Artes Visuais

Sem brincadeira

Com passagens por Paris e Veneza, o escultor Véio traz a São Paulo as histórias do sertão sergipano, em exposição com 270 peças

Crédito: Divulgação

MATRIZ FECHADA A obra “Curvado”, no quintal da casa-museu, em Feira Nova, Sergipe (Crédito: Divulgação)

Véio – A Imaginação da Madeira/ Itaú Cultural, SP/ até 13/5

Com 5 anos, eu já era velho. Os idosos se reuniam para conversar e contar causos e eu ficava ali quieto, olhando e escutando. Meus colegas diziam que eu parecia um velho”. Assim conta Cícero Alves dos Santos, o Véio, que não gostava de brincadeira de criança. Enquanto as outras crianças brincavam, ele fazia seu trabalho: talhar figuras minúsculas em cera de abelha. Hoje, aos 70 anos, Véio continua vivendo no mesmo profundo sertão de Sergipe. Quem passa pela rodovia BR-206, em Feira Nova, a oito quilômetros de Nossa Senhora da Glória, vê a placa com seu nome de guerra à margem da estrada, diante de sua casa-museu-ateliê.

O endereço atrai visitantes locais e das cidades grandes. Um deles foi a galerista e colecionadora paulistana Vilma Eid, que fez a ponte para seu trabalho em madeira chegar a Paris, onde integrou uma grande mostra de arte popular na Fundação Cartier, e a Veneza, onde em 2015 Véio ganhou uma individual na Abadia de São Gregório, disputando a atenção — literalmente pau a pau — com as grandes estrelas da arte contemporânea internacional, expostas na 56ª Bienal. Em Veneza, teve 105 peças exibidas.

Em São Paulo, na recém-inaugurada exposição individual no Itaú Cultural, são 270. Números que dão uma dimensão da extensão da obra deste menino eternamente velho — calculada em 17 mil peças — que logo moço escapou da enxada e da roça para tratar de ser artista.

ARTE É ARTE “Criança não tem condições de brincar com uma obra de arte, não”, diz Véio (Crédito:Divulgação)

No município de Feira Nova, onde vive, Véio é dono do último trecho de mata virgem da região. Mas não tira nada de lá para sua produção artística. Diz que é uma reserva. Trabalha com troncos que lhe chegam abatidos: madeira de mulungu, jurema, goiabeira, graúna, barriguda. Divide sua matéria prima em duas categorias: matrizes abertas ou fechadas. As abertas são troncos lineares, que pedem modelagem, de acordo com sua imaginação. As fechadas são as retorcidas, as galhadas, formas que falam por si. Nelas, o escultor não usa o cinzel, apenas o pincel, para aplicar camadas de pintura.

Nas matrizes abertas, Véio esculpe causos reportados nas conversas dos velhos, o que lhe rende o título de cronista do sertão. Mas foram as obras que nasceram de matrizes fechadas, que contam fatos de sua imaginação, que conquistaram a curiosidade de quem trabalha com arte contemporânea. Esses trabalhos de caráter abstrato são comparados pelo crítico Agnaldo Farias, que divide a curadoria da mostra com Carlos Augusto Calil, com “a estilização, a gratuidade, a invenção” do escultor norte-americano Alexander Calder.

Mas não seria preciso atribuir a Véio, para legitimá-lo, um parentesco artístico com um dos maiores escultores da arte ocidental. Seus seres fantásticos ­— Os Gêmeos, Adeus, Curvado, Elefante Branco, Araponga, O Primata — falam por si, com muita propriedade. O sertanejo não está para brincadeira. Quem não vê sua arte, está fora. “Pois eu vou dizer uma coisa pra senhora”, disse uma vez para uma senhora que queria comprar uma peça para o neto brincar. “A sua criança não tem condições de brincar com uma obra de arte, não. Isso é obra de arte, moça. Isso aqui não é brincadeira, não. Vá comprar na rua, de plástico ou de barro, mas uma obra dessa a senhora não pode comprar pra um menino brincar.”

Roteiros
Deslocamento para o centro

O Lugar do Centro/ Central Galeria, SP/ até 21/4

No centro da sala está “O fotógrafo” (2001), instalação de Carmela Gross, que utiliza lâmpadas fluorescentes, cabos elétricos e estruturas metálicas (foto abaixo). Uma presença afirmativa mas intrigante, a se considerar o mote da exposição que inaugura a nova sede da Central Galeria, no histórico prédio do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), em São Paulo: “O Lugar do Centro” discorre sobre as acepções da palavra “centro” e seus diversos domínios, derivados da geometria, da composição, do urbanismo, da mecânica, da geopolítica, etc.

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A curadoria é do artista Artur Lescher e, entre os 24 trabalhos de 12 artistas selecionados, há associações mais ou menos evidentes à ideia norteadora da exposição. “Homeless” (2011), do argentino Eduardo Basualdo, composto por uma roleta ativada em modo contínuo por um motor, e “Eclipse” (2013), o vídeo em que Marcius Galan registra o movimento de uma roldana, relacionam-se explicitamente com a geometria da palavra “centro”. Mas a presença de “Empty Voices” (2011), do carioca Otávio Schipper, composto por objetos em bronze, pendentes do teto, talvez seja tão enigmática quanto “O Fotógrafo”. Uma conversa com o curador explicita que os objetos têm a forma de diapasões que, no universo musical, tem um papel balizador de timbres ­— portanto referencial e bastante central.

A escolha do tema da exposição não poderia ser mais certeira (como uma flecha no centro do alvo). Primeiro, porque refere-se ao estatuto da própria Central Galeria, que após cinco anos sediada em Pinheiros, desloca-se para o centro de São Paulo, dando corda ao movimento cultural que gira em torno de espaços como o Pivô, a galeria Jaqueline Martins e a galeria Phosphorus.

Depois, porque mesmo na sua diversidade de propostas, os trabalhos acabam por refletir aspectos estruturais da pesquisa artística de Lescher, baseada na geometria, em procedimentos industriais e na música, ocupando o espaço como materializações do pensamento artístico do curador. PA