Brasil

Sai o glamour, entra o galeto

A exibição de simplicidade, uma marca do novo presidente e de seu entorno, promete mudar os hábitos e os pontos de encontro da alta classe política de Brasília

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O salão luxuoso do Piantella (Crédito: Divulgação)

O presidente Jair Bolsonaro e as pessoas em seu entorno gostam de exibir um estilo de vida modesto. Já entraram para o anedotário do marketing político os vídeos que ele gravava em sua casa no Rio de Janeiro para as redes sociais, tendo ao fundo uma bandeira do Brasil grudada com fita crepe na parede, e as cenas, já como presidente eleito, dele comendo pão francês com leite condensado direto sobre a mesa, sem se dar ao luxo de usar um prosaico prato. Dias antes do Natal, durante estadia na Ilha de Marambaia, área militar na Costa Verde do Rio, a assessoria de imprensa de Bolsonaro divulgou fotos dele lavando roupa na máquina e estendendo um calção molhado no varal.

João Miranda, dono da galeteria Beira-Lago, com a primeira-dama Michelle (Crédito:Divulgação)

Nos primeiros dias de governo, tanto o presidente quanto seus ministros usaram canetas de esferográficas das mais simples para assinar documentos da mais alta relevância, em atos de enaltecimento da modéstia. Genuína ou apenas um golpe de propaganda, o fato é que essa simplicidade deve imprimir novos hábitos em Brasília. Em vez de chegar tarde e virar madrugadas, o trabalho começa e acaba cedo. Em vez de restaurantes caros e sofisticados, os pontos de encontro informais do poder migrarão aos poucos para galeterias e para bufês de comida por quilo. Em vez do uísque ou do “poire”, licor de pera dos tempos de Ulysses Guimarães, sucos. Quando há álcool, geralmente é cerveja.

Comer até não poder mais

O novo eixo do poder sai do Plano Piloto e do Lago Sul para lugares mais simples, próximos do Congresso Nacional. O grande ponto é a Vila Planalto, área que, na construção de Brasília, era ocupada pelos engenheiros e operários que faziam a nova cidade. O lugar foi mantido após a inauguração da capital, e hoje abriga um pólo gastronômico que se notabiliza por restaurantes de boa comida, porém mais simples, frequentados durante a semana por servidores públicos. A Vila Planalto fica a cerca de cinco minutos da Esplanada dos Ministérios.

Quando deputado federal, um dos points preferidos de Bolsonaro era a galeteria Beira-Lago. Como diz o nome, ela fica na beira do Lago Paranoá, mas não do lado onde estão as residências luxuosas de Brasília, mas de onde ficam a Procuradoria Geral da República, os tribunais e as embaixadas. Também é bem perto do Congresso. Inaugurada em 2011, é uma galeteria típica, ao estilo gaúcho. Serve somente frango, acompanhado de salada de batata, salada verde, farofa de ovos, arroz de carreteiro e polenta frita. As porções vão sendo preparadas e colocadas em cima da mesa do cliente enquanto ele conseguir comer.

Bolsonaro era freguês assíduo nos almoços nas terças, quartas e quintas-feiras, geralmente entre 13h e 13h30. Muitas vezes, aparecia também para jantar nas quartas-feiras. Sempre elogiou a comida do local e tinha, inclusive, uma mesa cativa lá: a de número 7. Seus companheiros habituais: o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o assessor de imprensa Carlos Eduardo Guimarães.

SIMPLÃO Wanderley Alves de Lima no caixa do seu restaurante, Sertão e Mar, que tinha o então deputado Bolsonaro como cliente: banner para faturar com o novo espírito “austero” do poder (Crédito:Divulgação)

Quanta diferença para o ex-restaurante tradicional da classe política em Brasília, o Piantella. Durante seu tempo áureo, antes dos escândalos do Mensalão e do Petrolão, o Piantella era um reduto de políticos e jornalistas, que se misturavam para conversar e para verem e serem vistos. Agora, a casa passa por dificuldades. Diminuiu de tamanho. Chegou a abrir falência. Mudou de dono. Recentemente, perdeu seu tradicional bar. Acumula dívidas. Hoje, quando quer trocar ideias, a classe política procura lugares mais reservados, longe dos ouvidos dos repórteres.

Um dos pratos mais conhecidos do Piantella é o filé à moscovita, coberto por um molho com ovas de peixe, que custa R$ 118. O rodízio de galeto no Beira-Lago sai por R$ 49,90. Mas a diferença maior nem é no preço, e sim no contraste entre a pompa do Piantella e o jeito despojado da galeteria. “O político de elite vai a lugares mais chiques. Aqui, é a cara do político mais simples. É a casa dos Bolsonaro”, diz João Miranda, dono do Beira-Lago. De acordo com ele, com o início da campanha e o aumento do assédio em torno do então candidato, foi necessário destinar uma mesa mais afastada para que Bolsonaro pudesse almoçar com mais tranquilidade. Durante a transição, o presidente eleito não foi pessoalmente ao lugar, mas sua mulher, Michelle, sim.

“O político de elite vai a lugares mais chiques. Aqui, é a cara do político mais simples”João Miranda, dono da galeteria Beira-Lago

A galeteria chega a ser glamourosa perto de outro dos restaurantes que tinha Bolsonaro como cliente: o Sertão e Mar, na Vila Planalto, a menos de dois quilômetros do Palácio do Planalto. Trata-se de um restaurante self service com um grande salão. Variado (serve 120 itens no seu cardápio), mas muito simples. Bolsonaro foi apresentado ao restaurante por Magno Malta, no tempo em que o senador (PR-ES) ainda tinha influência sobre ele. Wanderley Alves de Lima, dono do Sertão e Mar, está se esforçando para lucrar com o espírito despojado que os políticos e altos funcionários do novo governo prometem adotar: fixou um banner em frente ao restaurante no qual aparece ao lado de Bolsonaro e de Malta. A transição do glamour para a simplicidade, ao menos nas aparências, já está em curso em Brasília. Que a austeridade se reflita positivamente também nos atos de governo.