Sobre a falibilidade da alma

Quando começam a surgir, pelas árvores e janelas da cidade, as primeiras luzes natalinas você já sabe: está chegando o final de mais um ano.

Hora de fazer um balanço de tudo vivemos nos últimos 365 dias. No meu caso, esse momento é ainda mais doloroso, porque faço aniversário exatamente nesse período.

Então, sempre acabo por expandir o período de autoanálise para os anos vividos até aqui.

Desta vez foi ainda pior, porque em meio ao turbilhão de mensagens automatizadas que recebemos desde que inventaram as redes sociais, uma mensagem sincera se sobressaiu.

Foi enviada por meu amigo mais sarcástico, o roteirista Márcio Alemão:

– Parabéns, Neto, por menos um ano. – Alemão eternizou no Instagram.

A frase pode parecer inofensiva ao leitor pouco atento, mas carrega uma carga de profundas implicações.

Lembra, por exemplo, que na grande ordem das coisas, numa perspectiva que considere a cronologia do Universo, nossa passagem por aqui é fugaz.

Um piscar de olhos. Um nada.

Lembra o inevitável fato de que, depois de certa idade, é importante subtrair os anos que faltam para o nossa despedida final, ao invés de seguir contando incrementos anuais.

Não há nada de pessimista nesta visão.

É, na verdade, libertadora.

Ao tomar consciência de nossa finitude, a ideia de que o dia a dia deve ser vivido com a máxima dedicação torna-se fundamental.

Não confundam essa minha constatação com o clichê Carpe Diem, eternizado na película Sociedade dos Poetas Mortos.

Primeiro porque Carpe Diem não tem o mesmo sentido que o roteirista colocou nas palavras de Robin Williams na cena em questão.

É uma diferença semântica sutil, mas importante.

Carpe Diem não se refere simplesmente a “aproveitar o dia” mas, além de viver cada dia em sua plenitude, devemos pensar no futuro o mínimo possível.

No caso em questão, de considerar o aniversário como menos um ano, o objetivo está precisamente no oposto: pensar seriamente no futuro.

Assim, passada a efeméride de meu aniversário e com a proximidade do final de mais um ano, decidi que havia chegado a hora de resolver algumas questões que habitavam meu irrelevante ser.

Aquela mágoa com fulano, aquela rusga com sicrano, aquela diferença de opinião com beltrano.

A difícil tarefa de purificar o espírito para o próximo ano

Decidi tirar tudo isso do caminho e me preparar para entrar em 2022 em paz com minha consciência, garantindo uma vida mais leve para encarar a Copa do Mundo, a inevitável inflação e a próxima eleição.

Boa parte dessa higienização de relacionamentos é simples de resolver.

Uma mensagem aqui, um pedido de desculpas ali e em um par de dias estava tudo resolvido. Ou quase.

Porque ainda restava em mim uma angústia que tardei em compreender.

É que nos últimos três anos, venho alimentando um conflito interior, que alguns podem chamar de ódio, com um indivíduo que sequer se dá conta da minha existência.

Alguém que nunca tive a oportunidade de conhecer pessoalmente, mas que insiste em atazanar meus dias.

Queria perdoá-lo, vejam que pessoa boa que sou.

Tentei de tudo.

E-mails, não tiveram resposta.

Liguei para Brasília e não transferiram a ligação.

Já em desespero, recorri à técnicas milenares.

Tentei meditação, mindfulness, yoga, tai chi chuan e nada.

Até à ayhuasca quase recorri pois, dizem, é capaz de revelar recantos inacessíveis de nosso interior.

Mas temi encontrá-lo no metafísico ritual e nunca mais conseguir voltar à sanidade.

Então decido agora dividir meu fracasso com você, leitor, que acompanha esta coluna. Desisti.

Confesso publica e humildemente, que mais um ano vai se iniciar em menos de trinta dias e que continuarei com o coração cheio dos mais primitivo sentimento.

Tudo seria diferente se eu fosse terrivelmente evangélico, eu sei.

Mas infelizmente, sou uma alma falível.


Sobre o autor

Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olivia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico


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