Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais

Entre 10 e 100 bilhões de organismos vivos habitam cada litro de água do mar. Mas este “microbioma oceânico”, que tornou o planeta habitável, permanece em grande parte desconhecido e uma missão científica – realizada com a Marinha Francesa – pretende catalogá-lo.

“O microbioma do planeta Terra é o tema do século”, diz Colomban de Vargas, diretor de pesquisa do CNRS, centro francês de pesquisa científica, na estação biológica de Roscoff (oeste).

Este suíço, “obcecado pela exploração”, dedicou-se a mapear o plâncton oceânico, esta grande “sopa de micróbios” composta por vírus, bactérias, protistas, animais, etc. Essas “florestas invisíveis”, navegando à mercê das correntes oceânicas, tornaram o planeta habitável, produzindo a maior parte do oxigênio que respiramos, detalha.

“A biodiversidade é, sobretudo, microbiana. Por 3 bilhões de anos, havia apenas micróbios”, diz o pesquisador. Agora, “não se sabe com quais micróbios vivemos, nem quantos existem na Terra”.

Aproveitando as lições da missão “Tara Oceans”, que já realizou 220 medições de microrganismos marinhos, Colomban de Vargas e seus colegas pesquisadores querem estabelecer uma “medida cooperativa, frugal, planetária e perene” dessa vida oceânica invisível.

Através do projeto “Plankton Planet”, o objetivo é confiar, a longo prazo, instrumentos de medição e sensores economicamente acessíveis às dezenas de milhares de veleiros, navios comerciais ou cargueiros que percorrem o planeta.

O objetivo é compreender “a adaptação da vida diante das mudanças brutais” impostas pelas atividades humanas.

“Mas não é óbvio porque é preciso que a medida seja homogênea. Tudo vai depender da qualidade desta medição”, enfatiza Colomban de Vargas.

– Migração do plâncton animal –

Por sua vez, a missão Bougainville – em cooperação com a Marinha Francesa – visa consolidar a confiabilidade dos “sensores” de plâncton.

Para isso, dez alunos de mestrado da Universidade Sorbonne, em Paris, embarcarão em navios da Marinha nacional como “oficiais da biodiversidade”.

“É importante viver o oceano quando o estudamos”, comenta o almirante Christophe Prazuck, diretor do Instituto Oceânico da Sorbonne, que fez a ponte entre a Marinha e a academia.

Os alunos percorrerão os 11 milhões de km2 da França oceânica nos oceanos Índico e Pacífico, a bordo de navios de apoio e assistência em ultramar (BSAOM).

Ex-comandante do Estado-Maior da Marinha francesa, Prazuck também vê nesta missão um interesse operacional para as tripulações. “Quando você observa o seu ambiente, se torna um marinheiro melhor”, sublinha.

“Na Marinha, temos uma tradição bastante importante de pesquisa científica”, acrescenta o capitão Éric Lavault, porta-voz da Marinha francesa.

Após testes na costa de Brest (oeste), os primeiros alunos embarcarão em setembro de 2023 e coletarão milhares de dados biológicos (imagens e DNA) até 2025.

Os dados coletados, “centenas de bilhões de imagens de plâncton e sequências de DNA”, serão armazenados em bancos de dados abertos a pesquisadores de todo o mundo, explica Columban de Vargas.

Eles permitirão controlar a saúde dos ecossistemas marinhos e sua evolução com base na poluição ou no aquecimento climático.

Além disso, os pesquisadores querem estudar a migração do plâncton animal em profundidades de várias centenas de metros durante a noite, descrita como o “maior movimento de biomassa” do planeta, e que seria um dos motores da “bomba de carbono” envolvidos na captura de CO2 no oceano.

O custo da missão, que deve ser financiada por particulares, é estimado em cerca de US$ 950.000 para os primeiros três anos.