Comportamento

Rondon, o pioneiro esclarecido

Pesquisa revela que as expedições do marechal entre 1900 e 1930 não só exploraram fronteiras e integraram índios. Elas também testaram tecnologias, produziram conhecimento e mapearam a biodiversidade de um território intocado

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Para Rondon, os índios eram guardiões da nação e os envolvia em atos cívicos. A menina carajá como porta-bandeira (c. 1910) na ilha do Bananal. (Crédito: Divulgação)

O marechal Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958) pode ser descrito de forma simplista como um índio positivista. Nascido no Mato Grosso e descendente de indígenas bororos e terenas por parte de mãe, tornou-se militante do positivismo do sociólogo francês Augusto Comte, como muitos companheiros do Exército no final do século 19. Tanto prezava as raízes nativas como acreditava no poder da ciência para a evolução humana. A combinação entre traços arcaicos e modernos moldou sua personalidade racionalista e tolerante. As características pessoais de Rondon ajudaram a definir o vetor do progresso da República. Além disso, colaborou no desenvolvimento do saber científico no início da formação do País.

Rondon entre os índios parecis no salto Utiariti, no Mato Grosso (1907) (Crédito:Divulgação)

Uma série de pesquisas organizadas pelas historiadoras Lorelai Kury e Magali Romero Sá, professoras do programa de História da Ciência e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz, traz revelações sobre o papel de Rondon e seu batalhão de engenheiros e cientistas na produção de conhecimento sobre o Brasil. As investigações foram reunidas no volume “Rondon: Inventários do Brasil, 1900-1930”, lançado pelo Andrea Jakobsson Estúdio. O volume traz nove ensaios de especialistas sobre as expedições e apresenta um vasto acervo fotográfico e documental.

“Rondon começou a ocupação do território virgem do Centro-Oeste e Amazonas”, afirma Lorelay. “Ele usou o saber para ocupar. Foi assim que entrou em contato com centenas de tribos indígenas amistosamente e criou formas de protegê-las, com a fundação do Serviço de Proteção ao Índio em 1910, que em 1967 viraria a Funai.” O livro, diz ela, pode divulgar o legado de um homem que os jovens de hoje desconhecem. “Ele foi um desbravador, não um explorador.”

No final do século 19, Rondon juntou-se aos projetos do Exército no sentido de organizar campanhas militares para defender o território e construir infraestrutura de comunicações e transportes que unisse a nação. A missão contava com o apoio das mais recentes aquisições tecnológicas. A principal era o telégrafo. Embora a versão sem fio já fosse aplicada à comunicação naval, as redes de fios telegráficos ainda constituíam o meio mais eficaz de interligar uma região selvagem como o do Centro Oeste e da Amazônia brasileira. Era mais fácil instalar fios com suas estações através do território desconhecido do que, como em outros tempos, derrubar árvores e abrir picadas. Assim, a Comissão Rondon começou a avançar sobre a selva e a entrar em contato com povos primitivos não pela violência dos tempos coloniais, mas por meio de uma tecnologia moderna. A Comissão Rondon instalou entre 1900 e 1915, 583 quilômetros de linhas entre Mato Grosso e Amazonas. “A instalação do telégrafo consistia em um objetivo estratégico”, diz Lorelay. “Mas trazia consigo uma série de outras missões para desbravar e integrar o País.”

“Ele usou o saber para ocupar. Foi um desbravador, não um explorador ” Lorelay Kury, historiadora

“Rondon e seus homens realizaram o mapeamento mais completo da biodiversidade daquelas regiões do Brasil” Magali Romero Sá, historiadora (Crédito:Divulgação)

Para integrar as campanhas, Rondon convidou engenheiros, cartógrafos, botânicos, zoólogos e taxidermistas. Eles identificaram rios, regiões e aldeias, traçaram rotas e registraram, pela primeira vez em filmes e fotografias, os rituais indígenas. “Por ser positivista, incentivou os ritos dos índios e os convenceu a adotar novos hábitos, como o hasteamento da bandeira, porque acreditava que o índio estava destinado a vigiar o território”, diz Lorelay. “Tentou rechaçar o avanço dos missionários na catequese dos índios, porque via na religião um estágio ultrapassado na marcha da civilização. Os índios pulariam essa etapa.”

Rondon e seus comandados também recolheram amostras de plantas e animais que hoje compõem um dos maiores tesouros científicos do Brasil, depositados no Museu Histórico Nacional. “Rondon e seus homens realizaram o mapeamento mais completo da biodiversidade daquelas regiões do Brasil”, afirma Magali Romero Sá “Esse material tem importância universal.”

O marechal tinha consciência de que suas expedições ganhariam repercussão mundial. Por isso, fez questão de acompanhar o ex-presidente americano Theodore Roosevelt (1858-1919) em eviagens pela mata. Por duas vezes, em 1925 e 1957, foi indicado para o prêmio Nobel da Paz, a primeira por iniciativa do físico Albert Einstein. Não ganhou o Nobel, mas outras honrarias, como o título póstumo que faz jus a seu legado: “Patrono da Arma de Comunicações do Exército Brasileiro”. Afinal, Rondon usou a comunicação como arma, do bem.

Ao lado de Theodore roosevelt

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O ex-presidente americano Theodore Roosevelt e o marechal Cândido Rondon em 1914 junto ao marco de madeira que assinala o a mudança do nome de Rio da Dúvida para Rio Roosevelt, numa região distante da Amazônia depois batizada de estado de Rondônia, em homenagem ao marechal. A Expedição Científica Roosevelt-Rondon explorou regiões desconhecias entre 1914 e 1915