Brasil

Sem plano de vacinação

Primeiro lote da Coronavac chega ao Brasil, mas o Ministério da Saúde se arrasta para escolher fornecedores e definir uma estratégia de distribuição de vacinas. Além disso, o governo não reconhece a existência de uma segunda onda da doença

Crédito: Adriano Machado

FALTA TRANSPARÊNCIA O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, se recusa a falar sobre a segunda onda da doença e reforça a sensação de inoperância do governo (Crédito: Adriano Machado)

“Existe uma rede de distribuição para as demais vacinas, mas dependendo das escolhas do governo, a logística pode ficar complicadíssima” Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan (Crédito:Mateus Bonomi)

O primeiro lote de vacinas contra o coronavírus desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac começa a chegar no Brasil, mas ainda há muita incerteza sobre como a população receberá esse e outros imunizantes. Enquanto o governo federal se dedica à desinformação, uma segunda onda de contágio começa a se impor e os riscos da pandemia voltam a subir. O tempo é precioso e quanto maior for a demora na escolha da vacina, mais brasileiros morrerão. Na última vez que apareceu em público, no lançamento da campanha Novembro Azul, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, não quis falar sobre a Covid-19 e questionado sobre a segunda onda, fugiu do assunto, preferindo tratar de problemas de câncer de próstata. A Covid-19 já contaminou mais de 6 milhões de pessoas no Brasil e matou 168 mil. E a sensação de inoperância e a falta de objetividade que vem do governo tornam o futuro assustador. O governo promete um plano de vacinação até o fim deste mês e só na semana passada a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) iniciou a inspeção das fábricas de potenciais fornecedores do imunizante. Não se sabe ainda quais serão os grupos prioritários na estratégia de vacinação e nem quais produtos serão escolhidos.

O problema é grave porque a campanha de vacinação contra a doença será prolongada e complexa e a estratégia de imunização vai depender do tipo de vacina. O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, diz que o processo de vacinação dos brasileiros demorará pelo menos um ano, caso a Coronavac seja adotada pelo governo. O cálculo toma por base a campanha de vacinação da gripe, que teve 80 milhões de doses e durou de março até junho deste ano. No caso da Coronavac, da Sinovac, para se alcançar a imunidade de rebanho contra a doença, seria necessário vacinar 80% da população, cerca de 170 milhões de pessoas. Como se trata, porém, de uma vacina de dupla dose, seriam necessárias 340 milhões de aplicações, um número maior do que o total de vacinações anuais no País. Doze meses, considerando as dificuldades logísticas, pode, inclusive, ser um tempo curto. Outros produtos em desenvolvimento também exigem duas doses e podem apresentar complicações logísticas.

“O governo paulista obedece a orientação da ciência e luta para termos uma vacina segura o mais breve possível” João Doria, governador de São Paulo (Crédito:Divulgação)

Disputa política

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro se dedica a uma disputa política com o governador paulista João Dória por causa da Sinovac e chama a segunda onda de “conversinha”, outros países que não politizaram a doença colocam a mão na massa e tratam de levar adiante sua estratégia de vacinação. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) já tem um plano de imunização que envolve duas vacinas, referidas como A e B, que são possivelmente as da Pfizer/BioNTech e da Moderna. Segundo o CDC haverá de 10 a 20 milhões de doses da A e 10 milhões de doses da B até o fim de novembro. A vacinação se desenvolverá em quatro etapas e será prioritária para profissionais de saúde, trabalhadores essenciais e pessoas com mais de 65 anos.

No Reino Unido, onde já foram registradas mais de 45 mil mortes, o governo também fechou acordos com seis empresas farmacêuticas — AstraZeneca, Janssen-Cilag, Pfizer/BioNTech, Sanofi/GSK, Novavax e Valneva – para adquirir as vacinas e já definiu sua estratégia. Os grupos prioritários são idosos que vivem em asilos, profissionais de saúde e pessoas com mais de 80 anos. Na União Europeia foram asseguradas 300 milhões de doses da vacina da AstraZeneca e 200 milhões da Janssen-Cilag, que serão distribuídas entre os vários países do bloco. A regra geral de imunização é proteger os mais vulneráveis. No Brasil, a única certeza se refere à Sinovac, desenvolvida junto com o Instituto Butantan, que tem contrato de compra firmado com o governo paulista.

