Artes Visuais

Sul global com sotaque português

Vigésima edição do Festival Sesc_Videobrasil mostra o amadurecimento da plataforma criada para reconhecer a produção simbólica das margens do sistema mundial

DIVERSIDADE No vídeo “Faz que vai” (2015) Barbara Wagner e Benjamin de Burca enfocam bailarinos que misturam frevo e ritmos contemporâneos como funk, swingueira, electro e vogue (Crédito:Divulgação)

20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil – Panoramas do Sul/ Sesc Pompéia, SP/ até 14/1/2018

América Latina, Caribe, África, Oriente Médio, Oceania e alguns países da Europa e da Ásia, como Grécia e Índia, compõem o Sul geopolítico – conceito que aproxima nações em desenvolvimento –, que orienta as ações do Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil há 20 anos. Cinquenta artistas de 25 países dessas regiões foram selecionados para a mostra “Panoramas do Sul” que abriu na quarta 4, no Sesc Pompéia, em São Paulo. Segundo a equipe curatorial, eles oferecem novas visões de mundo para o momento de crise global. “Não é surpresa que uma produção desde sempre pautada pela ideia de resistência e pela vocação política floresça e se redefina em um cenário de retrocesso e incerteza”, diz a curadora-geral Solange Farkas.

A novidade deste fórum dos discursos de resistência é a assimilação de Portugal entre os países do Sul global, com trabalhos dos artistas Filipa César, Pedro Barateiro e o duo Von Calhau! “O trabalho de Von Calhau! cria um universo surreal e onírico que pode ser interpretado não apenas como vazão a outras realidades possíveis, mas como um posicionamento político”, diz o curador português João Laia, convidado para o comitê curatorial desta edição. O acento português do CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) sobressai ainda com a presença do angolano Muntu-Kuta Nolumbu, de Angola, dentro da instalação “Museu do Estrangeiro”, do cearense Ícaro Lira.

Inserido no galpão de oficinas de criatividade, “Museu do Estrangeiro” é a obra de expografia mais complexa da mostra. Se, por um lado, atende ao objetivo do trabalho de constituir-se a partir de ações com o público nas oficinas, por outro ganha uma visualidade confusa, atravessada pelos elementos do espaço – que em nada se assemelha a um espaço expositivo do gênero cubo branco. Mas o resultado acaba por refletir a própria condição provisória do imigrante, em suas dificuldades de inserção aos novos contextos.

Transmited from the Liberated Zones” (2015), de Filipa César, aborda territórios controlados pela guerrilha em Guiné-Bissau (Crédito:Divulgação)

A mostra se espalha por diversos espaços – área de convivência, hall do teatro, rua central – e tem momentos em que traça um belo diálogo com a arquitetura de Lina Bo Bardi, como o vídeo “Of Nationhood” (da Nacionalidade), de Thando Mama, da África do Sul, em interessante relação com a sala de leitura do espaço de convivência.

Cabe apontar ainda que, apesar de o festival ter incorporado ao seu escopo todas as linguagens artísticas, continua tendo o vídeo como idioma mais forte e determinante.

Roteiros

Vozes do Brasil

COLETIVIDADE Os cineastas Karin Aïnouz e Marcelo Gomes reeditam no Panorama instalação sobre o Carnaval (Crédito:Divulgação)

35º Panorama da Arte Brasileira – Brasil por Multiplicação/ Museu de Arte Moderna, SP/ até 17/12

A tomada de posição política, ética e social é a mais importante das diretrizes assumidas pela curadoria do 35º Panorama da Arte Brasileira – Brasil por Multiplicação, no MAM-SP. Entre os trabalhos mais fortes da exposição estão precisamente aqueles que afirmam novos posicionamentos a partir de processos de criação e elaboração coletiva. Como “Macunaima Colorau”, de Lourival Cuquinha e Clarisse Hoffmann, uma audio-instalação realizada a partir de enquete nas ruas de cidades pernambucanas com as perguntas “Você é índio?”, “Você é branco?”, “Você é negro”?. O trabalho tece uma autodeclaração da identidade étnica e racial do povo brasileiro.

Outro tecido social elaborado na mostra é “Soy Mandala”, de Cadu, escultura em crochê realizada com a participação de cegos e mulheres de terceira idade, durante residência do artista no México. O projeto educativo colaborativo “Através”, do Coletivo Mão na Lata, apresenta fotografias feitas em oficinas de câmeras artesanais por jovens moradores do complexo da Maré, no Rio; e o jardim criado por João Modé dentro da sala envidraçada do museu também exalta a necessidade que temos, mais que nunca, de espaços de trocas.

Ao se basear em cinco princípios do texto Esquema Geral da Nova Objetividade (1967), de Hélio Oiticica, a curadoria de Luiz Camillo Osório reafirma a atualidade do artista e a influência que o neoconcretismo continua exercendo em parte da produção contemporânea brasileira. Mas o melhor deste Panorama são mesmo os trabalhos colaborativos, que apontam para onde a arte, a os artistas e a sociedade tem de ir: a convivência com a diferença. PA