Tireoide não vai bem: “quase ninguém percebe os sinais”

Glândula em formato de borboleta é crucial para o corpo, mas seus problemas são frequentemente confundidos com outras condições

Tireoide não vai bem: "quase ninguém percebe os sinais"

A tireoide, glândula em formato de borboleta e que pesa cerca de 20 gramas, é crucial para a regulação metabólica do corpo. Discretamente posicionada na parte da frente do pescoço, suas funções são vitais: seus hormônios T3 e T4 controlam desde batimentos cardíacos, fertilidade e metabolismo até memória, raciocínio e equilíbrio emocional. Apesar de sua importância, os distúrbios da tireoide frequentemente manifestam sinais sutis e inespecíficos, fazendo com que quase ninguém perceba os sinais de que algo não está certo, o que pode atrasar diagnósticos e comprometer a saúde.

O problema é que os sintomas raramente apontam para a tireoide como principal suspeita, e muitas vezes são confundidos com o processo natural de envelhecimento ou outras condições. No hipotireoidismo, quando a tireoide trabalha em marcha lenta, o resultado costuma surgir gradualmente: cansaço persistente, dificuldade de concentração e raciocínio, esquecimentos, sonolência excessiva e até depressão. Soma-se a isso pele ressecada, queda de cabelo, unhas frágeis, intestino preso e sensação constante de frio.

O que aconteceu

  • Distúrbios da tireoide, como hipotireoidismo e hipertireoidismo, afetam funções vitais do corpo, sendo seus sinais muitas vezes sutis e ignorados.
  • Sintomas como cansaço, dificuldade de concentração, alterações de humor e de peso podem indicar problemas na glândula, mas são frequentemente confundidos com outras condições de saúde.
  • O diagnóstico precoce, por meio de exames de sangue e ultrassom, é fundamental para evitar complicações graves e preservar a qualidade de vida dos pacientes.

“Como esses sintomas são inespecíficos e podem ocorrer por diversas situações clínicas, é comum que o paciente ignore-os e, consequentemente, o diagnóstico seja adiado”, aponta o tireoidologista Helton Ramos, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Por outro lado, nem sempre o hipotireoidismo provoca sintomas claros. Em alguns casos, os exames já mostram alterações hormonais, enquanto a pessoa se sente perfeitamente bem. É o chamado hipotireoidismo subclínico.

“Alguns estudos demonstram que essa condição pode estar associada ao aumento do colesterol, maior risco de doenças cardiovasculares, piora da função cardíaca, redução da capacidade para atividades físicas e maior probabilidade de evolução para hipotireoidismo manifesto”, ressalta Ramos. Isso reforça a importância do acompanhamento médico, mesmo na ausência de sintomas. E quanto à fama do ganho de peso? Segundo especialistas, o aumento geralmente é discreto, em torno de 2 a 5 kg, e não costuma ser a principal causa da obesidade.

Os sinais sutis da tireoide fora do ritmo

Já no hipertireoidismo, a glândula passa a produzir hormônios em excesso, acelerando vários processos do organismo. Embora muita gente associe o problema ao emagrecimento, os especialistas alertam que esse é apenas um dos possíveis sinais. Irritabilidade, insônia, tremores leves nas mãos, palpitações ocasionais e inquietação constante costumam ser sintomas mais frequentes do que se imagina. “Em idosos, o quadro pode ser ainda mais discreto, aparecendo como fadiga, fraqueza muscular ou alterações cardíacas”, descreve a endocrinologista Danielle Macellaro, do Einstein Hospital Israelita.

Em alguns casos, o alerta surge nos olhos. A doença de Graves, condição autoimune e principal causa de hipertireoidismo, pode provocar vermelhidão, lacrimejamento excessivo, inchaço das pálpebras, sensibilidade à luz e, em quadros mais graves, a exoftalmia, aparência de olhos projetados para fora. “O reconhecimento precoce desses sinais é fundamental, pois a doença ocular da tireoide pode impactar significativamente a qualidade de vida e, em casos raros, ameaçar a visão se não for tratada adequadamente”, alerta Ramos.