O Ministério da Saúde informou à IstoÉ que promoverá a vacinação da população contra a Covid-19 por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI) — um dos maiores e melhores programas públicos de imunização do mundo, pelo qual, anualmente, são distribuídas mais de 300 milhões de doses de vacinas para todos os estados. Segundo o Ministério, o Brasil conta com grande expertise na realização de campanhas de vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS) e esse conhecimento, inclusive na logística, será utilizado na vacinação contra o coronavírus, que seguirá os trâmites do que já é praticado. O Ministério da Saúde enviará as doses aos estados, que farão a logística de distribuição aos municípios. A distribuição será absorvida pela rede de frio nacional, no formato de campanha, conforme realizado tradicionalmente. Essa rede, porém, pode não atender as especificações de alguns produtos. A escala de distribuição da vacina também é inédita e exige uma definição estratégica.

“Existe uma rede de distribuição para as demais vacinas, mas dependendo das escolhas do governo, a logística pode ficar complicadíssima”, disse Covas. “A rede não está preparada para trabalhar com temperaturas muito baixas”. No caso da vacina da Pfizer, por exemplo, há necessidade de armazenamento em temperaturas ultrageladas de até 80 graus negativos e a da Moderna exige até 20 graus negativos. Já para a Sinovac/Butantan o armazenamento pode ser feito em geladeiras com temperaturas normais, de 2 a 5 graus positivos. Na segunda-feira 17, o Ministério da Saúde anunciou o início de uma rodada de negociações com empresas farmacêuticas para avaliar condições de entrega, armazenamento e preço. Na terça-feira 18, houve reunião com a executivos da Pfizer. Além disso, dois laboratórios já estão sendo vistoriados pelos técnicos da Anvisa, o Sinovac e o Astra Zeneca.

LOGÍSTICA Levar a vacina para regiões distantes e isoladas é um grande desafio (Crédito:Bruno Kelly)

“O Plano Nacional para Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 está sendo elaborado no âmbito da Câmara Técnica em Imunizações e Doenças Transmissíveis e será divulgado em breve”, informou o Ministério. Entre os eixos prioritários avaliados estão a situação epidemiológica da Covid-19 e definição da população-alvo, estratégia de vacinação, operacionalização, farmacovigilância, estudos necessários para monitoramento pós-comercialização, supervisão e avaliação, comunicação sobre a campanha de imunização. O que já se sabe é que por determinação de Bolsonaro, a vacinação não será obrigatória, o que também traz especificidades para a campanha brasileira. Como Bolsonaro boicota a vacina, sua influência sobre parte da população pode prejudicar uma cobertura vacinal adequada. Como se vê, o Brasil avança a passos de tartaruga no combate ao coronavírus e a estratégia de vacinação em massa ainda não está nem no papel.

A chegada da Coronavac

Divulgação

O primeiro lote com 120 mil doses da Coronavac chegou a São Paulo na quinta-feira 19 e até o final do ano a previsão é que o Estado receba mais 46 milhões de doses. A tão esperada vacina contra a Covid-19 desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, desembarcou no Aeroporto de Guarulhos exatamente no momento em que começa a se desenhar no horizonte uma segunda onda da doença. O imunizante, que está na última fase de testes, é considerado uma das esperanças na luta contra a pandemia. O governador João Doria foi receber a remessa vinda da China e disse que a vacina é a oportunidade de proteger a população. “O governo de São Paulo obedece a orientação da ciência e luta para termos uma vacina segura contra a Covid-19 o mais breve possível. A vacina do Butantan é a esperança de vida”, disse à ISTOÉ, acrescentando que também torce pelo sucesso das outras vacinas. “Não estamos em uma corrida pela vacina, estamos em uma corrida pela vida”. A chegada ocorre após a aprovação da importação pela Anvisa.

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