Edição nº2603 14/11 Ver edições anteriores

Sobre o cuspe à distância

Precisamos falar sobre um assunto que tem sido relegado a segundo plano, dada a constante presença da Família Real Bolsonaro nas principais mídias.

Com o presidente em pé de guerra com Bivar e com seus filhos atacando sistematicamente o PSL pelos flancos, nós, cidadãos comuns, esquecemos o que realmente importa para sermos felizes: o futebol.

Não se trata de escapismo e sim de uma constatação que me dei conta ao reler uma crônica de Nelson Rodrigues.

Um verdadeiro alerta para nossa geração.

Ninguém melhor do que ele soube destacar a importância do futebol para a gênese da felicidade do brasileiro.

Darcy Ribeiro é fichinha perto do cronista.

Num texto publicado em 1958 pela Manchete Esportiva, Nelson Rodrigues alerta, com 61 anos de antecedência, as razões de nossa sofrência.

A crônica demonstra o efeito, para a auto estima nacional, da conquista de nossa primeira Copa do Mundo, na Suécia.

Segundo Nelson Rodrigues éramos um país de vira-latas e analfabetos.

“… a partir do momento em que o rei Gustavo, da Suécia, veio apertar as mãos dos Pelés, dos Didis, todo mundo, aqui, sofreu uma alfabetização súbita… analfabetos natos e hereditários devoravam vespertinos, matutinos, revistas, e liam tudo com uma ativa, uma devoradora curiosidade, que ia do “lance a lance” da partida até os anúncios de missa. Amigos, nunca se leu e, digo mais, nunca se releu tanto no Brasil” — escreveu o cronista.

É certo que mesmo sem nenhuma Copa no passado recente, melhoramos muito o índice de alfabetização. Dos 31% de analfabetos em 1960, despencamos para 6,5% em 2019, segundo dados do IBGE.

Mas um país soberano não se faz com cidadãos letrados e sim vitoriosos.

Como podemos neutralizar as decepções políticas
a que estamos expostos diariamente com os últimos
resultados da seleção canarinho?

Nelson Rodrigues sabia disso e continua sua crônica ilustrando a consequência da conquista histórica:

“… as moças na rua, as datilógrafas, as comerciárias, as colegiais andam, pelas calçadas, com um charme de Joana d’Arc. O povo já não se julga mais um vira-latas. Sim, amigos: — o brasileiro tem de si mesmo uma nova imagem.”

Quando foi a última vez que você viu datilógrafas, comerciárias e colegiais andando de cabeça erguida pelas ruas?

Com as constantes trapalhadas da prole Bolsonaro, perdemos todo o amor próprio que conquistamos nos gramados no último meio século.

Como podemos neutralizar as decepções políticas a que estamos expostos diariamente com os últimos resultados da seleção canarinho?

Apenas para citar os últimos quatro amistosos, empatamos em 2 x 2 com a Colômbia, perdemos de 0 x 1 para o Peru e para completar, empatamos em 1 x 1 com Senegal e Nigéria.

Só podem estar de brincadeira.

Nelson Rodrigues prossegue em sua carta para o futuro:

“… vejam como tudo mudou. A vitória passará a influir em todas as nossas relações com o mundo… vem a deslumbrante vitória do escrete, e o brasileiro já trata a namorada, a mulher, os credores de outra maneira; reage diante do mundo com um potente, um irresistível élan vital…”

Justo no capítulo de relações com o mundo, quando assisto ao presidente criando confusão com Michelle Bachelet e Emmanuel Macron, recorro a Neymar Jr., mas nem ele está lá para me salvar.

Então Nelson Rodrigues impõe a humilhação final.

“… o brasileiro já não se considerava o melhor nem de cuspe à distância. E o escrete vem e dá um banho de bola, um show de futebol, um baile imortal na Suécia.”

Termino de ler a crônica de 1958 e abro o vespertino.

Dou de cara com a notícia de que Bolsonaro, no Japão, afirmou que a Amazônia “tem que ser explorada”.

Logo abaixo, uma nota lembra que dia 15 de novembro enfrentaremos a Argentina.

Sei não.

No próximo campeonato de cuspe à distância, melhor nem mandar delegação.


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