Cultura

Rondon, a jornada do pioneiro

Biografia mostra como o marechal Cândido Rondon integrou as nações indígenas ao Brasil e se tornou o maior explorador dos trópicos, além de etnógrafo e linguista

Crédito: Divulgação

NO SERTÃO O capitão Cândido Rondon em 1895, aos 30 anos, diante da gruta da Ponte da Pedra, em Paraúna, Goiás: explorador da mata e da alta tecnologia (Crédito: Divulgação)

O militar, sertanista e engenheiro mato-grossense Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958) figura como um vulto pátrio tão venerado que a fama ofusca as façanhas. Só que, apesar delas, não obteve reconhecimento internacional. “Rondon , uma biografia” (Companhia das Letras), do jornalista americano Larry Rohter, corrige uma injustiça historiográfica e o eleva ao panteão dos grandes pioneiros. “Rondon merece constar como o maior explorador dos trópicos”, diz Rohter à ISTOÉ. “Foi um patriota e um pacifista que só encontra similar em Gandhi.”

“Morrer se necessário for, matar nunca”
Cândido da Silva Rondon, militar

Desde que chegou ao Brasil como correspondente da revista “Newsweek” em 1978, Rohter se fascinou por Rondon e passou a seguir seus rastros. Viajou para o Mato Grosso e Rondônia e pesquisou em arquivos. Entre 1998 e 2008, chefiou a sucursal do jornal “The New York Times” e continuou as excursões. Em 2008, de volta aos Estados Unidos, ganhou uma bolsa e intensificou a pesquisa.“Apesar de haver biografias sobre Rondon, quis mostrar um lado menos abordado, o das várias facetas: o homem, o explorador, o operador político, o antropólogo, o linguista que falava fluentemente quatro línguas europeias e dezenas de idiomas indígenas”, afirma.

Precursor

O resultado de quatro anos de trabalho é a narrativa sobre um soldado raso mestiço que se fez sozinho e uniu o Brasil pela cultura e a ciência. Rohter aponta a discrepância entre as realizações de Rondon e o reconhecimento que recebeu. Seu nome não consta entre os verbetes das duas maiores obras de referência sobre o tema, o “Oxford Atlas of Exploration” e o “National Geographic Expeditions Atlas”. Não é citado nem mesmo como chefe da Expedição Científica que dividiu com Theodore Roosevelt, em 1913. “É mencionado como guia local indígenas de famosos pioneiros de florestas”, diz Rohter. “O eurocentrismo prejudicou a imagem de um grande brasileiro.” Talvez tenha sido esta a razão de Rondon não ter ganho o prêmio Nobel da Paz nas duas vezes em que foi indicado, em 1925 e 1957.

A biografia conta como o entusiasmo de Rondon pela tecnologia se uniu a uma visão humanista. Descendente de espanhóis e de indígenas bororos e terenas, ele se qualificou a negociar e integrar nações indígenas à nação. Ao contrário dos exploradores racistas, rechaçou a atitude de superioridade diante dos nativos. Buscou o diálogo, a conservação, o registro e o estudo científico das culturas tribais, criando o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) em 1910, embrião da Fundação Nacional do Índio (Funai), de 1967. Suas iniciativas inspiraram os antropólogos Darcy Ribeiro e Lévi-Strauss.

Ele se destacou como precursor de novas tecnologias, como o telégrafo, que instalou pelos sertões e selvas, e pelo uso do cinema e do fonógrafo em expedições etnográficas, dez anos antes do primeiro documentário do gênero, “Nanook, o esquimó” (1922), de Robert Flaherty. Os cilindros que gravou com cantos indígenas serviram para Villa-Lobos compor obras baseadas no folclore.

Rondon adotou uma divisa que hoje soa comovente, já que criada por um oficial do Exército brasileiro: “Morrer se necessário for, matar nunca”. Com a biografia de Larry Rohter, a ser lançada nos Estados Unidos em 2020, Rondon poderá obter a glória mundial que merece.

Das selvas à consagração

 

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