O vídeo de um bebê usando uma chupeta pode ser a imagem mais fofa e inocente do mundo para uma mãe, um pai ou uma avó. Mas, a partir do momento que esse conteúdo é compartilhado na internet, ele alcança muito mais gente. Chega à tia que mora longe, à prima que trabalha muito e raramente tem tempo de visitar o bebê, ao amigo que está viajando, mas quer matar a saudade. Ao mesmo tempo, pode ser visto por pessoas totalmente desconhecidas. Algumas que não vão nem parar de rolar o feed, ignorando a criança bonitinha e rodando o scroll rumo ao próximo vídeo. Outras, no entanto, podem enxergar na foto algo com outro sentido.
Recentemente, uma mãe compartilhou um alerta que viralizou nas redes sociais, pedindo que as famílias não postassem fotos de bebês usando uma chupeta específica, que tem o fundo transparente. Ela reuniu, no post, comentários maldosos que encontrou na internet, para mostrar o quão longe uma mente perturbada é capaz de ir.
E este é apenas um exemplo dos potenciais perigos do “sharenting”, termo que tem sido usado para falar sobre o compartilhamento de fotos das crianças por pais. A palavra vem do inglês “share” (compartilhar) + “parenting” (parentalidade). O conceito já levantava preocupações antes, mas ganhou ainda mais evidência após a publicação do vídeo-denúncia feito pelo influenciador Felipe Bressanim Pereira, o Felca.
Entre outros assuntos importantes, a viralização do documentário, visto por milhões de pessoas, fez com que alguns pais filtrassem melhor o conteúdo que postam sobre os próprios filhos nas redes, imagens que antes eram restritas aos álbuns de família. Hoje, antes mesmo de completarem 2 anos, 80% das crianças já têm presença online nos países ocidentais, de acordo com uma revisão de estudos realizada por pesquisadores da Universidade Cesumar, de Maringá (PR), publicada na revista Bioética neste ano.
Para a psicóloga Luana Santi, do Hospital Pequeno Príncipe (PR), é importante que as famílias ponderem quais informações são expostas, de modo a entender possíveis riscos à integridade física e mental das crianças e adolescentes. “Caso os pais decidam compartilhar imagens de seus filhos na internet, cabe cercar-se de alguns cuidados, como: respeitar a privacidade da criança, selecionar cuidadosamente o que postar e manter a atenção à segurança digital”, diz a especialista. “Mesmo que o perfil dos pais seja fechado, ainda é preciso ter cautela com o conteúdo postado”, completa Karine Almeida, que também é psicóloga no hospital.
Aqui, as especialistas apontam tópicos importantes, que devem ser considerados pelos adultos antes de publicar imagens de menores nas redes sociais:
1. É preciso pensar nos riscos que a exposição da imagem pode acarretar às crianças. Uma vez que uma foto ou vídeo é postado na internet, perdemos o controle de quem os acessa e dos potenciais usos desse conteúdo.
2. Os impactos físicos relacionados à exposição da imagem envolvem o risco de localização e sequestro por dados que ficam implícitos em fotos, como por exemplo: uniformes, placas e geolocalização, que podem revelar a rotina da família.
3. As fotos podem ser copiadas e manipuladas ou parar em contextos de exploração, inclusive sexual.
4. Também há um risco de cyberbullying, onde as imagens são compartilhadas fora de contexto e se tornam motivo de chacota entre colegas, sobretudo na adolescência.
5. É válido considerar a violação da privacidade, porque a criança – se não hoje, em um futuro próximo – pode sentir que não tem controle sobre a própria imagem, desencadeando inseguranças, vergonha ou dificuldade de construir uma identidade.
6. Algumas fotos ou vídeos expõem situações que podem trazer constrangimento futuro, como por exemplo: a criança tomando banho, chorando ou em crise. Tudo isso pode ser motivo de humilhação, ainda que a criança, a princípio, não tenha consciência disso.
7. Esses conteúdos geram rastros digitais permanentes que expõem momentos sensíveis e íntimos que devem ser protegidos.
8. Por conta da superexposição, seu filho pode sentir que precisa performar para agradar os outros ou manter uma imagem pública. As comparações e comentários negativos sobre a aparência ou comportamentos advindos dessa exposição tendem a afetar diretamente na autoestima e autoimagem.
Quando são eles que postam
Até determinada idade, são os pais que ponderam e decidem quais conteúdos poderão ser postados. No entanto, conforme as crianças crescem e chegam à adolescência, muitas passam a ter redes sociais e aplicativos de mensagens. Para isso, é preciso que elas estejam preparadas para ter pensamento crítico e avaliar as consequências, antes de tomar uma decisão sobre o que compartilhar.
“A proibição do uso de redes sociais até determinada idade ajuda, mas precisamos considerar que os adolescentes podem criar contas falsas ou utilizar contas de terceiros”, alerta a psicóloga Karine Almeida. Na visão da especialista, regras excessivamente rígidas, sem diálogo ou orientação, não são eficazes, porque podem levar ao uso escondido. “Nenhuma medida restritiva substitui o diálogo e a fiscalização dos pais, que devem acompanhar o conteúdo e estabelecer acordos que consideram a segurança e a integridade física e emocional das crianças e adolescentes. Além disso, limitar o tempo de tela e incentivar outras atividades são ações complementares de grande relevância”, orienta.
É igualmente importante que outras esferas da sociedade cumpram também seu papel na proteção da infância e da adolescência. As famílias, sozinhas, não podem resolver o problema. Impulsionado pelo grande alcance do vídeo de Felca, tramita com urgência no Legislativo, o Projeto de Lei 2628/22, que tem sido chamado de “ECA Digital”, em referência ao Estatuto da Criança e do Adolescente. A proposta prevê regras para a proteção dos menores de idade em ambientes digitais, com obrigações para as plataformas e controle de acesso pelos responsáveis.
Luana Santi aponta ainda que a educação digital nas escolas faz diferença. “É preciso criar espaços de orientação e diálogo em relação ao uso cauteloso das telas e redes sociais, além de campanhas de conscientização para pais e adolescentes”, defende.