Edição nº2547 11/10 Ver edições anteriores

Supremo tribunal da fantasia

O Mundo da Fantasia andava tenso.

E olha que aquilo nunca foi um lugar muito calmo.

Lá, as diferenças são resolvidas em ponta de faca ou com maçãs envenenadas.

No Mundo da Fantasia, você não vai ver o pessoal saindo às ruas ou batendo panelas.

Quando a coisa pega, é Rainha mandando arrancar coração, Lobo comendo criancinha e o escambau.

Porco não se dá bem com Lobo, Cigarra se pega a tapa com Formiga e por aí vai.

São tantos assassinatos, vinganças, trapaças e mortes que fazem o Rio de Janeiro parecer um retiro espiritual.

Só divórcio é que não rola por lá.

Princesas em coma têm o estranho hábito de despertar ao primeiro beijo de um desconhecido. Entregam-se a qualquer príncipe que chegar a cavalo e vivem felizes para sempre, diferente dos casais daqui do mundo real, que estão sempre reclamando.

Mas isso é assunto para outro texto.

A verdade é que essa semana havia uma especial tensão no ar.

O STF, Supremo Tribunal das Fábulas, estava reunido.

Ocorre que o Lobo da Chapeuzinho Vermelho (vermelho, pegou?), entrou com um habeas corpus, fato inédito para aquela história.

Durante séculos, ninguém discutiu o caso.

Vovozinha ainda viva dentro da barriga do Lobo era caso encerrado.

Não há o que investigar.

O próprio delegado da Polícia Federal resolvia tudo com um caçador local.

Só que dessa vez o Lobo resolveu encrencar.

Seu advogado alegou que — apesar das evidências — só poderiam abrir a barriga do Lobo quando o processo transitasse em julgado.

A Ministra Coruja, decana do STF, reagiu:

– Presidente, se aguardarmos o trânsito em julgado e a Vovozinha estiver viva nas entranhas do Lobo, quando abrirmos sua barriga, já será tarde demais! Não pode isso!

Do outro lado da bancada, o Ministro Raposão, indicado pelo próprio Lobo ao tribunal, saiu em sua defesa:

– Data máxima vênia, Presidente, nós aqui no tribunal temos uma disciplina, um rito que deve ser seguido. Se acelerarmos os processos, corremos o risco de nos transformarmos num tribunal de injustiças.

Horas de discussão se seguiram.

A Ministra Rainha Presidente, famosa por suas escolhas sempre equilibradas, coçou o queixo e decidiu:
– Senhores, vou pedir um recesso. Assim, poderemos analisar melhor essa questão.

Ah, pronto!

A verdade é que o povo do Mundo da Fantasia estava por aqui do Lobo.

Sempre o acusavam de ser um sujeitinho rasteiro, encrenqueiro, capaz de enganar criancinhas e comer velhotas.

E não era só esse caso.

Tinha ainda o do tríplex dos Três Porquinhos, que o Lobo insistia que não derrubou.

E aquela história do Sítio do Pica-Pau Amarelo que nunca foi explicada.

Os dias se passaram arrastados.

Na data marcada para a votação, o Mundo da Fantasia estava tomado por manifestantes.

Cobras falantes, anões mineradores, bruxas, fadas, todos ansiosos pela decisão.

O STF confabulou por horas e, justamente quando a Ministra Rainha Presidente ia anunciar a decisão, o pau quebrou feio.

Invadiram castelos de todas as princesas, mataram rainhas e reis, arrancaram cabeças.

Porquinhos fofinhos viraram feijoada, Cigarras e Formigas pisoteadas sem dó, Lobos apedrejados em praça pública.

Ninguém teve paciência para conhecer a decisão.

Porque no Mundo da Fantasia é assim.

Todo mundo sabe que não importa o que decidirem, na próxima vez que contarem a história, a Vovozinha morre no fim.

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Mentor Neto

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