Comportamento

“Sou cheirosa, mas arranco sangue”

É assim que Bibi Perigosa se descreve em um perfil na internet. Quem são as poderosas que, como ela, assumiram o lugar de seus maridos na hierarquia do crime e comandam parte do mercado de drogas do Rio de Janeiro

Crédito: Divulgação

Fabiana Escobar (à esquerda) - Apelido: Bibi Perigosa - Relação: ex-mulher de Saulo de Sá Silva, o Barão do Pô - Histórico: Passou boa parte dos 14 anos de casamento cumprindo e repassando ordens que o traficante lhe dava de dentro da cadeia -
Danúbia de Souza Rangel (centro) - Apelido: Xerifa da Rocinha - Relação: mulher do traficante Nem da Rocinha - Histórico: Foi acusada de repassar aos comparsas de Nem, quando ele estava preso, as instruções do criminoso sobre o tráfico na Rocinha. Condenada em 2016 a 28 anos de prisão pelos crimes de tráfico de drogas, associação para o tráfico e corrupção ativa, está foragida -
Marlucia Rodrigues Moreira (à direita) - Apelido: Tiazinha da Rocinha - Relação: irmã do traficante morto Bem-Te-Vi, e ex-mulher de Orlando José Rodrigues, o Soul, e Thiago Schimmer Cáceres, o Pateta - Histórico: Antes foragida, foi presa em 2012 por tráfico de entorpecentes e associação ao tráfico (Crédito: Divulgação)

Elas ostentaram roupas caras e carros luxuosos, sob a alcunha de “primeiras-damas do tráfico”. Faziam questão de mostrar em seus perfis nas redes sociais a vida glamurosa que levavam ao lado de seus companheiros, poderosos traficantes de drogas do Rio de Janeiro. Até que eles foram presos e elas tiveram de assumir um novo papel na hierarquia do tráfico. Movidas por paixão, necessidade, em meio a relacionamentos violentos, dificuldades financeiras e busca por status, assumiram negócios ilícitos, passaram a ser os olhos e ouvidos dos criminosos do lado de fora das prisões e se tornaram as xerifas do tráfico.

“Sou como uma rosa: sensível, cheirosa, preciso de cuidados, mas posso arrancar sangue”. É assim que Fabiana Escobar, se descreve em um perfil na internet. Mais conhecida como Bibi Perigosa, ela foi casada por 14 anos com Saulo de Sá Silva, o Barão do Pó, traficante da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Bibi tinha uma rotina luxuosa em uma casa com piscina, sauna e carro do ano. Passou boa parte do casamento, no entanto, cumprindo à risca as ordens que o traficante lhe dava de dentro da cadeia.

Se o primeiro apelido lhe foi dado pelas violentas demonstrações de ciúmes, o comando do tráfico da Rocinha lhe rendeu outro: Baronesa do Pó. A devotada esposa chegou a entrar na prisão carregando R$ 80 mil para facilitar a fuga do companheiro. Sua história inspirou a autora de novelas Gloria Perez a criar a personagem Bibi, interpretada pela atriz Juliana Paes em a “A Força do Querer”, que ocupa atualmente o horário nobre da Rede Globo. Na vida real e na ficção, a justificativa é a mesma: o amor cego. No caso de Fabiana, ele só acabou quando descobriu que Saulo trocava cartas com outra mulher.

Status

Afora a paixão, há a busca pelo status. Chamar a atenção de homens do tráfico é, para muitas, um prêmio. Aquelas que já conseguiram o feito e ostentam pelo morro e pelas redes sociais joias, roupas caras e viagens luxuosas se tornam inspiração para adolescentes que desejam o mesmo futuro para si.

Para se ter ideia, quem busca no Facebook o nome de Danúbia de Souza Rangel, a mulher de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, se depara com uma dezena de perfis falsos, fora aqueles que são administrados por fãs-clubes com os nomes de “Diva Dada Rangel”, “Danubianáticas Rangel”, entre outros. Em um deles, uma fã diz: “não existe mulher feia, existe mulher que não conhece o dinheiro do tráfico”.

Danúbia e Nem viviam uma relação de amor e ódio. A loira tinha gostos luxuosos, que fazia questão de exibir. Nem chegou a alugar um helicóptero para que ela sobrevoasse a cidade, e as fotos do passeio rapidamente foram postadas em seus perfis nas redes sociais. Apesar dos mimos, gravações da polícia mostraram que o traficante batia na companheira.

