A semana

Sem o glamour de antigamente, a família do bicheiro Castor de Andrade está de volta à mídia

Crédito: Saulo Angelo

EXECUÇÃO O carro em que foi fuzilado Iggnácio. Abaixo, ele (jaqueta preta) sendo preso em 2007 com Rogério, genro de Castor e principal suspeito do assassinato na semana passada (Crédito: Saulo Angelo)

Agência O Globo

Quando um fora lei vira lenda é porque ele circulou com desenvoltura em estamentos sociais que vão do submundo do crime aos palanques políticos. Assim foi Castor de Andrade, um dos maiores e mais famosos contraventores do Rio de Janeiro e do País, nos tempos em o jogo do bicho era a mina de ouro e o narcotráfico ainda engatinhava – a sua influência e presença iam das escolas de samba aos concursos de misses, dos clubes de futebol às rodas do poder e às badaladas festas de socialites. Foi glamourizado — o que o ajudava a lavar dinheiro —, mas delinquente é delinquente: a diferença é que Castor mandava dar surras em seus desafetos, mas sempre avisando que era para despachá-los “ao pronto socorro, não para o cemitério”.

Maurilo Clareto

Ele morreu em 1997, e assim dividiu o seu império: os pontos do jogo do bicho ficaram com o sobrinho Rogério e o filho Paulinho, enquanto as máquinas de caça-níqueis passaram ao domínio do genro Iggnácio. Transgressores são transgressores, e claro que os três entraram em guerra com o objetivo de fazer crescer os seus territórios. Na semana passada, na terça-feira 10, após vinte e três anos de prisões e solturas, de armistícios traídos e de quase uma centena de mortos, o nome Castor de Andrade voltou à mídia: Iggnácio foi executado com diversos tiros de fuzis na cabeça quando descia de seu helicóptero e entrava em seu carro no bairro carioca do Recreio dos Bandeirantes. A polícia, com razão, considera que o principal suspeito é Rogério, embora não descarte outras hipóteses, uma vez que Iggnácio colecionava inimigos. Já o filho Paulinho, esse foi assassinado um ano após a morte do pai. Sendo ou não o mandante do crime, Rogério agora tem em mãos o bicho e os caça-níqueis. E olhos atentos em trezentos e sessenta graus porque as milícias, é claro, querem os seus negócios ilegais.

MEIO AMBIENTE
Como nos anos de chumbo

KARL DE SOUZA/AFP

Tornou-se público na semana passada o principal documento redigido ao final da reunião do Conselho Nacional da Amazônia. Por meio dele sabe-se agora que o governo federal pretende criar um “marco regulatório” para controlar a ação de todas as ONGs que atuam na preservação da floresta Amazônica. O documento lembra os anos de chumbo, quando difusamente se falava em “interesses nacionais” e “soberania nacional”. As expressões citadas voltam, agora, com o governo dizendo que somente as ONGs que atendam “interesses” do Brasil atuarão na floresta tropical. Como o governo Bolsonaro só faz destruir flora e fauna, é fácil prever quais são tais interesses.

HISTÓRIA
O abolicionista escravocrata

Que Alexander Hamilton participou da fundação dos EUA, isso todo mundo sabe. Uma novidade ruim passou a rondar a vida do primeiro secretário do Tesouro americano (morreu em 1804): pesquisas comprovaram na semana passada que o “abolicionista revolucionário” foi, paradoxalmente, dono de escravos. “A escravidão era essencial para sua identidade pessoal e profissional”, diz o estudo. Não será surpresa se o seu rosto deixar de estampar as cédulas de US$ 100.

COMPORTAMENTO
Saudável tolerância

Uma lição de urbanidade aos intolerantes de hoje no campo da política. O cartunista Lan (Lanfranco Rossini), falecido no último dia 4, criou o personagem “Corvo” (na imagem) para satirizar o ex-governador da Guanabara e ex-deputado federal Carlos Lacerda. Eram ferrenhos adversários políticos. Na terça-feira 10 foram celebradas no Rio de Janeiro diversas missas virtuais pela morte de Lan. Um delas foi encomendada, justamente, pela Sociedade de Amigos de Carlos Lacerda, hoje presidida pelo ex-deputado lacerdista Mauro Magalhães.