Embora os distúrbios da tireoide sejam mais comuns em mulheres — com impactos na irregularidade menstrual, redução do desejo sexual e dificuldades para engravidar —, os homens também podem sofrer consequências importantes. Tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo podem reduzir a libido, prejudicar a qualidade dos espermatozoides, dificultar a ereção e comprometer a fertilidade.

Uma revisão científica publicada em 2024 no Journal of Diabetes & Metabolic Disorders identificou associação entre doenças da tireoide e maior frequência de disfunções sexuais masculinas. “Felizmente, em muitos casos, esses problemas melhoram após o tratamento adequado da doença tireoidiana”, ressalta a médica do Einstein.

Nódulos na tireoide: quando se preocupar?

Nódulos ou alterações hormonais na tireoide com frequência não manifestam sintomas ou mudanças aparentes. Quando o volume da glândula aumenta, condição denominada bócio, pode surgir uma saliência na parte frontal do pescoço, especialmente durante a deglutição. Também merecem atenção nódulos endurecidos, de crescimento rápido, associados a rouquidão persistente, dificuldade para engolir ou aumento de gânglios no pescoço.

A boa notícia é que a maioria dessas alterações não está relacionada ao câncer. Segundo Macellaro, entre 90% e 95% dos nódulos tireoidianos são benignos. “Além disso, mesmo quando o diagnóstico de câncer é confirmado, os tumores mais comuns da tireoide costumam apresentar excelentes taxas de cura quando tratados adequadamente”, afirma.

Ainda assim, a incidência de câncer de tireoide tem apresentado aumento expressivo nas últimas décadas em diversos países. No Brasil, estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam aproximadamente 16 mil novos casos anuais, sendo um dos cânceres mais frequentes em mulheres. Parte desse aumento decorre do maior acesso aos exames de imagem e da detecção de tumores pequenos, mas estudos recentes sugerem que fatores ambientais, metabólicos e mudanças no estilo de vida também possam contribuir para essa tendência.

Como identificar problemas na tireoide?

Nem todas as doenças da tireoide podem ser prevenidas, principalmente aquelas associadas a fatores genéticos e autoimunes. Entretanto, é possível adotar medidas que favoreçam a saúde da glândula, como manter uma alimentação equilibrada, evitar suplementação sem indicação médica e realizar acompanhamento quando existe histórico familiar de doenças tireoidianas.

Lembrando que não há evidências de que chás, suplementos ou fórmulas vendidas na internet consigam tratar doenças da tireoide. Alguns nutrientes, como selênio e iodo, são importantes para o funcionamento da glândula, mas o excesso pode ser tão prejudicial quanto a deficiência — o que vale inclusive para o selênio encontrado na castanha-do-pará: uma ou duas unidades por dia já bastam.

A identificação precoce de qualquer alteração na região segue sendo fundamental. O autoexame não substitui a consulta médica, mas pode ajudar a identificar alterações visíveis na região da tireoide. Para realizá-lo, fique em frente a um espelho, incline levemente o queixo para cima e observe a área localizada abaixo do pomo de adão e acima das clavículas. Em seguida, tome um gole de água e engula. Durante a deglutição, apalpe suavemente a região e observe se surgem abaulamentos, assimetrias ou movimentos incomuns. Caso perceba qualquer mudança persistente, procure a avaliação de um endocrinologista.

O diagnóstico de disfunções na tireoide passa por exames de sangue que medem os níveis dos hormônios TSH, T3 e T4 livre, além de anticorpos tireoidianos para avaliar suspeitas de doenças autoimunes, como tireoidite de Hashimoto ou doença de Graves. Já o exame de ultrassom irá investigar alterações no tamanho e presença de nódulos.

O tratamento para hipotireoidismo e hipertireoidismo costuma ser medicamentoso, com objetivo de devolver os níveis dos hormônios para a faixa de normalidade. No entanto, quem tem hipertireoidismo pode necessitar de terapia com iodo radioativo ou cirurgia para retirada parcial ou total da glândula. “Quanto mais cedo identificamos uma alteração da tireoide, maiores são as chances de evitar complicações e preservar a qualidade de vida do paciente”, assegura Danielle Macellaro.

Fonte: Agência Einstein