Pouco depois de o marido ser preso, em 2011, Danúbia deixou a Rocinha e foi viver em Campo Grande, onde Nem estava recluso. Acusada de repassar ao tráfico as instruções que recebia do marido em visitas, foi presa e chegou a ser inocentada. Em 2016, porém, foi condenada a 28 anos de prisão pelos crimes de tráfico de drogas, associação com o tráfico e corrupção ativa. Fugiu. A polícia do Rio de Janeiro oferece recompensa de R$ 1 mil a quem tiver pistas do paradeiro da xerifa loira.

EM FAMÍLIA Alessandra da Costa, irmã e braço direito do traficante Fernandinho Beira-Mar, presa na quarta-feira 24
EM FAMÍLIA Alessandra da Costa, irmã e braço direito do traficante Fernandinho Beira-Mar, presa na quarta-feira 24 (Crédito:Guilherme Pinto / Agência O Globo)

Entre as disputas de poder da Rocinha, Danúbia assumiu o posto de primeira-dama que por pouco não foi de outra mulher. Em 2005, quando Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-Te-Vi, então chefe do tráfico, morreu, era o seu cunhado que deveria sucedê-lo. Marlucia Rodrigues Moreira, a Tiazinha da Rocinha, que era irmã de Bem-Te-Vi e esposa de Orlando José Rodrigues, o Soul, seria, enfim, a mulher do dono do morro.

Soul, no entanto, foi assassinado, não se sabe se por ordem do próprio Bem-Te-Vi ou de Nem, que assumiu o comando da comunidade logo depois. Marlucia ainda é viúva de outro chefão do tráfico, o Pateta, que integrava a quadrilha de Nem. Em 2012, ela foi presa por tráfico de entorpecentes e associação ao tráfico.

Segundo Lucia Sestokas, responsável pelo Projeto Gênero e Drogas do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania, para entender o que leva homens e mulheres a entrarem no tráfico, é preciso vê-lo, antes de tudo, como um mercado de trabalho. “Se existem empresas familiares em que a mulher ocupa um posto de trabalho porque é da família, no tráfico não é diferente”, afirma. No México, isso é ainda mais comum. Enedina Arellano Félix, a ‘Narcomami’, é a mulher mais poderosa do tráfico mundial. Especializada em lavagem de dinheiro, ela se tornou líder do cartel de Tijuana depois da queda dos homens da família.

O Brasil também viu na semana passada outro exemplo de irmã que ajudava a administrar os negócios em tempos difíceis. Na última quarta-feira 24, a Polícia Federal prendeu a irmã e cinco filhos de Fernandinho Beira-Mar, que controlava o tráfico de favelas da Baixada Fluminense de dentro da prisão. Alessandra da Costa, seu braço-direito, foi detida em um condomínio de luxo onde mora em Duque de Caxias. Ela recebia mensagens do traficante e administrava seu patrimônio.

Hierarquia

Embora os casos de mulheres com mais regalias dentro de facções criminosas no Brasil tenham aumentado, essa não é a realidade da maioria das que se envolve em delitos de tráfico de drogas. “Isso acontece sempre por conta de união afetiva com membros das facções. No geral, a mulher não exerce posição de comando ou chefia”, diz Sonia Drigo, consultora do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

A busca por amor ou status também não é a principal razão que as leva a entrarem no tráfico. A necessidade financeira está no topo da lista. Hoje, 58% das presas do País estão envolvidas com delitos de tráfico de drogas. São, em sua maioria, jovens, com filhos e baixa escolaridade. “Aquelas que são detidas nas entradas das cadeias e penitenciárias, sim, muitas cometem delitos pelos companheiros, filhos, pais ou irmãos”, afirma Sonia. “Seja para manter as relações afetivas, a dependência química deles, pagar segurança interna ou quitar dívidas adquiridas com o poder paralelo”. Independente do motivo, no livro que conta sua história na Rocinha, Fabiana Escobar alerta: ninguém sai ileso do mundo do tráfico.

As mulheres e o tráfico
Maior parte das mulheres encarceradas está presa por crimes que envolvem o mercado de entorpecentes

– 37.380 das 579.7811 pessoas encarceradas no Brasil são mulheresNo período de 2000 a 2014 o aumento da população feminina foi de 567,4%

– 58% das mulheres presas no País estão envolvidas com delitos de tráfico de drogas A maioria dessas mulheres ocupa uma posição coadjuvante no crime

– A probabilidade de uma mulher ter sido presa por crime relacionado a drogas é 2,46 vezes maior do que entre os homens