Sob Kast, Chile suspende memorial a vítimas da seita alemã Colonia Dignidad

Sob Kast, Chile suspende memorial a vítimas da seita alemã Colonia Dignidad

"EntradaMinistro de Obras alega irregularidades e altos custos de projeto. Colonia Dignidad, fundada por Paul Schäfer, foi palco de crimes na ditadura de Augusto Pinochet.O novo governo do Chile, encabeçado pelo direitista José Antonio Kast, quer suspender os planos para expropriar parte dos terrenos da antiga Colonia Dignidad, seita fundada pelo alemão Paul Schäfer em 1961 que foi palco de múltiplas violações de direitos contra moradores da região e da própria colônia.

A desapropriação havia sido decretada em 2025 pelo antecessor de Kast, o esquerdista Gabriel Boric. Ela dava andamento a um acordo bilateral firmado em 2017 por Chile e Alemanha para criar um memorial no local.

Fundada por nazistas, a Colonia Dignidad teve sua história marcada por abusos, inclusive contra crianças. O assentamento também serviu como centro clandestino de tortura e assassinato de dissidentes durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Schäfer fugiu da colônia em 1997, e morreu na prisão em 2010. Hoje, o local é conhecido como Villa Baviera e virou destino turístico. No local ainda vivem mais de 100 pessoas, incluindo alemães filhos dos primeiros colonos e chilenos.

Altos custos e supostas irregularidades

O ministro chileno de Obras, Iván Poduje, justificou a decisão de suspender o "projeto faraônico" alegando altos custos e supostas irregularidades, em conversa com o jornal La Tercera publicada neste domingo (29/3).

Poduje negou agir por motivação ideológica, e disse que o governo poderia, com a verba planejada, dar prioridade a obras mais importantes, como reforma de habitações e equipamentos esportivos.

Ativistas e familiares das vítimas criticaram o anúncio de Poduje. O ex-ministro da Justiça de Boric, Jaime Gajardo, chamou a decisão do novo governo de "tapa na cara" das vítimas.

"Frear a desapropriação não é uma decisão neutra. É uma forma de fragilizar as condições para avançar em verdade e justiça", afirmou à DW Margarita Romero, presidente da Associação pela Memória e Direitos Humanos Colonia Dignidad.

"Para as vítimas, isto é um sinal de abandono. Diz a elas que mesmo quando o próprio Estado reconhece oficialmente um lugar como palco de sequestro, tortura e desaparecimentos forçados, esse reconhecimento pode ser relativizado por razões políticas ou orçamentárias", observou Romero.

Nnesta segunda-feira (30/3), o ministro responsável por assuntos da Presidência, Jose Garcia Ruminot, reiteirou à emissora pública TVN que o projeto foi suspenso estritamente por razões financeiras.

"Não temos nenhum interesse em deixar de cumprir compromissos internacionais", disse, citando um acordo com a Alemanha para a construção do memorial. "[A suspensão] É estritamente por razões financeiras e, até onde eu sei, é apenas pelos meses restantes deste ano."

À DW, a pesquisadora e historiadora Evelyn Hevia questionou os valores de desapropriação citados por Poduje e disse que eles diferem radicalmente de uma estimativa por uma agência do governo alemão em 2018.

"O ministro sinaliza não ter dinheiro […] e prefere ficar com cifras inexplicáveis, demonstrando falta de vontade política. Ele usa o argumento do alto custo sem divulgar um valor oficial nem permitir que o processo de avaliação seja concluído em condições técnicas normais", pontua.

Em 2025, ainda no governo Boric, o plano era desapropriar cerca de 116 hectares do terreno onde funcionou a antiga Colonia Dignidad.

Kast, que assumiu a Presidência do Chile em 11 de março, é filho de um ex-oficial da da Wehrmacht (antigas Forças Armadas da Alemanha). Seu pai era membro do partido nazista e fugiu para o Chile depois da Segunda Guerra Mundial.

O Chile acolheu muitos nazistas no pós-guerra, e contribuíram para o golpe que derrubou o presidente socialista Salvador Allende e a construção do aparato de repressão de Pinochet.

Alemanha diz que mantém apoio a projeto e buscará diálogo

O governo alemão informou que mantém seu apoio ao projeto do memorial e buscará conversar com o Chile.

"O governo alemão apoia o projeto para estabelecer um memorial no Chile. Continuaremos as discussões sobre isso, especialmente diante dessa nova informação", disse um porta-voz do Ministério do Exterior nesta segunda.

Cerca de 100 pessoas teriam sido assassinadas e desaparecido na Colonia Dignidad. Crianças chilenas de famílias da região também foram abusadas, sequestradas e adotadas ilegalmente, e os membros do enclave viviam num regime sectário sob o domínio de Schäfer. Eles foram vítimas de abuso sexual, punições brutais, medicação forçada e trabalho escravo.

À DW, a administração da Villa Baviera informou que é contra a proposta original de desapropriação, que prevê a saída dos moradores, mas que apoia a criação de memorial.

A comunidade afirma que também foi vítima da seita e espera chegar a uma "solução intermediária que permita respeitar a memória e também o presente de quem vive e trabalha na Villa Baviera atualmente".

ra (Reuters, DW, ots)