Sob o signo da jequice


Lamentável o vício das elites brasileiras de maquiar currículos universitários. Por aqui, falsificam-se diplomas à vontade. Transforma-se uma viagem de turismo em um curso de pós-graduação; uma atividade de extensão mequetrefe em um doutorado. Mesmo achando que intelectuais não servem para nada, os medalhões da República querem o verniz da formação universitária no exterior. Agora é o ministro indicado por Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal (STF), Kassio Marques, que inventou um diploma de pós-graduação em “Contratación Pública” na Universidade da La Coruña, na Espanha. A instituição desmentiu a informação e disse que Marques, na verdade, teve quatro dias de aula no chamado “Curso Euro-Brasileiro de Compras Públicas”, sem qualquer importância acadêmica.

Mesmo achando que intelectuais e acadêmicos não servem para nada,
os medalhões da República querem o verniz
da formação universitária no exterior

Virou rotina a nomeação de membros no alto escalão do governo com diplomas maquiados. No Ministério da Educação três ministros foram flagrados com a boca na botija: Ricardo Vélez, Abraham Weintraub e Carlos Alberto Decotelli, que nem chegou a ser nomeado por causa das mentiras no currículo. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, também foi pega em flagrante. No STF, antes de Marques, houve o caso de Alexandre de Moraes, acusado de ter cometido plágio na sua tese de doutorado. A ex-presidente Dilma Rousseff também cedeu à tentação de colocar experiências imaginárias no currículo. Inventou cursos de mestrado e doutorado na Unicamp. Todos querem ser mestres, doutores e usufruir de um prestígio indevido.

Mas o que leva uma pessoas a falsificar seu currículo? Primeiro uma falha de caráter, uma atração pela mentira e pelo engano, uma falta de vergonha na cara. Depois a vontade de impressionar e exibir conquistas acadêmicas inexistentes. Pega bem uma pós-graduação no exterior. E, finalmente, claro, obter alguma vantagem, dizendo que é melhor do que é, mais inteligente do que é. Seja como for, trata-se de uma grande tolice e de um tipo de prática desprezível, só entendida pela falta de refinamento das elites brasileiras e por uma vaidade exagerada. A mentira virou uma rotina no currículo dos poderosos locais e transcende qualquer ideologia. Num governo que despreza a educação chega a ser surpreendente a preocupação com o status que ela proporciona. É mais uma prática condenável num País de jecas.


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