Artes Visuais

Sob o véu da ignorância

Exposição no Sesc Avenida Paulista mostra bibliotecas do mundo em realidade virtual e lembra que, contra as notícias falsas, temos os livros

Crédito: Divulgação

A BIBLIOTECA À NOITE/Sesc Avenida Paulista, SP/ até 10/2/19

BIBLIOTECA DE MANGUEL Mostra também reconstitui estantes do escritor. Acima, representação pictórica da Torre de Babel, o mito da origem das línguas (Crédito:Divulgação)

O projeto que pretende impor regras aos professores sobre o que pode ser ensinado em sala de aula, proibindo na escola a discussão de questões de gênero e a manifestação de posicionamentos políticos e ideológicos não é somente um ato obscurantista, no sentido medieval do termo. Voltar alunos contra professores, incitando práticas de vigilância e denúncia, é um atentado à cidadania e à formação de novos cidadãos.

Felizmente o Escola sem Partido está recebendo no Congresso e em diversos segmentos do poder público e da sociedade a devida contra-argumentação. “Dificultar a manifestação plural de pensamento é amordaçar professores e alunos. A única força que deve ingressar nas universidades é a força das ideias”, afirmou a ministra Carmen Lúcia (El País, 20/11/18). “Professores são um perigo, não porque eles façam nossas crianças pensarem isso ou aquilo, mas porque as fazem pensar”, escreveu Vera Iaconelli, doutora em Psicologia pela USP (Folha de S. Paulo, Escola Partida, 6/11/18).

Cabe então recorrer aos templos que guardam a inteligência nossa de cada dia: as bibliotecas. O gesto de levantar o véu da ignorância é a imagem, na forma de obras de arte, que ilumina duas das maiores bibliotecas do mundo: Sainte-Geneviève, em Paris, e Biblioteca do Congresso, em Washinghton. Elas podem ser visitadas no roteiro de “A Biblioteca à Noite”, misto de exposição, cinema e espetáculo teatral, em cartaz no Sesc Avenida Paulista até fevereiro. Trata-se de passeio em realidade virtual a dez célebres bibliotecas ‘visitadas’ pelo escritor argentino Alberto Manguel, no livro A Biblioteca à Noite (Companhia das Letras, 2006).

As visitas guiadas pelo atual diretor da Biblioteca de Buenos Aires incluem o Templo de Hase-dera, do século 16, no Japão; a fictícia Biblioteca de Nautilus, acalentada pelo capitão Nemo de 20.000 Léguas Submarinas; e Alexandria, que nasceu no século 3 a.C da vontade de reis ptolemaicos de preservar os ensinamentos de Aristóteles e da ambição de reunir todo o conhecimento existente no mundo. Desaparecida em um incêndio, Alexandria é a mãe das bibliotecas. “Um livro não termina nunca. Uma biblioteca, memória, mesmo incendiada, jamais se extinguirá”, escreve Manguel.

Os textos sobre as bibliotecas situam o visitante no tempo e no espaço, mas falham em um ponto crucial: esquecem o que o próprio Manguel ensina: toda biblioteca é autobiográfica e segue um sistema de catalogação que em muitos casos é singularmente idiossincrático. Falta ao recurso multimídia, a cargo do laureado diretor de teatro canadense Robert Lepage, o primeiro plano ao que dá alma e razão à biblioteca: o livro.

Mas “bibliotecas são como miragens no deserto: quem conduz a elas seu destino não encontra meio de matar a sede”, segundo o escritor carioca Alberto Mussa, que tem uma biblioteca no centro da trama de seu mais recente romance, A Biblioteca Elementar (Record, 2018). Mas o primeiro acesso às estantes vem apenas atiçar a curiosidade sobre os mundos que os livros contam. E a exposição é, no mínimo, um grande estímulo.

“É uma forma muito antiga de domínio, a restrição da inteligência”, escreve Mussa. “O Rio de Janeiro, no princípio do setecentos, era uma cidade perigosa, pois a Inquisição havia inoculado nas pessoas o vício da denúncia”. Contra a ignorância, o amordaçamento das inteligências e as fake news, nos setecentos ou nos 2000, teremos sempre os livros e as bibliotecas.

Roteiros
Resíduos do início

AQUILO QUE RESTA – MARCOS AMARO/ Luis Maluf Art Gallery, SP/ até 8/12

Divulação

Um poema integra “Aquilo que Resta”, individual de Marcos Amaro na Luis Maluf Art Gallery, em São Paulo. Palavras habitam a parede, dividindo o espaço com o conjunto de nove pinturas da produção recente do artista, mas não se fixam a nenhuma delas. Pairam no ar, permeando as zonas densas de matérias variadas que compõem os trabalhos. Nem mesmo nos títulos as palavras pousam, dado que as obras não têm título. As pinturas falam, sim, por meio da robustez de sua abstração.
A assimilação da palavra Resíduo, título de poema de Carlos Drummond de Andrade, ao corpo de obras da exposição, surgiu
de um diálogo entre o artista e o curador Marcus de Lontra Costa. Os trabalhos, produzidos em média e pequena escala, se localizam, segundo o curador, “no espaço difuso entre a pintura e a escultura”. Em superfícies grossas e texturas pronunciadas, anunciam marcas de “acontecimentos” físicos: o calor do fogo, a pressão da mão sobre o gesso quando mole, as reações químicas e alquímicas dos encontros. Às matérias clássicas da escultura contemporânea – gesso, cimento, areia, pigmento – somam-se a graxa e o óleo automotivo, matérias residuais de processos anteriores do artista.

Marcos Amaro iniciou a pesquisa artística revolvendo, entre sucatas automotivas, aeronáuticas e objetos sem vida útil, fragmentos de fortes memórias da infância. Foi assim que ele construiu, inicialmente, um trabalho pouco discernível sem um espelhamento com sua própria biografia: aos 17 anos, a perda do pai, o comandante Rolim Amaro, fundador da TAM Linhas Aéreas. “Meu trabalho teve uma primeira fase mais construtiva, procurando uma certa geometria, e hoje ele aceita melhor aquilo que é temporal, efêmero”, diz Amaro à IstoÉ. “De certa forma, me desprende do meu passado. Mas são resíduos, na verdade sentimentos, que eu tento trabalhar de uma forma bem visceral”.

Se as bibliotecas são autobiográficas, quem dirá as pinturas. Resíduo é aquilo que “de tudo fica um pouco”. Mas não muito. PA