Artes Visuais

Sertão é quando menos se espera

O 36º Panorama da Arte Brasileira apresenta o espaço semidesértico como metáfora de territórios e ações não colonizados e não desbravados

Crédito: Paula Alzugaray

“Deus Ápis, seu Rebanho e suas Esposas” , de Gervane de Paula (Crédito: Paula Alzugaray)

36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão/ Museu de Arte Moderna de São Paulo, SP/ até 15/11

Instalação de estandartes, do mato-grossense Michel Zózimo (Crédito:Paula Alzugaray)

Na entrada do MAM-SP, o trabalho de Michel Zózimo reúne bandeiras e estandartes de movimentos sociais, fanfarras e blocos carnavalescos. Como um prólogo das narrativas reunidas no 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão, elas anunciam a diversidade de culturas, biomas, corpos e organizações que podem ser reunidas em torno do conceito irradiador da exposição. “O sertão não deve ser entendido como tema, mas como uma forma de enunciar”, diz a curadora Julia Rebouças à ISTOÉ.
A cada dois anos, o Panorama da Arte Brasileira busca abarcar a produção artística contemporânea do País. Este ano, o sertão não deve ser entendido, portanto, como uma coordenada geográfica que aproxima os 29 artistas e coletivos participantes, mas como uma assertiva. “Os elementos de uma certa geografia não constituem suficientemente o sertão. Não há empreendimento, monumento ou manifestação que consiga manifestá-lo inteiramente”, diz a curadora. Os enunciados vêm de artistas da Ilha de Marajó (PA); do bairro Nacional, na periferia de Contagem (MG); da caatinga do Piauí; do semi-rido ocupado por seu povo originário, os fulniôs, do Maranhão; e até mesmo de países europeus, onde vivem hoje artistas selecionados para a mostra, como Ana Vaz, natural do DF e residente em Lisboa. “O Sertão é quando menos se espera”, diz Julia, parafraseando Guimarães Rosa.

Espaço dedicado a artistas trans, de Vulcanica PokaRopa: visões de um país dividido (Crédito:Paula Alzugaray)

Das fazendas do Centro Oeste, vem o mato-grossense Gervane de Paula, com um trabalho crítico à monocultura agrícola que coloca em risco a biodiversidade. “Deus Ápis, suas esposas e seu rebanho ou o mundo animal” (2016-19) faz referência à divindade da fertilidade. A instalação é formada por um rebanho taurino produzido com peças de artesanato, com chifres ef madeira remanescente de cercas e mourões de fazendas. O trabalho instaura uma reflexão sobre a condição paradoxal do gado na cultura brasileira: como pivô de situações de conflito violento e como símbolo de fartura e fecundidade.

Ações coletivas

Ao expressar um paradoxo, o trabalho de Gervane é o que há de mais próximo de uma definição de Brasil. Já a duplicidade da palavra “cerca” — que, ao mesmo tempo, é o que separa, e o que está próximo —, identificada pela artista mineira Mabe Bethonico, em trabalho de mesmo nome (livro de artista editado pela Ikrek Edições), também é algo que faz pensar em um Brasil cindido. Em reação a esse estado das coisas, a curadoria toma o partido da defesa das ações coletivas, dos ajuntamentos de forças e dos territórios não desbravados, não colonizados. Como o espaço da artista Vulcanica PokaRopa, dedicado a artistas trans, travestis e não-binárias, que ganhou o espaço nobre do museu, a vitrine onde fica a “Aranha” de Louise Bourgeois, invertendo a lógica da “invisibilidade institucional dessa produção”.

Roteiros
Vlado: o que ele fez, o que ia fazer, e não pôde

Ocupação Vladimir Herzog/ Itaú Cultural, SP/ até 20/10

O jornalista Vladimir Herzog (1937-1975) era um amante do cinema. Como repórter de O Estado de S. Paulo, entrevistou François Truffaut, cobriu o Festival de Cinema de Mar del Plata, na Argentina, escreveu análises sobre os circuitos de São Paulo e do Rio. Como realizador, dirigiu o curta-metragem documental “Marimbás” (1963), sobre a pesca de arrastão; participou como produtor de dois filmes da Caravana Farkas — série de documentários idealizada pelo fotógrafo Thomas Farkas —, e realizou vasta pesquisa de campo no sertão da Bahia para a realização de um filme sobre Antônio Conselheiro e Canudos. Teria concluído a produção e, talvez, passasse então a ser reconhecido como cineasta documentarista, se a ditadura militar não lhe tivesse ceifado a vida naquele sábado, 25 de outubro de 1975. Foi no mesmo ano em que ele se tornou diretor do departamento de jornalismo da TV Cultura e que viajou à Bahia para pesquisar sobre a Guerra dos Canudos.

PAIXÃO Vladimir Herzog com cartaz de peça no teatro Cultura Artística, em 1956: jornalista era entusiasta do cinema e do teatro (Crédito:Divulgação)

Os 38 anos de vida de Vlado, seus talentos, projetos e realizações são revelados na comovente exposição documental produzida pelo Itaú Cultural, em parceria com o Instituto Vladimir Herzog. O enfoque da Ocupação é na vida e na obra. Um importante recorte do seu “jornalismo de análise e reflexão”, como o amigo Zuenir Ventura define seu trabalho, está reproduzido no espaço expositivo na forma de impressos, jornais e uma edição de reportagens dos telejornais Hora da Notícia e Homens da Imprensa (TV Cultura), exibida em um antigo televisor de tubo de raios catódicos.

Retratos de família e cartas a amigos atestam o rapaz espirituoso, sorridente, bem-humorado e apaixonado, que mesmo diante das atrocidades do governo militar, decide voltar ao Brasil após viver quatro anos em Londres, estudando e trabalhando na BBC. Vlado pisou em solo brasileiro em janeiro de 1969, poucas semanas depois do Ato Institucional nº 5 (AI-5) — que este ano completou 50 anos e, conforme exposição recente no Instituto Tomie Ohtake “Ainda não terminou de acabar”.

A família Herzog — sua esposa Clarice, seus filhos Ivo e André, sua mãe Zora — atravessou 40 anos para desmontar o teatro macabro instaurado a partir da sentença de morte por suicídio, até que o caso chegasse à Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), obtendo-se a condenação do Estado Brasileiro. Em um momento em que tantas mortes são acobertadas, na semana em que a Polícia Federal declara o afogamento como a causa mortis do líder dos índios waiãpi no Amapá, faz-se essencial voltar ao jornalista Vlado: “O que fez, o que ia fazer. E não pôde” foi o título do jornal do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, em novembro de 1975. PA