Sobrevivente do Holocausto de 103 anos recupera passaporte alemão

Após décadas vivendo como americana, sobrevivente do Holocausto reivindica o passaporte que o regime nazista lhe tomou; fenômeno revela o temor de famílias judias diante da erosão das normas democráticas nos EUA

Ruth Gruenthal, sobrevivente do Holocausto de 103 anos
Ruth Gruenthal, sobrevivente do Holocausto de 103 anos Foto: Reprodução/Deutsche Welle

Em um mundo onde as fronteiras pareciam consolidadas e as lições do século XX aprendidas, a história da sobrevivente do Holocausto Ruth Gruenthal surge como um poderoso e inquietante lembrete de que a estabilidade é, muitas vezes, uma ilusão. Aos 103 anos, a psicoterapeuta radicada em Nova York acaba de realizar um ato que, durante décadas, pareceu impensável: ela recuperou o seu passaporte alemão — a mesma cidadania que lhe foi roubada pelas Leis de Nurembergue em 1935 por ser judia.

A decisão de Ruth não foi motivada por nostalgia, mas por um pragmatismo tingido pelo medo. O processo foi iniciado quando o cenário político nos Estados Unidos, país que a acolheu em 1940, começou a dar sinais de uma polarização que ela reconhece de forma dolorosa. “Antes, eu certamente me apresentaria como americana nascida no exterior. Hoje, coloco um ponto de interrogação nisso”, desabafa a sobrevivente.

  • Raízes cortadas: nascida em Hamburgo em 1922, Ruth viu o pai, um veterano condecorado da Primeira Guerra, ser traído por amigos que se revelaram nazistas.

  • A fuga da barbárie: após ser presa em um campo de concentração na França ocupada, Ruth conseguiu fugir através de Portugal e Espanha, chegando aos EUA há 86 anos.

  • Movimento coletivo: Ruth não está sozinha; em Nova York, os pedidos de restituição de cidadania alemã por descendentes de vítimas do nazismo mais que dobraram nos últimos quatro anos.

  • Erosão democrática: o fenômeno reflete a preocupação de famílias judaico-americanas com a ascensão de retóricas extremistas e o enfraquecimento das instituições.


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O trauma que atravessa gerações

A história de Ruth Gruenthal é um espelho de um trauma que se recusa a cicatrizar. Para ela, o choque maior não foi apenas a violência física, mas a desintegração do tecido social. Ao lembrar do pai, ela destaca a surpresa dele ao ver “pessoas que ele considerava amigas se revelarem nazistas”. Essa percepção de que a civilidade é uma camada fina que pode se romper a qualquer momento é o que move a atual busca pelo “Plano B”.

Muitas famílias judias que outrora juraram nunca mais pisar em solo alemão agora veem no passaporte da União Europeia uma garantia de saída. “Meu pai já teve que fugir de um país. Sinto que preciso ter um plano de contingência”, afirma uma descendente que seguiu os passos de Ruth. A ironia histórica é profunda: a Alemanha, o país que assassinou 6 milhões de judeus, tornou-se, ironicamente, o refúgio seguro para aqueles que temem o destino da democracia americana.

O programa de restituição: justiça ou sobrevivência?

A Alemanha oferece um programa especial de restituição de cidadania para vítimas do regime nazista e seus descendentes (indo até os bisnetos). O que antes era visto como um gesto simbólico de reparação histórica transformou-se em uma ferramenta de proteção política. Jovens judeus em Nova York citam a “erosão das normas democráticas” como o principal motor para reivindicar o passaporte europeu.

Para Ruth, conviver com essa precaução é uma característica intrínseca da identidade judaica. “A menos que você seja judeu, é difícil compreender como é andar com a sensação de que seu direito de caminhar sobre a terra pode ser questionado a qualquer momento”, ressalta.