Pelo segundo ano consecutivo, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não organizou atos ou manifestações institucionais para 31 de março, data em que uma ruptura promovida por generais inaugurou um período de 21 anos de ditadura militar no país, entre 1964 e 1985.
No início da tarde desta segunda-feira, 31, o presidente fez uma publicação no X (antigo Twitter) para ressaltar a importância da democracia, mas evitou citar o golpe de 1964. O petista não tem agenda ou pronunciamento oficial previsto em alusão à data.
Hoje é dia de lembrarmos da importância da democracia, dos direitos humanos e da soberania do povo para escolher nas urnas seus líderes e traçar o seu futuro. E de seguirmos fortes e unidos em sua defesa contra as ameaças autoritárias que, infelizmente, ainda insistem em…
— Lula (@LulaOficial) March 31, 2025
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania não promoverá solenidade a respeito do golpe.
Questionada pela IstoÉ, a pasta disse balizar “suas ações na defesa da democracia” e citou compromissos anteriores da ministra Macaé Evaristo, como o pedido de desculpas concedido às famílias de vítimas do regime que tiveram os corpos desovados na vala clandestina de Perus, em São Paulo. Nesta segunda, Evaristo participa de uma reunião da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
Vazio institucional
Em 2024, este mesmo Ministério cancelou uma solenidade em alusão aos 60 anos do golpe, que estava marcada para 1º de abril. A decisão atendeu a uma orientação do Palácio do Planalto para que as pastas não promovessem eventos relembrando a data, conforme revelou o jornal Folha de S. Paulo.
Lula disse na época, em entrevista ao canal RedeTV!, que o golpe “fez parte da história”, mas o povo “reconquistou o direito democrático” e os militares que comandam as Forças Armadas “eram crianças naquele tempo”.
Discurso similar é repetido por José Múcio, ministro da Defesa. Pesquisadores das Forças Armadas consideram que a abordagem busca estabilizar as relações com a caserna, estremecidas pela multiplicação de fardados no poder sob Jair Bolsonaro (PL) e participação de oficiais de alta patente em uma tentativa de golpe de Estado para manter o ex-presidente no poder, mas reforça a ideia equivocada de que o poder civil deve se submeter ao militar.
Em 26 de março, Bolsonaro e outros cinco militares se tornaram réus no STF (Supremo Tribunal Federal) pela trama golpista. Além da responsabilização penal, inédita no país, o Planalto poderia embarcar na relembrança da ditadura proporcionada pela premiação — também inédita — de “Ainda Estou Aqui” no Oscar de melhor filme internacional, no início do mês.
O filme conta a história do sequestro e assassinato do ex-deputado Rubens Paiva pelo regime, em 1971, e da luta de sua esposa Eunice Paiva pelo reconhecimento do que ocorreu com o marido. O atestado de óbito foi concedido à família 25 anos após a morte. Em janeiro de 2025, o Estado brasileiro reconheceu autoria da morte no documento.
Resposta virtual
Sem respostas institucionais, restou aos ministros de Lula utilizarem seus perfis pessoais no X para se referir à data. Rui Costa, chefe da Casa Civil, escreveu que “é preciso relembrar para não repetir”. Luiz Marinho, do Trabalho e Emprego, afirmou que o 31 de março serve para lembrar “quão nocivas são as ditaduras”.
A ministra Gleisi Hoffmann, da Secretaria de Relações Institucionais, disse que “é importante recordar esse período nos dias de hoje, em que estão sendo levados a julgamento os comandantes de uma nova tentativa de golpe, incluindo um ex-presidente da República tornado réu”.
Há 61 anos, um golpe de estado lançou o país em um longo período de ditadura, que cerceou direitos e garantias, perseguiu, prendeu e matou opositores. Foram mais de duas décadas de resistência e sacrifício para a restauração da democracia, que culminaram com a campanha das…
— Gleisi Hoffmann (@gleisi) March 31, 2025