Edição nº2535 20/07 Ver edições anteriores

Somos todos vilãofóbicos

Faço uma aposta com você.

Você vai sentar num bar, em qualquer cidade do Brasil, e vai ficar atento às conversas das mesas ao lado.

Garanto que, em menos de meia-hora, alguém vai dizer mais ou menos isso:

– Mas votar em quem? Só tem ladrão. Por isso que o Bolsonaro vai acabar ganhando.

Essa frase é o clichê mais popular dessa eleição.

Demonstra o medo, que uns 80% da população têm, de que um vilão, um déspota [não] esclarecido assuma o País num momento onde faltam lideranças políticas relevantes.

Mas relaxe.

Não sei se Bolsonaro vai ou não se eleger, mas de uma coisa tenho certeza: o mundo não tem mais nenhum vilão.

Acabou. Finito. Caput.

Essa semana assistimos à prova disso.

Finalmente aconteceu o histórico encontro entre dois dos maiores [supostos] vilões da atualidade.

Donald Trump apertou as mãos rechonchudinhas de Kim Jong Un.

Diversas vezes, inclusive.

Porcaria de mundo onde vilões dão as mãos.

E o gorducho norte-coreano ainda prometeu se livrar do seu arsenal atômico.

Cadê o muro do México, Trump? Cade o bombardeio do Japão, Kim?

Quem vai acabar com o mundo agora? Um meteoro?

Depois de tantas promessas, que vergonha.

Em algum ponto nos últimos vinte anos, a vilanice descambou.

Não sei se a culpa é dos millenials e suas causas altruístas ou do julgamento na redes sociais, mas a verdade é que esse novo ethos criou um personagem inédito na história da humanidade: o vilão soft, sem pegada.

Assisti a horas de vídeos do encontro dos dois.

Que paspalhos.

Parecem ter saído de uma comédia do Mike Myers.

A especial atenção que os dois dão para seus ridículos cortes de cabelo.

Os murmúrios mútuos nas sessões de fotos, para forçar um sorriso.

O cortejo numa dança de acasalamento que, convenientemente, aconteceu na véspera do dia dos namorados.

Só faltou o Putin para abraçar os dois.

Sinais inequívocos que estavam muito mais preocupados com a opinião do mundo sobre eles do que com a opinião de
um sobre o outro ou com um problema menor, como um cataclismo nuclear.

Tudo balela.

Todo mundo sabe, afinal, que de um encontro entre dois vilõezinhos a um jantar de dia dos namorados num restaurante japonês, tudo que importa é como aparecer no Instagram.

O mundo que se exploda se o topete ficou bonito na foto.

E a culpa é nossa, que damos “curtir” nessas palhaçadas.

Os vilões de cartilha, aqueles que botavam medo, deram lugar a esses.

Saudade do século passado, onde nossos piores pesadelos poderiam se tornar realidade.

No meu tempo, vilão não dava abracinho, não.

Saudades da Guerra Fria.

Aquilo sim era bom.

Uma geração inteira crescendo com o medo de um míssil cair em cima da cabeça.

Kruschev e Kennedy num braço de ferro mortal.

E Fidel no meio.

E portas fechadas.

E sem Instagram.

Vilões bons eram aqueles que botavam na gente o medo de sair de casa.

Até hoje eu não posso ver uma Veraneio que acho que estão vindo atrás de subversivos.

Hoje temos o que?

O Bolsonaro?

Ora, por favor.

Isso lá é vilão que se apresente?

Quem teve um Geisel, um Medici, um Figueiredo só pode rir desse Bolsonaro.

Aí dizem que ele lidera as pesquisas e que provavelmente será eleito presidente.

Duvido, mas, se ganhar, vai apenas comprovar meu ponto.

Vai assumir o poder e — como Trump e Kim Jong Un — vai afinar.

Vai cuidar da imagem.

Vai ter stories no Instagram.

Vai dar like em prato de alface.

Ô saudade da Zelia roubando nosso dinheiro.

Aquilo sim era viver.

 

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