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“Rússia já estava em guerra com Ocidente há muito tempo”

“Rússia já estava em guerra com Ocidente há muito tempo”

Historiador romeno analisa guerra na Ucrânia no contexto do passado e futuro do continente. Ele não descarta que a solução possa ser a derrubada de Putin num golpe. Mas tampouco exonera uma Europa “cínica e mercantil”.Em 24 de fevereiro, o Kremlin iniciou a assim chamada “operação militar especial” na Ucrânia, com o suposto fim não só de defender “repúblicas populares” separatistas pró-russas, como de “desnazificar” todo o país. A expectativa era de uma invasão rápida e sumária, saudada pelo povo ucraniano.

Com o prolongamento dos combates, não só a força invasora tem que a reajustar a narrativa oficial: também o Ocidente se vê forçado a admitir que não se trata de uma guerra isolada, e se envolve crescentemente. Há quem ainda acredite numa solução diplomática, para outros não há alternativa senão uma derrota formalizada da Rússia, também em nome da paz mundial futura.


O historiador romeno Armand Goșu leciona história política da Rússia e da União Soviética na Universidade de Bucareste. Seguro de que a guerra na Ucrânia não será resolvida à mesa de negociações, em entrevista à DW, ele analisa o atual conflito armado não só da perspectiva da mentalidade russa, mas da evolução do papel estratégico do Centro e Leste da Europa, e o que ele representará para a paz mundial.

“O Ocidente deve se assegurar de que a Rússia não vai deflagrar uma nova guerra de agressão. Senão, também as gerações depois de nós vão travar guerras com a Rússia, e ninguém sabe se vencerão. A qualquer momento um novo Putin pode aparecer no Kremlin e voltar a ameaçar a Europa Central e Oriental.”

DW: O presidente russo, Vladimir Putin, aproveitou a tradicional parada militar em Moscou, em 9 de maio, Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial, para acusar o Ocidente de planejar uma invasão “na Rússia”, ou seja, na Crimeia, entre outros. Assim, a “operação militar especial” russa seria inevitável, para matar na raiz uma suposta agressão. O que isso representa para a guerra na Ucrânia?

Armand Goșu: Acho que testemunhamos uma recalibragem do discurso de Putin. Ao que parece, desaparecem termos empregados com frequência, como “desnazificação” ou “bandos de drogados”. Agora a ênfase é na inevitabilidade da guerra. Ou seja: não havia alternativa, e Putin só fez o que era seu dever, portanto estaria fundamentalmente correto.

Essa atitude não deve nos espantar: ela é específica das burocracias de cunho soviético e dos meios militares de que vem Putin, é uma forma muito difundida de cultura burocrática. Eu não faria questão de explicar esse fenômeno mais detalhadamente, pois em outros países – na Romênia, por exemplo – ela é a cultura predominante no governo, nos ministérios e nos serviços secretos.

Se não for a mesma coisa, é pelo menos bem parecida: o chefe sempre tem razão; não há alternativa ao que um presidente ou ministro diz; as instituições estatais nunca cometem erro. Em tais culturas, não existe expertise independente, real, autêntica.

Como a burocracia militar é culturalmente pobre e intelectualmente modesta, mas muitas vezes ostenta títulos de doutor, ela não aceita nenhum setor da política externa, defesa e segurança que não seja controlado pelos serviços secretos.

As raízes dessa cultura são um pouco mais antigas do que o regime bolchevista: elas remontam ao Império Russo, um Estado montado por uma burocracia militarizada e organizado segundo hierarquias. A instituição mais importante era a do chefe, o nachal'nik. É uma cultura especifica de sociedades rurais, que não conseguiram se modernizar ou simplesmente repudiavam a cultura ocidental.

Numa outra entrevista, o senhor disse que esse conflito será resolvido no campo de batalha, não à mesa de negociações. Por que não haveria uma solução diplomática?

