Cultura

Série ‘Boca a Boca’ mostra jovens enfrentando transformações e intolerância

Nem com bola de cristal Esmir Filho poderia prever que a série que começou a desenvolver há dois anos chegaria ao público em plena pandemia, estabelecendo uma espécie de macabra coincidência. Boca a Boca estreou no streaming na sexta, 17. No fim de semana passado, chegou ao top ten da Netflix. Uma história de jovens, numa pequena cidade. O vírus que se espalha por meio do beijo.

“Em março, quando começou o isolamento, estava finalizando, ajustando a cor do sexto episódio, o final. A ideia inicial era falarmos – a série é correalizada com Juliana Rojas – sobre descobertas, desejos, experimentações. Queríamos retratar o mundo jovem de hoje, que é povoado por telas. Esse é o tema, mas aí houve o coronavírus e o olhar sobre a série foi mudando. A epidemia virou ponto de partida e o que agora se vê pode ser outra coisa – como ficam as relações após a pandemia.” Claro que a associação com a covid-19 é inevitável, mas o comportamento social é padrão e ajusta-se às pandemias anteriores. “A gente pesquisou e identificou um procedimento.

Pânico, desconfiança, discriminação e, por se tratar de uma sociedade marcada por diferenças de classes, existem corpos privilegiados. Fomos criando os personagens, as situações. Boca a Boca estabelece um quadro sintomático da vida social.”

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Tudo isso era ficção, mas foi mudado pela percepção do público e da própria equipe, após a pandemia. Segundo a sinopse da Netflix, o filme é sobre jovens nessa comunidade. Levam a vida dita normal, cada um com seus sonhos, dificuldades, as questões familiares. Com os hormônios a mil, tentam dar vazão a suas necessidades afetivas e sexuais, e aí surge o vírus, que se espalha pelo beijo. Embora tenha o sugestivo nome de Progresso, a cidade é conservadora. Os jovens possuem as ferramentas que as modernas tecnologias oferecem – as muitas telas -, mas a mentalidade do local não acompanha essa modernidade. Criam-se choques – entre pais e filhos, entre os jovens, entre eles. “A proliferação das redes em Progresso coloca essa questão contemporânea que é o estar junto sem contato físico, que a gente colocou como ficção. Nem de longe imaginávamos que a pandemia iria impor essa distância física.

O beijo, como expressão da proximidade desejada, vira pânico, desespero.” E Esmir reflete: “É uma fábula de afeto, mas o afeto não é só instinto, gostar ou não gostar. É uma construção. Vivemos num mundo em que, já antes da pandemia, as pessoas, e os jovens, já eram estimulados a viver vidas separadas, sem ideais coletivos”.

Macunaíma, O Enigma de Kaspar Hauser – cada um por si e Deus contra todos. “A intenção era lançar uma lupa sobre o conservadorismo. Nesses dois anos de gestação e realização do projeto, o conservadorismo avançou muito. É um fenômeno global e o Brasil, que nos interessa, recuou décadas. Todo esse ódio contra negros, mulheres, gays, trans.” Um tema muito forte é o dos corpos privilegiados. O Brasil é campeão mundial de desigualdade. Quem pode o quê. “Achamos importante colocar o tema em discussão.” E Esmir explica: “Sou a favor do corpo. De a gente correr atrás de nossos desejo, respeitando o desejo dos outros. Todo mundo precisa se escutar, em vez de uns quererem ficar calando os outros. Por isso, a série que é sobre transformações físicas e emocionais de jovens e também sobre pais e a forma como se relacionam com os filhos. Calhou de chegar com todo mundo confinado em casa, então é uma possibilidade de entendimento. Porque, se as pessoas conviverem mais e isso só gerar mais atrito, a coisa piora, foge ao controle”.

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Tem sido sempre assim na trajetória de Esmir Filho, essa vontade de promover o crossover geracional. Surgiu, lá atrás, em 2006, com um curta, assinado coletivamente, que virou cult. Tapa na Pantera dava voz a um monstro do teatro, Maria Alice Vergueiro, grande figura, que narrava para a câmera, com total desinibição, sua experiência libertadora com a maconha. Tapa na Pantera já sinalizava para esse elemento transgressivo, desde então associado a Esmir Filho.

Os Famosos e os Duendes da Morte já possuía elementos comuns com Boca a Boca – os jovens, a comunidade interiorana, o protagonista, Mr. Tambourine Man – inspirado na canção de Bob Dylan – que já usava a internet para fugir ao sufoco do mundo. Os Duendes da Morte não tinha o vírus, mas já tinha ali dentro, inoculado, o gérmen da intolerância. Dos seis episódios de Boca a Boca, o próprio Esmir realizou quatro, os primeiros. Juliana Rojas assina o cinco e o seis. Desde a escrita havia a preocupação de onde filmar. O filme é uma parceria da Gullane e da empresa de Esmir com a Netflix. Os Duendes foi filmado na serra gaúcha. Boca a Boca, em Goiás Velho.

“Quando criei a cidade de Progresso pensei em procurar uma cidade de arquitetura colonial, era importante que tivesse a história do Brasil estampada na cidade, e me indicaram Goiás Velho. Então, quando fui lá conhecer, achei maravilhoso, as belas fachadas e toda a história que tem por trás da cidade, que é muito rica, e ao mesmo tempo tem uma juventude pulsante. Conheci os jovens que habitam ao redor, por conta da universidade. Vi performances de dança na praças, manifestações acontecendo. Percebi que era uma cidade que, ao mesmo tempo que possuía uma história, tinha uma pulsão jovem que me interessava.”

Esmir filmou quatro dias em Goiás Velho para fazer as fachadas e cenas-chave da história. Alguns espectadores familiarizados com o universo de Cora Coralina talvez identifiquem uma ponte que aparece muito em fotos e filmagens a ela relacionadas. A série utiliza uma embalagem meio psicodélica, trabalha as cores – azul, rosa – para criar uma identidade visual. E tem o elenco – Caio Horowicz, Michel Joelsas, Thomas Aquino, Luana Nastas. Esmir é sensível ao frescor que a juventude pode trazer a seu cinema. Como ele diz, “a adolescência vem quando você chora sozinho no silêncio do seu quarto, chora não pelo outro, mas por você. A descoberta dos sentimentos carrega sempre algo doloroso”. Mas Esmir não descuida dos veteranos. Denise Fraga, Olivia Byington, Bruno Garcia. Essa soma de técnicas e experiências geracionais de interpretação contribui para o encanto de Boca a Boca.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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