Somos 213 milhões de párias

Somos 213 milhões de párias

Presidente Jair Bolsonaro chega à 76ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em 21 set. 2021 - POOL/AFP


Parece piada, mas durante seu discurso na ONU, na manhã desta terça-feira, Jair Bolsonaro repetiu três vezes que seu governo recuperou a credibilidade do Brasil diante do mundo.

Se ele estivesse falando para um grupo de desavisados, nos confins do sertão, seria apenas uma mentira deslavada. Coisas que você diz para quem não terá muitas chances de apurar a verdade.

Mas não: Bolsonaro discursava para uma plateia internacional que notoriamente o considera bizarro, infame, indigno de confiança. E o Brasil também, por contaminação.

Repetição é algo típico das fórmulas mágicas. Será que Bolsonaro tentou enfeitiçar a audiência da ONU, para que o descrédito se transformasse de repente em credibilidade?

Vejamos o que mais ele disse.

Ele disse que salvou o Brasil do comunismo.

Numa parte do discurso que poderia ter sido escrita pelo veio da Havan, fez uma tentativa jeca de vender o país para quem tem dinheiro (“temos tudo que o investidor procura”).

Gabou-se das leis ambientais brasileiras, que não foram aprovadas em seu mandatoo, e cuja eficácia seu governo procurou minar durante mais de dois anos. Só recentemente essa política começou a ser revertida, por causa da pressão estrangeira. O resultado? Bolsonaro pôde celebrar o fato de que o desmatamento de agosto de 2021 foi menor que o de agosto de 2020 – sem mencionar, é claro, que esse havia sido o maior em mais de uma década.

Bolsonaro culpou os governadores e prefeitos que fizeram quarentena durante a pandemia pelo aumento da inflação.

No que deveria ser uma demonstração de fraternidade, ele anunciou que o Brasil vai conceder vistos humanitários para afegãos que se sintam ameaçados pelo Talibã. Mas apenas cristãos, e de preferência mulheres, crianças e, por razões insondáveis, juízes (cuidado, STF!). Nada de trazer muçulmanos para o Brasil – o que exclui 99,7% da população afegã da caridade bolsonarista.

Finalmente, ele disse não entender porque tantos países e veículos de imprensa se recusaram a confiar no tratamento precoce para a Covid-19. Segundo ele, a história vai julgar com rigor tais infiéis.

Em resumo, foi um discurso cínico, descarado, que certamente aprofundou ainda mais o ceticismo (que talvez já beire o asco) em relação ao Brasil.

Mas Bolsonaro não está nem aí, porque seus interesses são paroquiais. Ele sabe que não tem a menor chance de cativar o mundo (nem com feitiços), mas ainda quer brigar pelo poder no ano que vem.



Tudo indica que sua ida à ONU – onde ele prometeu falar a verdade, mas empilhou mentiras – teve como principal objetivo a gravação de um vídeo enfeitado, para mostrar na campanha eleitoral de 2022. Algo como a foto que ele tanto queria obter nas manifestações do 7 de Setembro, hoje descritas por ele como as maiores da história do Brasil, outra falsidade deslavada.

Definitivamente, a troca de Ernesto Araújo por Carlos França não representou melhora nenhuma na política externa brasileira. O plano continua sendo fazer do Brasil um pária internacional. O Brasil, e seus 213 milhões de habitantes.

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PS: Fora da assembleia da ONU, a viagem aos Estados Unidos não rendeu outras boas fotos de campanha. A imagem de Quiroga e França com dedos em riste é grotesca. Já a de Bolsonaro comendo pizza na calçada rende alguma discussão. Seus apoiadores dirão que ela mostra um presidente despojado, um homem simples. Desconfio que o efeito é diferente: ela simboliza um Brasil mequetrefe e barrado no baile. Não é algo que o eleitor queira para si. Pobre, como dizia Joãozinho Trinta, gosta de luxo. E a classe média ainda sonha em se esbaldar em Miami.

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Sobre o autor

Carlos Graieb tem trinta anos de experiência como jornalista e executivo de mídia. Foi secretário de Comunicação do Governo do Estado de São Paulo (2017-2018)


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