apontado para eles — eu estava junto quando você os pintou. Eu vi.

Foi então que Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, olhando Salvador Domingo Felipe Jacinto Dalí i Domènech, no centro do seu olhar disparou, certeiro como um tenor rebentando uma taça de cristal.

— Salvador, eu pinto Picassos falsos melhor que ninguém!

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Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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