Sobrevivente do Holocausto alerta contra nova onda de antissemitismo

Sobrevivente do Holocausto alerta contra nova onda de antissemitismo

""AEm discurso no parlamento alemão, a sobrevivente de Auschwitz Tova Friedman diz que o ódio a judeus segue vivo e frequentemente se esconde por trás de um discurso antissionista.A sobrevivente do Holocausto Tova Friedman, de 87 anos, apelou às autoridades alemãs para que mantenham a luta contra o antissemitismo, num discurso nesta quarta-feira (28/01) no Bundestag (parlamento alemão), durante um ato pelo 81º aniversário de libertação do campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau.

"Só posso fazer um apelo: não deixem o antissemitismo crescer novamente", disse Friedman. Além de parlamentares, estavam presentes o presidente Frank-Walter Steinmeier e o chanceler federal Friedrich Merz.

A criança de "quem Hitler tinha medo"

Friedman exortou os parlamentares a ouvirem os testemunhos de quem viveu sob o nazismo, enquanto isso ainda é possível. Ela disse ser a criança de "quem Hitler tinha medo". O lema dele era não ter testemunhas dos crimes nazistas. "Eu sou testemunha", disse Friedman.

Ela disse querer compartilhar uma verdade "dolorosa, mas essencial", e relembrou sua vida quando criança no campo de concentração de Auschwitz, para onde foi deportada aos 5 anos.

Ela e sua mãe sobreviveram a Auschwitz-Birkenau, o maior campo de concentração nazista, onde mais de 1 milhão de pessoas foram assassinadas. "Quando saímos de Auschwitz, de mãos dadas, ela sussurrou para mim: 'Lembre-se'. Desde então, eu me lembro todos os dias."

"O antissemitismo não desapareceu"

Ela enfatizou a necessidade urgente de combater o ressurgimento do antissemitismo em todo o mundo, e disse que os judeus estão sendo mais uma vez usados como bodes expiatórios para os males da sociedade.

"O antissemitismo não desapareceu, ele se adaptou", afirmou. Segundo ela, hoje o antissemitismo frequentemente se esconde por trás do discurso antissionista e se espalha rapidamente pelas redes sociais. Como resultado, encontra apoio até mesmo em círculos que deveriam defender o pensamento crítico e a clareza moral.

"Saí de Auschwitz pensando que nunca mais teria que ter medo por ser judia", disse Friedman em tom de alerta. Agora, 81 anos depois, grande parte do mundo voltou-se contra os judeus, observou ela. "Meu neto precisa esconder sua Estrela de Davi no campus universitário. Minha neta foi obrigada a sair da residência estudantil para evitar ameaças." Gritos como "Hitler estava certo!" ou "matem os judeus nas câmaras de gás!" podem ser ouvidos nas ruas de Nova York, Paris, Amsterdã, Londres e "provavelmente também Berlim". Em todo o mundo, os judeus se sentem novamente desprotegidos, atacados e odiados, disse Friedman.

"Neutralidade diante do ódio não é neutralidade – é consentimento", disse ela. "A Alemanha talvez entenda melhor do que qualquer outro país o que acontece quando o ódio é normalizado."

Ela citou o rabino e filósofo britânico Jonathan Sacks: "Para defender um país, você precisa de um exército. Para defender a civilização, você precisa de educação".

Após concluir seu discurso no Bundestag, Friedman recebeu uma longa ovação de pé antes de ser acompanhada ao deixar o prédio do parlamento por Steinmeier, Merz e a presidente do Bundestag, Julia Klöckner.

Uma das últimas testemunhas

Friedman, que nasceu em 1938 perto de Gdansk com o nome de batismo de Tova Grossman, está visitando a Alemanha pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial. Ela passou os primeiros anos de sua infância no gueto de Tomaszów Mazowiecki, estabelecido perto de Łódź pela ocupação nazista alemã.

Aos 5 anos, ela e sua mãe foram deportadas para o campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau. Ao que parece houve uma falha técnica na câmara de gás no dia em que seria executada. Durante as marchas da morte em janeiro de 1945, a menina de 6 anos se escondeu entre os cadáveres e acabou sobrevivendo.

Hoje ela é uma das poucas testemunhas oculares vivas do Holocausto. Friedman tem um canal no TikTok com seu neto, Aron Goodman, onde usa vídeos curtos para manter viva a memória do Holocausto entre os jovens.

as/ra (Efe, AFP, ARD)