Cultura

Série apresenta a filosofia como prática libertária

Falando em filosofia, e em idioma catalão, Merlí vem se firmando como uma das séries mais badaladas da Netflix. Foi recomendada, em sua página do Facebook, por ninguém menos que o professor de Ética e Filosofia da USP, Renato Janine Ribeiro, ministro da Educação no governo de Dilma Rousseff.

Em que consiste essa série, que vai agora para sua terceira temporada? Basicamente os capítulos seguem a trajetória de um professor de filosofia do curso secundário chamado Merlí Bergeron (Francesc Orella parece ter nascido para o papel).

Trata-se de um subversivo, no melhor sentido do termo, porque concebe o ensino da sua disciplina não como uma série infindável e chata de conceitos e decorebas, mas como fascinante descoberta de um mundo do pensamento. Merlí se propõe como tarefa didática nada menos que seus alunos aprendam a pensar por si mesmos.

Os capítulos têm por título cada uma das escolas ou personagens centrais da filosofia: Os peripatéticos, os pré-socráticos, Platão, Maquiavel, Aristóteles, Sócrates, Foucault, Guy Debord, etc. Mas se engana quem acha que a série é apenas uma mini-história da Filosofia para ilustração dos espectadores. Não é bem assim, embora, no contexto de suas aulas, Merlí explique de fato alguns dos principais conceitos e façanhas do filósofo da vez.

O sentido maior da série, no entanto, é a aplicação da filosofia na prática da vida. Mostrar que esse “saber inútil” pode ser de fato um conhecimento dos mais úteis. Daí suas aulas às vezes se parecerem mais a psicodramas para adolescentes inteligentes do que a um ensino do saber filosófico.

O cerne é o relacionamento entre professor e alunos, que se dá sob o signo da informalidade. Merlí gosta dos estudantes, que, por sua vez, desenvolvem forte empatia pelo mestre. Este os escuta não apenas em suas dúvidas da matéria que leciona, mas em seus problemas particulares. Questões de identidade sexual, relacionamento com os pais, primeiros namoros, etc. – tudo é abordado no encontros tanto na sala de sala como fora dela.

Enfim, Merlí Bergeron deseja mostrar que a filosofia não é um saber distante, meio inútil e datado, mas, sim, que pode ser usada como ferramenta de sabedoria para enfrentar os desafios do cotidiano.

A boa sacada da série, escrita por Eduard Cortés e dirigida por Héctor Losano, é fazer do seu personagem um tipo anticonvencional, sábio e cheio de defeitos. Merlí em nada se assemelha ao clássico intelectual de gabinete. Pelo contrário, parece jogado na voragem e nas contradições da vida. É separado, tem um filho, Bruno, que aliás também será seu aluno. Despejado de casa, Merlí é obrigado a pedir abrigo à mãe, uma veterana atriz de teatro.

Ética flexível

Além disso, o professor demonstra flexibilidade ética bastante inusual. Num dos episódios, furta o gabarito de prova de um colega para repassá-lo a um aluno. Depois, quando a suspeita recai sobre ele, deixa que outro assuma a responsabilidade. Autoconfiante ao extremo, Merlí parece não sentir qualquer culpa pelo que faz. E tudo que faz é no interesse dos alunos, como se fins justificassem meios. Suas atitudes entram em conflito com o que pensam a respeito seus colegas professores ou os pais dos estudantes.

Além do mais, Merlí, homem de meia-idade, é sexualmente muito ativo. Mal chega ao colégio e dá em cima de uma colega mais jovem, aliás comprometida com o professor de ginástica. A mãe de um aluno tampouco é poupada. E, diga-se mais uma vez, culpa não é sentimento muito experimentado pelo professor de filosofia.

Não é difícil encontrar alguns antecedentes de Merlí, o principal talvez A Sociedade dos Poetas Mortos, filme de 1989 de Peter Weir – ganhador do Oscar pelo roteiro original de Tom Schulman -, em que Robin Willians interpreta o professor que vai mudar os destinos de muitos alunos, sensibilizando-os para a arte poética. Para quem se lembra desse belo filme, John Keatings (Williams), com suas atitudes pouco convencionais, consegue fazer com que alguns alunos aproveitem a poesia e a usem para mudar suas vidas. E, para aproveitar o dia, como manda a frase latina Carpe Diem, celebrizada pelo filme.

Além do mais, a série Merlí usa uma das características da escola, que funciona como microcosmo do conjunto da sociedade. Expande a amostragem, nela incluindo os pais dos alunos e também os outros professores. Ficam assim explicitados os diversos modos de apreensão de uma realidade complexa como a catalã, na qual o conservadorismo convive com a modernidade de uma sociedade que deseja experimentar novos rumos em sua história.

Na própria sala de professores essa diversidade se exprime. Lá vigora o espírito de grupo do corpo docente. Mas também saltam à vista as invejas, rivalidades, agressões e jogos de sedução variados. Merlí paira por esses ambientes meio tóxicos e por eles não é tocado ou abalado. Esse talvez seja um ponto mais fraco da história: fazer do protagonista uma espécie de super-homem nietzschiano, alguém cheio de falhas, mas muito bem resolvido e, no limite, além do bem e do mal.

Filmada com discrição, Merlí tem seu ponto forte na premissa de base: o conhecimento, quando bem compreendido, pode ser agente de libertação pessoal e política. Por isso Sócrates, um dos heróis de Merlí, foi condenado na Grécia antiga a beber cicuta, acusado de “corromper a juventude”.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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