Quem disse que escultura não pode ser pop? Ron Mueck (1958 – ) é um bom exemplo de escultor que cria obras hiper-realistas a partir de uma dimensão única e inédita. Ele nasceu em 1958, em Melbourne (Austrália) e radicado em Londres. Filho de pais alemães, cresceu envolvido com o negócio da família, que desenvolvia marionetes e bonecos. Essa experiência dos tempos de criança foi marcante para sua trajetória artística, que também teve passagens preparatórias por uma TV infantil e por cinema, quando se mudou para os Estados Unidos.

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Após vinte anos de trabalho na indústria de efeitos especiais, ele ingressou na carreira de artista somente em meados dos anos 1990. Ele se casou com uma das filhas de Paula Rego, que conquistou considerável atenção do público quando se tornou artista da National Gallery de Londres. Em 1996, a sogra queria fazer um quadro sobre a história de Pinóquio e convidou Mueck para fazer um modelo para ela. Com isso, começou a ficar conhecido.

Ele chamou a atenção do público com sua escultura “Dead Dad”, criada a partir de sua memória para homenagear seu pai, que havia falecido recentemente. Depois disso, sua primeira exposição individual aconteceu em Londres, quanto ele tinha 40 anos. Um dos destaques da mostra foi “Boy 1999”, uma obra de 5 metros de altura. A partir daí, começou a ganhar destaque. Entre 2000 e 2002, a National Gallery de Londres o incluiu na sua lista de artistas e ele ganhou projeção para começar a fazer turnês internacionais, apresentando esculturas como “Mãe e Filho”, “Mulher Grávida”, “Homem em um Barco” e “Bebê Enfaixado”.

O trabalho artístico de Mueck registra, nos mínimos detalhes, o corpo humano, sempre brincando com a escala para produzir imagens visuais envolventes. Para atingir a perfeição dos detalhes, chega a demorar quase meses para produzir uma escultura. Com isso, afirmou-se como um grande especialista em obras realistas. Termos como Super-Real e Hiper-Real têm sido usados ​​para descrever os artistas que, como ele, tentam verossimilhança extrema. Ron Mueck busca alcançar a perfeição e faz a demonstração precisa da realidade exatamente como a encontra.

Suas esculturas estão sempre fora da escala da realidade. Suas figuras são grandes ou pequenas, mas todas são resultado de uma constante busca pela criatividade, encontrando novas formas de dar expressão ao poder das ideias na imaginação humana. Essas ideias tornam-se verdadeiras obras de arte, afetando nossas emoções. Mais do que tudo, Mueck é um perfeccionista, com uma abordagem apaixonada e dedicada à reprodução da realidade. Entre as obras que ajudaram a projetar seu nome está “Angel”, uma escultura de um menino pequeno sentado em um banquinho com duas enormes asas de anjo, feitas de penas de ganso. Mueck inspirou-se para criar esta obra no quadro de Giambattista Tiepolo, que se encontra na National Gallery de Londres.

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Mueck continua sendo um homem reservado e, por isso, geralmente não participa das inaugurações de suas exposições. Chega a dizer que não deseja nos contar histórias sobre seu trabalho porque cabe aos espectadores fazer suas interpretações. Nessa linha, “Mulher Grávida” é uma escultura com um impacto poderoso, despertando diferentes sentimentos para cada espectador. Para os homens, transmite a sensação de estar assistindo ao nascimento de um filho. Para as mulheres, a análise depende da vida de cada uma, conforme os filhos e os dilemas como a dificuldade de engravidar, a perda de bebes, etc. Este é um trabalho muito emocionante para quem viveu uma gravidez difícil, assim como para quem nunca engravidou. A obra começou a ser criada a partir de desenhos despretensiosos, depois com pequenas maquetes de gesso, com cerca de 15 centímetros de altura cada, e acabou se transformando em uma grávida gigante (2,5 metros de altura).

“Mulher Grávida” pode ser considerada ponto de virada na carreira de Mueck. Foi criada a partir do resultado de um amplo estudo sobre gravidez, inclusive contando com a colaboração de uma modelo grávida, que foi acompanhada do sexto mês até a última semana de gestação. Mueck começou a trabalhar em uma grande escultura de argila, que se tornou o modelo para o molde final que ele faria. Ele fez o molde com tela de arame, inclui tecido, bandagem embebida em gesso e, lentamente, foi acrescentando argila e raspando a superfície conforme necessário.

Depois de vários testes de cor, ele obteve uma obra realista. Optou por fazer rostos de silicone e corpos de fibra de vidro. Incorporou nas suas esculturas detalhes como pintura das veias, manchas, folículos capilares, manchas, rugas, unhas e assim por diante. Para fazer o rosto, um molde de gesso separado teve que ser feito e, em seguida, feito um molde. O desafio final foi prender a face de silicone à escultura de fibra de vidro. “Mulher Grávida” é a obra de arte mais cara já adquirida de um artista internacional nascido na Austrália.

A perfeição chega a tal ponto que acaba por revelar todas as imperfeições. Suas obras combinam um realismo intenso, com muito brilhantismo técnico para criar esculturas impactantes. Com isso, seu trabalho o posicionou como mestre da escultura figurativa contemporânea. Cheias de expressão, sensibilidade e mistério, suas obras possuem um fascínio único em torno de suas temáticas, que ganham ainda mais força com a riqueza dos detalhes que nos faz refletir: somos seres que podem ser copiados à risca para se tornarem objeto de admiração, por nós mesmos?

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