Porque a Rússia continua convencida de que pode ganhar esta guerra, e investe tudo para vencer. Ou seja, o exército russo cria “pinças” maiores e menores com que tenta capturar o exército ucraniano. Isso se ensina nas academias militares de Moscou, seguindo o exemplo da tática militar soviética na Segunda Guerra.

A Rússia fez isso em agosto de 2014 na batalha de Ilovaisk [cidade da região de Donetsk, Ucrânia]. Veio o primeiro acordo de Minsk [por um cessar-fogo e solução pacífica do conflito]. Aí ela repetiu esse procedimento em fevereiro de 2015, em Debaltsevo. E então veio Minsk 2 [um pacote complementar de medidas para implementação do primeiro pacto].

Após o fracasso do grande plano de forçar toda a Ucrânia a se render através de uma guerra-relâmpago – mas também do plano de sitiar as duas principais cidades, Kiev e Kharkiv –, as forças armadas russas se concentram na região do Donbass. Lá tentam cercar grandes regimentos ucranianos com essas “pinças”, e assim forçar o presidente Volodimir Zelenski a um cessar-fogo e a concessões políticas.

Tudo o que Putin agora quer alcançar é um cessar-fogo, não um Minsk 3, mas um simples cessar-fogo. Isso lhe permitiria manter os territórios ocupados e lhe daria a pausa necessária para renovar suas capacidades militares e retomar a ofensiva contra a Ucrânia.

Por que a guerra-relâmpago russa fracassou?

O problema de Putin é que, depois de oito anos de luta no Donbass, os ucranianos formaram um exército bem preparado e moderno, e uma infraestrutura de defesa difícil de capturar, em Donetsk e Lugansk.

Para complementar suas forças de combate, a Rússia iniciou uma campanha de mobilização secreta – ou melhor, discreta, a fim de não assustar a população. No entanto, em breve os soldados vão constatar que não têm armas nem munição suficientes. E, devido às sanções, a indústria armamentista não tem nenhuma possibilidade de obter componentes eletrônicos.

Já meio desesperado, Putin queria uma pequena “pinça” para prender algumas centenas, talvez milhares de soldados ucranianos, na esperança de forçar as negociações por um cessar-fogo. Os ucranianos, por sua vez, estão numa corrida contra o tempo e torcem para receber mais rápido armas americanas para empregá-las em operações no Donbass, onde a guerra é travada com intensidade sem precedentes, e onde é enorme a perda de vidas humanas e de tecnologia de combate.

Se, como o senhor diz, a guerra será decidida no campo de batalha, como a Ucrânia deve definir uma vitória militar? Basta retomar os territórios ocupados e anexados pela Rússia?

Tanto o presidente Zelenski quanto seu ministro do Exterior têm explicado repetidamente que a meta é a libertação do território ocupado pelos russos, ou seja, o retorno às fronteiras nacionais legais de antes da anexação da Crimeia e da proclamação das “repúblicas populares” separatistas.

A Rússia, por sua vez, quer anexar Kherson, Melitopol, Mariupol e o máximo possível do Donbass, ou seja, os territórios ainda controlados por seu exército. Assim que ocorrer essa anexação e a Ucrânia intensificar a contraofensiva pela libertação, há o perigo de Putin interpretar isso como um ataque a seu país, decretar mobilização geral e evocar o artigo da estratégia de defesa russa prevendo o uso de armas nucleares em caso de ameaça à integridade do país.

O que as acusações de Putin dizem sobre as relações da Rússia com o Ocidente? Como o Ocidente deve reagir à hostilidade de Moscou?

As acusações só reforçam a narrativa básica do Kremlin de que o Ocidente seria culpado pela eclosão da guerra, que Putin não tinha alternativa, que a Rússia é vítima de uma grande conspiração americana. Ou, para ser mais exato, uma “conspiração dos anglo-saxônicos”, que é o termo da moda em Moscou.

O senhor pergunta o que o Ocidente pode fazer: ele deve ajudar a Ucrânia a se defender, ou seja, assistência financeira, armas ofensivas, apoio moral da opinião pública, respaldo político. O Ocidente não está ciente do perigo russo: o ano de 1814, quando soldados russos ocuparam Paris, vai longe. A Europa tem memória curta, é cínica e mercantilista.

