Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais

Quem zapeava pela TV aberta na segunda-feira à noite deve ter ficado confuso: assistir ao apresentador Fausto Silva na Band em um dia de semana deve ter feito muita gente achar que tinha voltado no tempo. Depois de 33 anos reinando absoluto nas tardes de domingo da Globo, ele volta à emissora que o catapultou à fama – e com um programa bem parecido com o que o consagrou durante mais de três décadas. O público aprovou: a estreia alcançou 8,3 pontos de média em São Paulo, o mercado mais importante do País. Chegou a picos de 9,5 pontos, ficando atrás apenas da Globo, que marcou 22,7. Vale lembrar que sua antiga casa levou a guerra a sério e escalou a maior aposta do ano para o mesmo dia, o reality show Big Brother Brasil.

Apesar de toda a expectativa com o “novo” programa de Faustão, o que menos se viu foram novidades. O apresentador manteve a presença do público e o auditório, as bailarinas ainda ocupam o palco – agora, de máscaras – e o bordão “ô, loco, meu” segue no repertório. A grande diferença é a frequência, pois o programa dominical se tornou diário, de segunda a sexta, das 20h30 às 22h30. O formato é corajoso: aos 71 anos, ele vai encarar dez horas no ar por semana – algo que não arriscou nem quando revolucionou a TV à frente do Perdidos na Noite, na mesma Band, nos anos 1980.

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“Faustão é perfeito. É apaixonado pelos colegas e respeita os profissionais com quem trabalha. A TV brasileira vai experimentar uma nova revolução” Boni, executivo e pioneiro da TV (Crédito:Divulgação)

Se é que há uma novidade, é a presença de dois co-apresentadores. A jornalista Anne Lottermann e João Guilherme Silva, filho do apresentador. Faustão não poupou o rebento: “ele está comigo porque a Band é uma emissora de família”, brincou. Dividir o palco com o rei do auditório, no entanto, não é para qualquer um – visivelmente ansiosa, a dupla ainda vai demorar para se sentir à vontade ao lado de um dos maiores comunicadores da história da TV brasileira.

O fato de Faustão na Band não trazer novidades não é necessariamente algo negativo. O formato tradicional e a opção pelo estilo “alto astral” devem ter sido opções conscientes. O rosto conhecido e o tom de voz familiar trazem segurança a um público que está cansado de acompanhar as tragédias pandêmicas nos jornais da noite. É bom lembrar também que, por mais que o streaming tenha conquistado a classe alta, ainda está distante da realidade de milhões de brasileiros. Enquanto isso, a TV aberta, criticada e considerada ultrapassada, continua chegando a 97% dos lares brasileiros, o que ainda a mantém, de longe, a forma mais democrática de entretenimento para a família. É isso que Faustão promete e entrega: um ambiente controlado, quadros inofensivos, atrações populares. Do neto a avó, “Faustão na Band” pode agradar a todos – ou, pelo menos, não desagrada ninguém.

O fato de manter praticamente o mesmo programa que fazia na Globo confirma que o apresentador trocou de emissora por pressão interna. Os valores da negociação com a Band não foram divulgados, mas dificilmente chegam aos R$ 5 milhões que ele ganhava antes entre salário fixo e comissão publicitária, modelo que a Globo não desejava manter. A gota d’água foi a substituição do diretor executivo Carlos Henrique Schroder por Ricardo Waddington, com quem Faustão teve rusgas no passado. A proposta para que ele trocasse as tardes de domingo pelas noites de quintas-feira pode ter sido apenas um blefe – e foi considerava ofensiva. Faustão negociou com a Band e, contrato fechado, comunicou a Waddington sua decisão. Quando tirou uns dias para uma pequena intervenção hospitalar, o executivo deu o troco e avisou que ele nem precisaria voltar: estava afastado definitivamente. Com 33 anos de casa, Faustão não pode sequer se despedir de seu público.

Divulgação

Querido pelo mercado publicitário, Faustão se envolveu pessoalmente na negociação e convenceu cerca de 20 grandes marcas a patrocinarem seu novo programa, de Magazine Luiza a Caixa Econômica e lojas Havan. A pluralidade também é fruto da posição da Band em relação ao governo federal: entre as críticas da Globo e o apoio desmedido de canais como SBT e Record, a Band manteve uma certa neutralidade. Mesmo assim, Luciano Hang, dono da Havan e apoiador do presidente Jair Bolsonaro, não deve ter gostado de ver o cantor Seu Jorge defendendo as vacinação de crianças no programa que patrocina. Esse é outro desafio de Faustão: manter seus convidados longe da polarização política em pleno ano de eleição.

Se um programa semanal já era difícil, fazer cinco programas semanais será um desafio ainda maior – mesmo que eles não sejam exibidos ao vivo, como na Globo, mas gravados. Essa rotina exige um fôlego impressionante, porque os imprevistos podem interferir no planejamento de centenas de profissionais. Na quarta-feira 19, por exemplo, Faustão e Anna Lottermann testaram positivo para Covid-19. Apesar de já ter edições prontas até dia 26 de janeiro, isso mostra como tudo pode mudar de uma hora para a outra. Em relação aos quadros, muitos foram reciclados do Domingão: as videocassetadas são as mesmas, enquanto a Dança dos Famosos virou Dança das Feras e o Arquivo Confidencial foi rebatizado como Esta é a sua Vida. Tudo pode parecer bastante previsível, mas, no caótico Brasil de hoje, isso não deixa de ser um alento.

Rodrigo Moraes

Programa em família

Os novos companheiros de palco de Faustão têm trajetórias distintas. João Guilherme Silva, primogênito do apresentador, tem apenas 17 anos e é um iniciante na profissão. “Desde moleque eu sempre quis trabalhar com TV, estou super animado”, comemorou. O incentivo também vem de uma mudança radical: em 2020, ele passou por uma cirurgia bariátrica e perdeu 75 kg. “A saúde e auto estima me tornaram uma pessoa ainda mais feliz.” Já a jornalista Anne Lottermann tinha uma carreira sólida no jornalismo antes de trocá-lo pelo entretenimento: trabalhou na GloboNews e na BandNews, antes de apresentar a previsão do tempo no RJTV e no Jornal Nacional. A nova posição vai garantir sua independência financeira: na Band seu salário será de cerca de R$ 80 mil – bem maior que na emissora carioca.