Starlink: como empresa de Musk influencia geopolítica global

Starlink: como empresa de Musk influencia geopolítica global

"RedeCriada para fornecer acesso à internet mesmo em regiões remotas, rede do bilionário sul-africano se tornou ferramenta de comunicação vital em zonas de guerra e áreas de crise. Mas também há riscos nisso.Seja nos desertos inóspitos do Saara ou na densa Floresta Amazônica, na imensidão do Oceano Pacífico ou na camada de gelo do Ártico, em muitas partes do mundo não existe acesso à internet.

Originalmente, o bilionário sul-africano da tecnologia Elon Musk promoveu o desenvolvimento da Starlink para resolver precisamente esse problema, levando internet de alta velocidade a regiões do mundo onde cabos ou fibra ótica não chegam; ou onde isso é tão caro que simplesmente não compensa.

Entretanto, a gama de aplicações da Starlink expandiu-se consideravelmente. O sistema passou a ser utilizado para comunicação em áreas de desastre e também por exércitos ou movimentos de protesto – por exemplo, em áreas onde a internet original foi destruída por fogo inimigo ou bloqueada por regimes ditatoriais.

Como funciona a Starlink?

Essencialmente, trata-se de um sistema de internet via satélite com quase 10 mil pequenos satélites orbitando a Terra. Eles retransmitem pacotes de dados entre si por meio de feixes de laser e não exigem uma linha de visão direta e constante com uma estação terrestre que conecte o sistema de satélites à internet convencional.

Ao contrário de outros satélites de internet, que orbitam a uma altitude de aproximadamente 36 mil quilômetros, os satélites Starlink estão localizados a apenas cerca de 550 quilômetros acima da superfície da Terra. Isso permite que os sinais de internet sejam transmitidos muito mais rapidamente. A latência é mantida tão baixa que permite o funcionamento até mesmo de aplicações que exigem grande quantidade de dados.

Os usuários precisam apenas de um pequeno terminal receptor com uma antena controlada eletronicamente que se alinha automaticamente com os satélites que passam. Esses terminais, então, encaminham o sinal recebido para um roteador próximo, que fornece a conexão de internet dentro da rede local.

Onde a Starlink já foi utilizada?

Ucrânia: Desde o início da guerra de agressão da Rússia, em fevereiro de 2022, a Starlink tornou-se uma das ferramentas de comunicação mais importantes na zona de guerra. Os militares utilizam o Starlink para coordenar unidades, operar drones e controlar sistemas terrestres não tripulados. No setor civil, o sistema é utilizado por hospitais, serviços de emergência, fornecedores de energia e a ferrovia ucraniana, entre outros.

Alega-se também que o Exército russo está acessando a Starlink usando terminais contrabandeados ilegalmente para o país através de países intermediários. O Ministério da Defesa da Ucrânia afirmou que trabalha em estreita colaboração com a operadora, SpaceX, para restringir ao máximo esse uso.

Sudão: Na guerra civil sudanesa, a Starlink é usada principalmente pelas Forças de Apoio Rápido (RSF), grupo paramilitar que luta contra o Exército estatal. Centenas de dispositivos foram contrabandeados para o país através dos Emirados Árabes Unidos, e um verdadeiro mercado negro de terminais Starlink se estabeleceu. As RSF usam esses dispositivos para comunicação e coordenação entre suas milícias, enquanto as Forças Armadas Sudanesas (SAF) tentam bloquear sua importação e uso.

Irã: No início deste ano, protestos em todo o país eclodiram contra o regime em Teerã, que respondeu, entre outras coisas, desligando a internet. No entanto, relatos indicam que milhares de terminais foram contrabandeados para o país e revendidos no mercado ilegal. Isso permitiu que manifestantes usassem a Starlink para coordenar seus atos contra o regime, apesar da censura estatal da internet.

Venezuela: A Starlink também já foi usada no passado para burlar restrições de informação e garantir acesso gratuito à internet. Durante muito tempo, o serviço só esteve disponível extraoficialmente, através da compra de kits no comércio local. Após a intervenção dos EUA e a captura de Nicolás Maduro, Elon Musk ofereceu temporariamente acesso gratuito à internet aos cidadãos do país.

Faixa de Gaza: Desde julho de 2024, a Starlink tem sido usada para fins humanitários em uma Faixa de Gaza amplamente destruída. Organizações de ajuda humanitária e um hospital de campanha podem utilizá-lo para fornecer assistência por telemedicina e coordenação logística. No entanto, o acesso generalizado para civis permanece limitado, em parte devido a preocupações de segurança por parte de Israel.

Quais são as críticas à Starlink?

A Starlink costuma ser a única conexão de internet em zonas de conflito. Isso confere a Elon Musk uma enorme influência. Em alguns casos, a comunicação de forças armadas inteiras ou organizações humanitárias depende de sua empresa, a SpaceX. Por exemplo, Musk já se recusou a ativar o serviço para a Ucrânia durante um ataque perto da Crimeia. O presidente dos EUA, Donald Trump, também ameaçou a Ucrânia com o desligamento dos satélites para forçar Kiev a fazer concessões nas negociações.

Há também críticas do ponto de vista ecológico. Os satélites Starlink são produzidos em massa e têm uma vida útil de apenas cerca de cinco anos. Em média, um ou dois satélites de Musk se desintegram na atmosfera terrestre todos os dias; o óxido de alumínio liberado nesse processo pode afetar a camada de ozônio e contribuir para o aquecimento global. Além disso, os numerosos satélites refletem a luz solar, tornando o céu noturno mais claro, o que também pode ter um impacto sobre a vida selvagem.

Quem está trabalhando em alternativas?

Apesar de todas as preocupações, alternativas já estão sendo desenvolvidas, principalmente na Europa, para quebrar o monopólio da Starlink.

O maior concorrente privado da SpaceX atualmente é a Eutelsat. No entanto, seu serviço de satélite, OneWeb, com uma frota de mais de 600 satélites, é significativamente menor. Além disso, o serviço se concentra em clientes corporativos e aplicações marítimas. A Eutelsat também está envolvida no desenvolvimento da IRIS², uma ambiciosa rede de satélites de alta segurança da União Europeia. Essa rede visa tornar a Europa menos dependente da Starlink. Contudo, ela não estará operacional antes de 2029.

Elon Musk também enfrenta concorrência nos EUA, principalmente de seu colega bilionário Jeff Bezos. A empresa de Bezos, a Amazon, está trabalhando intensamente em seu serviço Amazon Leo: a construção de uma rede com mais de 3 mil novos satélites em órbita baixa da Terra. A Amazon planeja estrear seu serviço comercialmente ainda neste ano – inclusive no Brasil, graças a uma parceria com a Sky.

Os céus estão prestes a ficar mais congestionados , especialmente porque a China está desenvolvendo dois sistemas próprios de comunicação via satélite. O projeto estatal Guowang é voltado principalmente para uso nacional e militar e prevê a inclusão de até 13 mil satélites, enquanto o projeto Qianfan, com aproximadamente 12 mil satélites, tem uma orientação mais comercial e destina-se a atender países emergentes e em desenvolvimento. Os primeiros lançamentos em massa para ambos os projetos também estão programados para este ano.