Cultura

Super-heróis da diversidade

Em seu novo filme, “Os Eternos”, o estúdio Marvel deixa de lado os grandes sucessos para apresentar dez personagens inéditos com características jamais vistas antes

Crédito: Divulgação

TODAS AS CORES “Eternos”: elenco de diversas ascendências e orientações sexuais (Crédito: Divulgação)

Se você ama alguma coisa, deve protegê-la.” A filosofia defendida pela guerreira Thena em “Eternos” poderia servir de metáfora para o próprio comportamento da Marvel em relação ao seu novo lançamento. Por trás de mais um filme de super-heróis que deve arrebentar nas bilheterias, o estúdio e sua companhia-mãe, a Disney, deu um passo importante para promover a diversidade e, ao mesmo tempo, proteger-se da cultura do cancelamento que invadiu a indústria cinematográfica.

Os “Eternos” são guerreiros imortais que vieram do planeta Olympia e vivem entre nós há milhares de anos. Estão na Terra para salvar a humanidade de alienígenas predadores e malignos conhecidos como Deviantes. Ambos foram criados pelos Celestiais, deuses cósmicos que vagam pelo universo inventando mundos e seres para habitá-los. O filme narra a batalha entre eles. Nos quadrinhos, idealizados por Jack Kirby (criador do Homem-Aranha, Capitão América e Hulk), publicados originalmente em 1976, os Eternos representam o auge da evolução humana. No filme, simbolizam a pluralidade de gêneros e origens cada vez mais presentes na cultura global.

VERSÁTIL Chloé Zhao: do Oscar por “Nomadland” à filme da Marvel (Crédito:Sophie Mutevelian)

A Marvel já vem caminhando nessa direção há um bom tempo, com produções como “Viúva Negra” e “Capitã Marvel”, liderado por mulheres, e “Pantera Negra”, o primeiro protagonista negro a estrelar uma de suas produções. “Eternos”, no entanto, leva essa mensagem a outro patamar: apresenta ao público dez novos super-heróis, todos inéditos nas telas.

O filme traz uma série de personagens que cabem na classificação “nunca antes na história dos super-heróis”. Essa variedade de tipos caiu como uma luva para a diretora Chloé Zhao, cineasta de origem asiática e vencedora do Oscar de Melhor Filme por “Nomadland”. “Para contar esse enredo, precisávamos captar o lado épico e a intimidade de cada um dos personagens, trazendo esses dois elementos ao mesmo tempo”, afirma Chloé. “Temos um elenco incrivelmente talentoso, único e diverso. Os papéis que eles interpretam e a jornada de transformação que são obrigados a enfrentar representam os diversificados aspectos da natureza humana e a complicada dualidade dentro de nós.”

Apenas o começo

Além de atores e atrizes das mais diferentes ascendências, “Eternos” também marca a estreia do primeiro super-herói assumidamente gay do Universo Cinematográfico Marvel (MCU). A falta de representantes da comunidade LGBTQIA+ era uma crítica antiga dos fãs – e da própria indústria de Hollywood, cada vez mais atenta ao politicamente correto e a produções sem preconceitos.

“É significativo e importante fazer parte de um filme com um elenco tão diverso, várias crianças, de diferentes nações e cores, vão poder se identificar com os heróis”, afirma a atriz britânica-chinesa Gemma Chan, em entrevista à ISTOÉ.

Porém, a atriz afirma que não entende o motivo de tanto alvoroço em torno do elenco. “Não deveríamos estar felizes por isso. Está na hora de normalizar as diversidades. Por mais elenco com gays, mudos, chineses, negros. Acredito que a civilização já alcançou esse patamar de aceitação”, afirma.

No longa, o grupo de heróis foi criado por um tipo de Deus. Eles demonstram fiel lealdade e são guiados por essa figura divina. Sendo capazes, inclusive de matar em nome de Deus. Indagado sobre o assunto, Richard Madden, ator que interpreta a figura mais forte dos dez heróis, Ikaris, afirmou que não é religioso e que não saberia dizer quais são seus limites caso seguisse uma divindade, mas que o importante no filme não é esse caso, mas sim “a união do grupo, a honestidade e franqueza que cada membro apresenta ao outro” – entretanto, não é o que o filme mostra com exatidão.

Após vivenciar a pandemia, em um mundo repleto de ódio, preconceitos e raiva, a humanidade merece ser salva ou dizimada para sempre? Essa é a pergunta que move as 2h37 minutos de Eternos. Se fossem reais, a humanidade ainda tinha salvação? Para Richard, sem dúvida. “Eu sempre penso positivo. Se fosse um eterno salvaria sem pensar duas vezes”. Mas Gemma, não tem tanta certeza assim: “Tem dias que você liga a televisão e só vê tragédia e coisas horríveis. Eu simplesmente não consigo pensar 100% no lado positivo”, explica.

Para o presidente da Marvel, Kevin Feige, o personagem Phastos, interpretado por Brian Tyree Henry, “é apenas o começo de uma fase mais representativa da sociedade no MCU”. Especialista em armas e tecnologia, ele vive com outro homem e tem um filho adotivo.

O produtor Nate Moore afirma que a opção por incluir comportamentos mais condizentes com os que vemos na sociedade atual teve como objetivo apresentar ao público um lado da Marvel que ninguém nunca havia visto. “Queremos que a plateia descubra essa mitologia. É um desafiador filme de ficção científica, mas com um coração humano. Esperamos que as pessoas encontrem super-heróis com os quais possam se identificar.”