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Shenzhen, a cidade de fronteira a anos-luz de Hong Kong

Shenzhen, a cidade de fronteira a anos-luz de Hong Kong

(Arquivo) Shenzhen está por trás da "Grande Muralha da Tecnologia da Informação" imposta pelo governo chinês, que bloqueia o acesso à informação que o poder considera indesejável - AFP/Arquivos

Tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe. Nos portões de Hong Kong, a metrópole chinesa de Shenzhen, invadida pela propaganda do regime comunista, sente pouca simpatia pelas alegações dos manifestantes da ex-colônia britânica.

“Estão apenas jogando pedras no próprio telhado”, declarou à AFP um taxista de Shenzhen, que não quis ser identificado.

“O que vão fazer quando a economia estiver no chão, e nenhum turista for lá?”, questiona ele, enquanto agentes da polícia militar, escoltados por caminhões e tanques, encontram-se estacionados em um estádio da cidade, a 7 quilômetros da fronteira.

Embora Hong Kong tenha regressado à China em 1997, mantém um governo autônomo e tem sua própria moeda. Sua fronteira e seus habitantes desfrutam de liberdades inexistentes no continente, como a de se manifestar.

Os chineses da República Popular podem entrar livremente em Hong Kong, desde que tenham uma permissão especial e para uma estada limitada.

– Conspiração do estrangeiro –

Shenzhen está dentro da “Grande Muralha da Tecnologia da Informação” imposta pelo governo chinês. Esta barreira invisível bloqueia o acesso a informações consideradas indesejáveis pelo governo.

Contrária aos manifestantes, a mídia estatal é praticamente a única fonte de informação na cidade. Nestes veículos, os manifestantes de Hong Kong são apresentados como “agitadores” violentos, antichineses, separatistas e até “quase terroristas”.

Sem citar abertamente o país (no caso, os Estados Unidos), vários habitantes apoiam a teoria de que as manifestações estariam sendo distorcidas pelo exterior.

“Os americanos cercam nosso país”, declara um homem que se identifica como Feng.

Para ele, as manifestações são, “sem dúvida, resultado de influências estrangeiras: pagam os estudantes e os desempregados para que criem problemas e vão se manifestar”.

“É o resultado da influência taiwanesa, americana e britânica”, disse um trabalhador migrante, chamado Chan.

“Aparentemente, eles recebem até 10.000 iuanes (1.275 euros) por manifestação”, completou.

– 20 minutos –

Em 1980, Shenzhen era um mero povoado de pescadores, quando se tornou uma “Zona Econômica Especial” destinada a atrair investimentos de Hong Kong. Hoje, é uma metrópole moderna com 12,5 milhões de habitantes.

Mesmo entre aqueles que afirmam entender os protestos pró-democracia, o medo dos manifestantes parece forte, aprofundado pela divisão linguística entre o cantonês, que é falado em Hong Kong, e o mandarim, a maioria em Shenzhen.

Apesar das diferenças, os habitantes das duas cidades estão mais próximos do que nunca. Um trem rápido, que funciona desde o ano passado, conecta as duas metrópoles em menos de 20 minutos.

“Eu queria ir a Hong Kong para ver as manifestações, mas temo que eles batam em pessoas que falam mandarim”, admitiu um trabalhador que não quis se identificar.