Apesar de 59% dos brasileiros avaliarem a própria saúde como ótima ou boa, uma pesquisa recente revela que a maioria da população está acima do peso e não pratica atividade física regularmente, fatores que elevam significativamente o risco de câncer. O estudo, conduzido pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, aponta um perigoso paradoxo na percepção de saúde da nação.
A pesquisa, intitulada “A saúde do brasileiro, hábitos de vida e o uso de tecnologia em diagnósticos médicos”, mostra que 26% dos entrevistados apresentam obesidade, segundo os critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Entre aqueles que declaram praticar alguma atividade física, a frequência é baixa, com uma média de 2,4 dias por semana. Victor Piana, patologista e CEO do A.C.Camargo Cancer Center, enfatiza que a prática regular de exercícios reduz o risco de tumores como os de intestino e mama, além de auxiliar no controle do peso e melhorar a resposta do organismo durante e após o tratamento oncológico.
“O excesso de peso é hoje reconhecido pela ciência como fator de risco para mais de dez tipos de câncer, entre eles os de intestino, mama, pâncreas e esôfago. Ou seja: seis em cada dez brasileiros carregam, sem perceber, um dos principais fatores de risco da doença”, explica Piana. O médico complementa que “quem não se movimenta abre mão de uma das ferramentas de prevenção mais baratas e acessíveis que existem”.
Alimentação do brasileiro: hábitos e desafios
Dietas ricas em vegetais e fibras estão associadas a um menor risco de câncer de intestino, enquanto alimentos ultraprocessados e carnes processadas elevam esses riscos. O estudo indica que 66% dos entrevistados consomem alimentos frescos, como frutas, verduras, legumes, ovos e carnes, seis ou mais dias por semana, enquanto bebidas açucaradas, ultraprocessados, doces e frituras são consumidos, em média, dois dias semanais.
Entre os que não conseguem manter uma alimentação adequada, 29% atribuem a dificuldade ao preço elevado de carnes frescas, frutas e vegetais, e 21% citam a falta de tempo e o cansaço da rotina. A dificuldade de manter uma alimentação saudável é mais pronunciada entre quem ganha até um salário mínimo (40%), percentual que cai para 10% entre aqueles na faixa acima de cinco salários mínimos, onde o principal obstáculo passa a ser a falta de tempo (39%).
Consumo de álcool e a falsa percepção de saúde
Em relação ao consumo de bebidas alcoólicas, 58% dos brasileiros afirmam não beber. Entretanto, 30% relatam consumir álcool de um a dois dias por semana, e 5% admitem beber de cinco a sete dias por semana.
Classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como cancerígeno, o álcool está associado ao desenvolvimento de tumores de boca, garganta, esôfago, fígado, intestino e mama. Quando combinado com o cigarro, os riscos são ainda maiores.
De acordo com Victor Piana, entre os que mais consomem álcool, está a maior parcela dos que consideram a própria saúde ótima ou boa. Essa percepção atinge 64% entre quem bebe de cinco a sete dias por semana, contra 58% entre os que não bebem.
“Esse paradoxo ilustra o perigo da falsa percepção de saúde. A socialização e o relaxamento associados ao consumo frequente de álcool fazem com que a pessoa confunda sentir-se bem com estar saudável”, destaca a pesquisa.
O estudo, conforme Piana, revela que o maior risco do brasileiro não reside no que ele sente, mas sim no que ele não percebe, como o excesso de peso, o sedentarismo, o tabagismo e o consumo de álcool. Esses são fatores de risco que se instalam silenciosamente na rotina.
“A boa notícia é que todos eles são modificáveis. Cuidar dos hábitos hoje é a forma mais eficaz de reduzir as chances de um diagnóstico de câncer amanhã”, afirma o patologista.
A pesquisa entrevistou, face a face, 2.015 cidadãos com idade a partir de 16 anos, nas 27 Unidades da Federação.