Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

Danieli Alves Baptista Bonel, diretora e proprietária da creche-escola Tempo de Construir, localizada no bairro de Ramos (RJ), e as duas professoras Samantha Carla Alves Cavalcanti e Vitória Barros da Silva Rosa são suspeitas de maus-tratos contra um menino, identificado apenas como Dante, com paralisia cerebral. As informações são do G1.

O caso teria ocorrido quando o menino tinha 3 anos. Ele completou 4 no último domingo (5).

Os pais de Dante receberam uma informação anônima de que ele era mantido preso durante horas em uma cadeira postural.

Com base nisso, a mãe do menino, a policial militar Flávia Louzada, levou o caso para a 21ª Delegacia Policial (Bonsucesso). Então, a delegada da unidade policial apreendeu um HD que continha as imagens de segurança da creche-escola.

“Primeiro eu me culpei muito, porque vi o meu filho se debatendo, chorando na cadeira. Ele ficava horas ininterruptas. Tem cenas em que ele se debate, estende o braço em direção à funcionária e ela ignora”, disse Flávia.

A mãe também informou que Dante tem paralisia cerebral grau 4. Isso significa que “a parte cognitiva dele é perfeita, o que torna isso tudo ainda mais cruel. Ele tinha noção de tudo. Quando entrava na rua da escola, ele começava a chorar muito, desesperadamente”.

Justiça do Rio aceita denúncia do MP

No dia 30 de maio, o juiz Paulo Roberto Sampaio Jangutta, titular da 4ª Vara Criminal, aceitou a denúncia feita pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.

O MP-RJ afirmou na ação que o menino era mantido preso na cadeira durante horas sem ser mudado de posição, não interagia com outras crianças e tinha pouca oferta de água, o que causou uma infecção urinária.

Na sua decisão, o magistrado concordou com os pontos elencados pelo MP-RJ e acrescentou que a criança recebia “refeição distinta da oferecida aos demais alunos e com pouca higienização no tocante à troca temporária de fraldas, ficando por horas preso em sua cadeira na mesma posição, sem ser levada para atividades ao chão e sem interação com as demais crianças”.

Por conta disso, agora, a diretora da creche-escola e as professoras viraram rés por supostos maus-tratos.

O que dizem a diretora e as professoras?

Conforme a denúncia, Danieli Alves, diretora da unidade de ensino, tinha conhecimento dos supostos maus-tratos praticados contra o menino.

Uma funcionária, que preferiu não se identificar, relatou ao G1 que a diretora “mandava as professoras prenderem as crianças nas cadeirinhas”.

Questionada sobre o caso, a advogada Andréa Bonel, que representa a escola e as duas professoras, informou que vai se “manifestar no momento processual oportuno, quando a escola for citada, mas o que posso dizer é que a escola tem provas de que não houve maltrato, e que já temos processo contra a campanha difamatória que está ocorrendo contra a escola”.

Contudo, o G1 esteve na creche-escola Tempo de Construir – que segue funcionando normalmente – e conversou com a diretora.

“Não aconteceu nada com o aluno. O que acontece é que a mãe sempre teve o contato da mediadora e falava de cinco em cinco minutos com ela, mas ela engravidou e teve que se afastar. A nova profissional não fazia isso, aí começaram os problemas”, disse Danieli.

Segundo ela, Dante não era colocado no chão por questões sanitárias e também afirmou que ele possui dificuldade para ingerir água.

“A cadeira é postural para que ele não tombasse. Tem um feltro para ele ficar certinho, e era o lugar mais seguro para ele. A gente tinha pavor de acontecer um acidente com ele. Ele tinha uma rotina com a mediadora, que tirava ele da cadeirinha, colocava no parapódio (suporte para manter a criança de pé), tenho foto dele até sem nada. Mas ele tombava muito e o nosso medo era ele ficar solto e bater a cabeça.”

“Tenho a consciência limpa, com meus professores, só fico abalada por nunca ter passado por isso. Dói porque ela era uma mãe presente, tinha uma relação boa com a gente”, acrescentou Danieli.

Mãe questiona argumentações da diretora

Depois de conversar com Danieli, o G1 voltou a entrar em contato com Flávia Louzada e ela questionou as argumentações apresentadas pela diretora.

“Claro que não ia levar uma indicação médica para ela. Não faz nem sentido. Levar uma indicação médica para o meu filho ficar solto? Por que as outras crianças podiam e o Dante não? Meu filho tem limitações, mas, com a supervisão da mediadora, podia ficar no chão, solto. Tenho foto dele sentado em cadeira normal e até em banco sem encosto. Ele só precisa de alguém olhando por perto”, disse.

A mãe de Dante ainda informou que ele nunca teve problema para beber água.

“Se você vir nas filmagens, não é só com o Dante. Outras crianças também recebem pouca água, dois dedinhos só. Porque quem bebe pouca água faz menos xixi. Ou seja, dá a sensação de que seria menos trabalho para elas trocarem as fraldas. Só quero justiça para o meu filho e tudo o que ele viveu. Dói demais pensar que a primeira sensação de maltrato ele viveu dentro de uma escola, e que eu demorei para ver isso”, finalizou.