Roberto Carlos não costuma ir a fóruns. Não gosta de holofotes fora do palco. Não fala de dinheiro, de herança, de brigas familiares. Mas, naquele dia, ele foi. E foi por alguém.
A Coluna Matheus Baldi apurou com exclusividade que o depoimento prestado por Roberto Carlos, em segredo de Justiça, no Fórum Central do Rio de Janeiro, teve relação direta com o processo que envolve a partilha dos bens de Erasmo Carlos, seu amigo de mais de seis décadas, parceiro da Jovem Guarda e confidente de vida. E mais: Roberto fez questão de depor a favor da viúva de Erasmo, Fernanda Passos, e, enquanto a disputa judicial se arrasta, é ele quem ajuda financeiramente Fernanda, inclusive com uma mesada fixa, para garantir que ela mantenha alguma estabilidade.
Nada disso aparece nos autos públicos. Nada disso foi dito oficialmente. Mas é assim que o Rei tem agido, em silêncio, longe dos microfones, fiel a uma amizade que atravessou gerações, discos, perdas e sucessos.
O dia do depoimento
No dia 12 de novembro de 2025, Roberto Carlos entrou discretamente no Fórum do Rio. Não houve anúncio prévio. Ainda assim, o alvoroço foi imediato. Funcionários cochichavam. Fãs tentavam se aproximar. O Rei permaneceu cerca de meia hora na 2ª Vara de Família, como testemunha em um processo que corre em segredo de Justiça.
Na época, a assessoria limitou-se a dizer que não poderia comentar. A imprensa noticiou a presença, mas não o motivo. A Coluna Matheus Baldi foi além.
Segundo fontes ouvidas pela coluna, Roberto foi chamado para depor em um processo ligado à disputa patrimonial envolvendo o espólio de Erasmo Carlos. E não foi um depoimento protocolar. Roberto quis ir. Fez questão de deixar clara sua posição. Falou como amigo, como testemunha da relação, como alguém que conhecia intimamente a dinâmica afetiva e pessoal de Erasmo nos últimos anos de vida.
Quem é Fernanda Passos, a viúva no centro da disputa
Fernanda Passos é pedagoga. Hoje tem cerca de 34 anos. Quando se casou com Erasmo Carlos, em janeiro de 2019, tinha 28. Eles estavam juntos havia aproximadamente 12 anos antes do casamento.
A diferença de idade, de 49 anos, sempre chamou atenção. Gerou comentários maldosos, desconfianças e julgamentos apressados. Fernanda, no entanto, sempre se manteve discreta. Em uma entrevista ao programa de Pedro Bial, contou como conheceu Erasmo e resumiu a relação com uma frase simples, quase infantil: “Eu te amo.”
Erasmo respondeu: “Ah, comecei a te amar agora.”
Quando Erasmo morreu, em 22 de novembro de 2022, aos 81 anos, deixou uma obra imensa, musical e material, e não deixou testamento.
O patrimônio e a lei fria
O patrimônio de Erasmo Carlos é estimado em cerca de R$ 25 milhões, incluindo direitos autorais, imóveis, empresas e investimentos. Seu faturamento mensal, em alguns períodos, chegou a R$ 2 milhões.
Pela lei brasileira, casamentos realizados após os 70 anos seguem obrigatoriamente o regime de separação total de bens. Ou seja, Fernanda, como viúva, não teria direito automático à herança.
Os herdeiros diretos seriam os dois filhos vivos de Erasmo:
Leonardo Esteves
Gil Eduardo Esteves
Ambos são filhos do cantor com sua ex-esposa, a paisagista Sandra Sayonara, conhecida como Narinha, que morreu em 1995. Erasmo teve ainda um terceiro filho, Carlos Alexandre, que faleceu em 2014, vítima de um acidente de moto.
Dois meses após a morte do cantor, Leonardo e Gil pediram a abertura do inventário na 11ª Vara de Órfãos e Sucessões do Rio de Janeiro. Em um primeiro momento, houve consenso. Os filhos concordaram que Fernanda seria a administradora da herança, decisão homologada judicialmente.
Mas consensos, em heranças, costumam ser frágeis.
Quando o conflito ganha novas camadas
Com o tempo, surgiram tensões, questionamentos e divergências sobre administração, valores e decisões. O processo segue em segredo de Justiça, mas fontes descrevem um ambiente de desgaste emocional e disputas internas.
É nesse contexto que entra um detalhe sensível e explosivo.
Um dos filhos de Erasmo, Leonardo Esteves, é hoje o empresário de Roberto Carlos. Ele assumiu a função após o fim da histórica parceria de Roberto com Dody Sirena, que durou mais de 30 anos.
Ou seja, o homem que gerencia a carreira do Rei é, ao mesmo tempo, parte diretamente interessada no processo que envolve a herança do melhor amigo de Roberto.
A Coluna Matheus Baldi apurou que Roberto Carlos deixou muito clara sua posição. Seu depoimento, sua postura e sua ajuda financeira estão ao lado de Fernanda.
Mesmo sabendo do desconforto que isso poderia gerar. Mesmo sabendo das implicações profissionais. Mesmo sabendo que o silêncio seria mais fácil.
A ajuda que não vira manchete
Enquanto a disputa judicial se desenrola, Coluna Matheus Baldi descobriu que Roberto Carlos tem ajudado financeiramente Fernanda Passos, inclusive com uma mesada regular. Não por obrigação legal. Não por imposição judicial. Mas por lealdade.
Fontes próximas dizem que Roberto vê Fernanda como alguém que esteve ao lado de Erasmo nos anos finais, cuidou, acompanhou tratamentos e esteve presente quando muitos já haviam se afastado. Para ele, trata-se de um gesto de justiça pessoal, não jurídica, mas humana.
Amizade como herança invisível
Roberto e Erasmo foram mais que parceiros musicais. Foram irmãos escolhidos. Dividiram o auge, o ostracismo, as perdas e as reconciliações. Quando Erasmo morreu, Roberto perdeu um pedaço da própria história.
Talvez por isso, no meio de papéis, advogados e cifras, Roberto tenha decidido agir não como ícone, mas como amigo.
Entrou no fórum. Sentou-se diante do juiz. Falou. E segue ajudando, longe das câmeras.
Em tempos em que heranças costumam revelar o pior de tanta gente, essa história expõe outra coisa: a herança afetiva, aquela que não entra em inventário nenhum, mas pesa mais do que qualquer patrimônio.
E, desta vez, o Rei escolheu de que lado da história queria ficar.
A Coluna Matheus Baldi procurou a assessoria de Roberto Carlos, mas até o fechamento da reportagem não obteve retorno. Caso ocorra, a publicação será atualizada.