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Sobreviventes enfrentam pós-trauma após bombardeios em Gaza

Sobreviventes enfrentam pós-trauma após bombardeios em Gaza

Trabalhadores palestinos removem destroços em 8 de junho de 2021 no bairro Al Rimal da Cidade de Gaza, bombardeado em maio por Israel - AFP


“Eu esperava encontrá-los vivos sob as ruínas”, lamenta Ola para um psicólogo de Gaza, olhando em um telefone celular para a foto de sua irmã e quatro filhos, mortos em um bombardeio israelense.

A jovem enxuga as lágrimas diante da psicóloga interessada em sua situação e das famílias das mais de 60 crianças e adolescentes palestinos mortos na “guerra de 11 dias” com Israel.

De 10 a 21 de maio, o exército israelense bombardeou a Faixa de Gaza, um pequeno território de mais de dois milhões de pessoas, em resposta aos foguetes disparados pelo movimento islâmico Hamas contra Israel.

Um dos bombardeios devastou o bairro de Al Rimal na cidade de Gaza e pulverizou o prédio onde Abeer, irmã de Ola, morava.

Dez horas após a destruição, a equipe de resgate tirou o marido de sua irmã, Riad, e sua filha de oito anos, Suzy, dos escombros.

Mas Abeer e os outros quatro filhos do casal não sobreviveram.

“Não consigo parar de pensar em minha irmã e seus filhos que podem ter vivido por horas sob as ruínas. Estou chocada, com medo de perder meus filhos”, explica Ola Ashkantana, que se recusa a tomar ansiolíticos.

Na sala ao lado, Suzy está sentada no colo de Riad enquanto Hasan al Khawaja, um médico especialista em saúde mental, propõe iniciar uma psicoterapia.

“Estou em ruínas. Até pensei em ir morar no cemitério para ficar com eles”, diz Riad, que ficou sem fala por dias após a tragédia, segundo sua família.

“Eu nunca serei o mesmo novamente.” Ola e Riad não são os únicos desesperados.

– “Recaída” –

A guerra de Gaza, a quarta desde 2008 nesta faixa sob bloqueio israelense, destruiu 1.000 apartamentos, escritórios e empresas.

Os poucos psiquiatras e psicólogos do enclave temem ter de “reconstruir” centenas de milhares de almas.

“Uma parte considerável da população sofre de TEPT (transtorno de estresse pós-traumático)” de guerras anteriores, diz o Dr. Khawaja.

E toda guerra causa “recaídas” e “reações agudas ao estresse”. Esse estresse intenso, se não for tratado, pode se transformar em TEPT, por isso é muito importante contar com equipes especializadas para tentar evitar uma explosão de casos nos próximos meses.

“Depois da guerra, você tem que ir para o campo, mas não dá para só avaliar o sofrimento das pessoas e depois dizer ‘tchau’ (…) temos que poder ajudá-las”, diz o especialista.

No hospital al-Awda em Jabaliya, no norte da Faixa de Gaza, Bilal Daya, de 24 anos, tem um braço direito quebrado, um buraco na panturrilha e uma tala na perna esquerda.

Mas seus ferimentos físicos não são o que os médicos mais preocupam. Em uma noite de maio, Bilal estava bebendo chá em frente à casa da família no leste da Faixa de Gaza quando um vizinho foi ferido em um atentado a bomba.

“Ele gritava por socorro, tentei carregá-lo nas costas, mas houve outro bombardeio. Senti uma espécie de zumbido enorme nos ouvidos, e ao meu redor havia pedaços de corpos humanos, fumaça, não conseguia ficar em pé, fui ferido por uma granada”, conta.

Bilal, que diz não ser um combatente, rastejou para ser resgatado, mas outras sete pessoas da vizinhança foram mortas.

No hospital, ele mostra um olhar vazio. Nada a ver com o menino alegre na foto que seu pai trouxe. Bilal está abatido por uma “reação aguda ao estresse”.

Mahmud Awad, um psicólogo palestino da Médicos Sem Fronteiras (MSF), cuida dele para evitar que o trauma o arrase.

“É o trauma mais importante da vida dele. Tentamos evitar que ele caia em TEPT em alguns meses. No momento ele está em estado de choque e negação, ele tende (…) a falar sobre Gaza em geral, mas sem falar muito sobre ele “, resume Awad.

– “Sem cura” –

A guerra de 2021 foi mais curta do que a guerra de 2014 e causou menos mortes e deslocados, “mas as consequências psicológicas serão maiores”, disse o psiquiatra Yaser Abu-Jamei, diretor do Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza (GCMHP), uma ONG local.

Em Gaza, onde nenhuma universidade oferece especialização completa em psiquiatria, os serviços de saúde mental não conseguem acompanhar a demanda.

Alguns especialistas duvidam que o termo TEPT seja o mais adequado para definir o estado de seus pacientes.

“Existem traumas da vida privada, do passado, do bloqueio israelense, das bombas, portanto não há situação pós-traumática propriamente dita”, explica o Dr. Samir Zaqut, especialista em saúde mental.

“Aqui a população vive em condições traumáticas. É um processo contínuo. As pessoas tentam se adaptar, mas não conseguem, e isso também leva a um alto índice de depressão e ansiedade”, enfatiza o psiquiatra Fadel Ashur.

Dr. Zaqut acrescenta: “Para curar, é preciso estar em um lugar seguro, mas em Gaza (…) não há lugar seguro. Portanto, pode-se falar de adaptação, resiliência, mas não cura”.

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