Coluna: Guilherme Amado, do PlatôBR

Carioca, Amado passou por várias publicações, como Correio Braziliense, O Globo, Veja, Época, Extra e Metrópoles. Em 2022, ele publicou o livro “Sem máscara — o governo Bolsonaro e a aposta pelo caos” (Companhia das Letras).

Subitamente sensível a direitos humanos, Bolsonaro não parece o mesmo da pandemia

Bolsonaro, que passou a pandemia indiferente às centenas de milhares de vítimas e famílias, agora se preocupa com golpistas do 8 de Janeiro

Bolsonaro
Bolsonaro no Espaço Senador Ivandro Cunha Lima Foto: Reprodução

O súbito interesse de Jair Bolsonaro pelo destino dos golpistas do 8 de Janeiro, em um surto humanista do ex-presidente, contrasta com a mais completa indiferença e insensibilidade de Bolsonaro em relação às 715,6 mil pessoas que morreram de Covid-19, vítimas da pandemia que estourou em seu governo.

Réu no STF pelas articulações golpistas, Bolsonaro agora lidera a narrativa bolsonarista segundo a qual a horda que invadiu e depredou as sedes dos três Poderes era composta por velhinhas inofensivas e pais e mães de família honestos, todos muito patriotas e incautos.

O ex-presidente reclama das penas aplicadas aos condenados, articula no Congresso por uma anistia e até cobra publicamente Lula, seu arquirrival, por um indulto aos golpistas que quebraram de cima a baixo o Palácio do Planalto.

A postura veste bem a narrativa de perseguição política que o bolsonarismo tenta emplacar contra o STF e Alexandre de Moraes. Mas a defesa com tanto afinco dessa tal liberdade para delinquir e depredar, lamentando as condenações de golpistas, não foi vista nem de longe em relação à vida de quem morreu de Covid.

Não se ouviram da boca de Bolsonaro lamentos sobre Flávia Carneiro de Araújo, morta aos 34 anos em 24 de maio de 2021, 25 dias depois do nascimento do filho, em Belo Horizonte. Nem sobre a tragédia da família Ferreira, de Macaparana (PE), que num intervalo de menos de um mês perdeu a mãe de 67 anos e três filhos. Nem sobre a morte da médica recém-formada Amanda Tallita da Silva, aos 30 anos, em março de 2021, uma das profissionais da linha de frente em Goiânia. Ele até lamentou as mortes por asfixia no Amazonas em meio à falta de oxigênio nos hospitais do estado, mas isentou seu governo de qualquer culpa. Bolsonaro ignorou as mortes de famosos como Tarcísio Meira, Nicette Bruno, Agnaldo Timóteo e Nelson Sargento.

Mais do que palavras de lamento, a real empatia com vítimas e familiares deveria se traduzir em uma postura exemplar e respeitosa, esperada de um presidente em meio à maior crise sanitária do século. Mas, com Bolsonaro, foi o contrário. E aí vieram declarações como “e daí? Lamento, quer que eu faça o quê?”, “a gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”, “não sou coveiro” e “tem que deixar de ser um país de maricas”. Até imitar gente com falta de ar pela “gripezinha” Bolsonaro imitou, enquanto minimizava o poder do vírus e trabalhava constantemente contra a vacinação obrigatória.

Anos após o fim da pandemia, o ex-presidente segue o mesmo em relação a esse assunto. Ele não se pronunciou no início deste mês, quando se completaram cinco anos do início da pandemia, e continua sem fazer qualquer mea-culpa.

A propósito, embora Bolsonaro agora vá ser julgado no STF pela tentativa de golpe, em um caso que tramitou relativamente rápido no Supremo, além de ter sido indiciado por desvio de joias do acervo presidencial, não há qualquer previsão de punição a ele por seu comportamento na pandemia.