O Centro e Leste europeus tiveram uma grande sorte histórica com o mundo anglo-saxônico, com os Estados Unidos, Canadá e Reino Unido. Um papel-chave cabe à Polônia, o repositório da memória histórica da Europa Central e Oriental, durante séculos a mais importante potência político-militar da região. A Polônia será a líder das nações eslávicas que, dentro de algumas décadas, estarão integradas ao mundo euro-atlântico.

Vai haver um bloco eslávico, composto pela Ucrânia, Belarus – Putin vai arrastar Viktor Lukashenko consigo para o abismo –, República Tcheca, Eslováquia e o Báltico. Com a filiação da Finlândia e da Suécia, o flanco oriental da Otan será decisivamente fortalecido em direção ao norte, dando assim continuidade ao processo de ampliação iniciado na cúpula da aliança de junho de 2016, em Varsóvia.

Esse bloco eslávico, com seus 100 milhões de habitantes, mudará a relação de forças na ala ocidental: a influência da França e da Alemanha definhará, elas se tornarão cada vez mais insignificantes, do ponto de vista da técnica de segurança.

Desde já, a Polônia e a Ucrânia são as mais importantes aliadas e parceiras dos EUA na Europa, e assim permanecerão ainda por muitos anos. Isso vale mesmo que Kiev não se torne membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Seja como for, a confiança na capacidade da Otan de reagir a ameaças russas vai continuar caindo, com membros como o húngaro Viktor Orbán.

O que isso significa para países como a Moldávia ou a Romênia, um Estado-membro da Otan no flanco sudeste da aliança?

O Leste Europeu toda será reconfigurado através dessa guerra. Também o destino da Moldávia vai mudar: no rastro da Ucrânia, ela vai continuar indo em direção à União Europeia, mas sem chance real enquanto a questão da Transnítria não estiver resolvida. Com alguma sorte, pode-se criar um contexto favorável a essa solução. É importante a presidente pró-ocidental da Moldávia, Maia Sandu, não deixar passar esse momento.

A Romênia vai tentar uma associação com a Bulgária, o que está longe se assegurado, já que Sófia evita toda associação com Bucareste, tanto no tocante ao Espaço de Schengen como à filiação à zona do euro. A Romênia estará cada vez mais longe das jogadas importantes da região, embora tivesse as melhores pré-condições para participar.

A frustração das elites políticas e de segurança de Bucareste aumentará com o medo de serem varridas pelas próximas eleições – um contexto semelhante ao de 2004, quando, sob a pressão da Revolução Laranja da Ucrânia, Traian Basescu inesperadamente venceu as eleições presidenciais romenas.

Se o Kremlin – cujo verdadeiro casus belli foi a aderência dos ucranianos aos valores ocidentais – se encontra praticamente em guerra com o Ocidente, que outros poderes existem na Rússia para impedir uma escalada e neutralizar Vladimir Putin?

Eu acho que há muito a Rússia está em pé de guerra com o Ocidente, só que em 24 de fevereiro de 2022 isso tomou a forma de uma guerra convencional. Quanto à capacidade da elite russa de evitar uma escalada, não me iludo.

Mas também não descarto um cenário em que Putin seja deposto por um golpe de Estado, e um novo líder tente dar fim à guerra, para evitar uma derrota e condições de paz humilhantes, incluindo o desarmamento e a “desfascistização” da Rússia. Assim se criaria uma nova ordem mundial, em que a Rússia não tem mais nenhum motivo para atuar como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.

Contudo o Ocidente deve se assegurar que a Rússia não vai deflagrar uma nova guerra de agressão, uma campanha de retaliação. Senão, também as gerações depois de nós vão travar guerras com a Rússia, e ninguém sabe se vencerão. A qualquer momento um novo Putin pode aparecer no Kremlin e voltar a ameaçar a Europa Central e Oriental.