Shen Yun: o que há por trás do espetáculo que une dança chinesa e propaganda política

Famoso por outdoors onipresentes e estética colorida, o Shen Yun enfrenta processos judiciais e críticas por sua conexão com o movimento religioso Falun Gong e relatos de exploração de menores

Cartaz de apresentação do grupo Shen Yun nos EUA
Cartaz de apresentação do grupo Shen Yun nos EUA Foto: Reprodução

Quem circula pelas grandes capitais brasileiras ou cidades como Nova York e Londres certamente já se deparou com os vibrantes outdoors do Shen Yun. Com a promessa de reviver “5 mil anos de civilização chinesa antes do comunismo”, o espetáculo de dança clássica tornou-se um fenômeno global de marketing. No entanto, por trás das coreografias precisas e dos figurinos de seda, a companhia carrega uma bagagem de controvérsias que vão desde o extremismo ideológico até graves denúncias de abusos trabalhistas e operação sob moldes de seita.

Resumo

  • Origem e ideologia: fundado em Nova York em 2006, o Shen Yun é o braço cultural do Falun Gong, movimento espiritual banido na China e conhecido por sua forte retórica anticomunista.

  • Denúncias de abuso: processos nos EUA alegam que jovens dançarinos foram submetidos a jornadas exaustivas, restrição de acesso médico e vigilância constante.

  • Foco político: o espetáculo, embora vendido como “5 mil anos de cultura”, inclui cenas que retratam perseguições políticas e mensagens contra a ciência e a evolução.

  • Investigação trabalhista: autoridades norte-americanas investigam se a companhia utiliza mão de obra infantil sob o pretexto de treinamento religioso e educacional.

O Shen Yun Performing Arts foi fundado em 2006, no estado de Nova York, por seguidores do Falun Gong (ou Falun Dafa), um movimento espiritual liderado por Li Hongzhi. Banido na China em 1999 após ser classificado como um “culto maligno” pelo governo de Pequim, o grupo encontrou no Ocidente um refúgio para disseminar sua doutrina. O espetáculo é, na prática, o principal veículo de propaganda e financiamento do movimento, que também controla o jornal The Epoch Times, conhecido por disseminar teorias da conspiração e apoiar movimentos de extrema-direita globalmente.

A experiência do espectador muitas vezes começa com o encantamento técnico, mas termina em perplexidade política. Relatos publicados em veículos como o The New York Times e a CNN descrevem cenas que retratam o comunismo como uma força demoníaca e mensagens que condenam a teoria da evolução e o pensamento moderno. “Não é apenas dança; é um esforço sistemático de doutrinação”, apontam críticos culturais que acompanham a trajetória do grupo.

Contudo, o brilho das luzes do palco tem sido ofuscado por denúncias que chegaram aos tribunais dos EUA. Ex-dançarinos alegam que foram recrutados ainda crianças para estudar na academia Fei Tian, vinculada ao grupo, onde enfrentavam rotinas de ensaio de até 15 horas por dia. Os relatos descrevem um ambiente de isolamento, onde o acesso a cuidados médicos era desencorajado em favor da “cura pela fé” e o contato com familiares era estritamente controlado. Investigadores federais agora apuram se o grupo violou leis de trabalho infantil e tráfico humano.

No Brasil, a turnê do grupo é acompanhada com cautela. Portais como o Poder360 e Metrópoles destacam que, embora a companhia se apresente como uma preservadora da cultura ancestral, ela é proibida de entrar na própria China. Pequim utiliza sua rede diplomática para pressionar teatros a cancelarem as apresentações, alegando que o grupo distorce a história chinesa para fins políticos. Por outro lado, o Shen Yun utiliza essa perseguição como ferramenta de marketing, apresentando-se como uma voz de resistência.

A questão central para o público e para as autoridades não reside na liberdade de expressão artística ou religiosa, mas nas condições sob as quais essa arte é produzida. Enquanto as investigações nos EUA avançam, o Shen Yun continua sua expansão global, alimentado por uma estrutura financeira opaca e uma rede de voluntários devotos. Para a IstoÉ, o caso representa o complexo cruzamento entre arte, fé e política, onde a transparência sobre o que ocorre nos bastidores é tão necessária quanto a estética apresentada no palco.