Cultura

Skylab e sua ‘Trilogia dos Carnavais’

A plateia de Rogério Skylab não sorri. São 10 ou 15 pessoas sentadas em uma réplica de barzinho armado em uma das salas do estúdio 24P, em Santa Teresa, Rio, assistindo à figura mirar em seus olhos com alguma ameaça e desconforto. Skylab não pode estar na prateleira do humor só porque fala o que ninguém falaria, equilibrando-se entre a escatologia e o niilismo.

Fazer isso seria reduzi-lo ao vazio da graça, um território livre para tocar nas fraturas expostas com um efeito que dura tanto quanto o tempo de um sorriso. Skylab, sério, vai além. Ele acredita no que diz não como discurso de sátira, mas como produto de sua própria realidade.

O show que lança agora em CD e DVD, com realização do Canal Brasil, reúne canções de seus três últimos discos. São eles Abismo e Carnaval, de 2012; Melancolia e Carnaval, de 2013; e Desterro e Carnaval, de 2015. Assim que saiu este último, ele anunciou que sua produção chegava ao fim.

O disco com 14 músicas retiradas dos três álbuns tem o nome de Trilogia dos Carnavais – 25 Anos de Carreira ou de Lápide.

É um bom sobrevoo na mais recente criação de uma das cabeças mais desafiadoras da música brasileira. Ou da “quase música” brasileira. Há participações de dois nomes que, em algum momento, cruzam idiomas com Skylab. Arrigo Barnabé canta Lívia com a entonação teatral que desenvolveu nos tempos de vanguarda paulistana e Fausto Fawcett aparece em A Árvore.

Entender o que Skylab quer é um grande desafio. Ele se recusa a fazer sentido dentro de algum padrão estabelecido e deixa dúvidas. Não é amor, não é humor e não é protesto. Ou seria tudo isso a seu jeito? Uma pista de sua forma de pensar está em Um Acorde Imperfeito, lançada primeiro em Abismo e Carnaval: “Um acorde imperfeito / A mil notas bem tocadas / Porque música não é ginástica / Ela tem vazios / Ela tem buracos / É a marca da costura / Numa pele que já foi rasgada / Arte do inacabado / Com ranhuras e acasos”.

Os vazios e buracos estão lá, em meio a uma dicção absolutamente bem pronunciada e um tempo às vezes vacilante. Seu timbre é belo, mas sua entonação é terrível. Sua poesia é instigante e maldita.

A música que Arrigo canta, Lívia, é narrada por um insano assassino que matou a amada (ou a mataram enquanto ele a fazia de refém) e que agora chora no cárcere. Há alguns erros nas letras do encarte, o que às vezes trava o entendimento. Ou isso também faria parte do mundo de Rogério Skylab? Quem vai saber?

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.