Perspectiva 2022

A rivalidade entre EUA e China vai tensionar o cenário internacional

Disputa entre EUA e China definirá as tensões internacionais em 2022. Especialistas apontam que grande parte dos países deverá se voltar, prioritariamente, para problemas domésticos, agravados pela pandemia

Crédito: Charles Dharapak

CONTRAPONTO Xi Jinping e Joe Biden: briga pelos corações e mentes do mundo (Crédito: Charles Dharapak)

O cenário mundial em 2022 vai depender, para o bem ou para mal, do destino do governo Joe Biden. O americano luta para conter a pandemia, retomar os empregos e viabilizar pacotes trilionários de infraestrutura e proteção social, além de conter a volta do populismo trumpista nas eleições de meio de mandato. Se conseguir avançar nesses desafios, ajudará a economia mundial a seguir em frente e poderá assegurar mais democracia e paz ao planeta.

Na frente externa, seu maior desafio será equacionar a rivalidade com a China de Xi Jinping, que conseguiu até o momento manter sua expectativa de crescimento robusto, apesar da pandemia. A China tem sido bem-sucedida em se aproximar da União Europeia, com Alemanha e França à frente, para se contrapor à hegemonia americana. Biden tentou, sem sucesso, usar o tema dos direitos humanos e da democracia para acuar o governo chinês, assim como cometeu um deslize grande ao irritar os franceses por meio de um novo acordo militar com a Austrália (os franceses perderam um contrato bilionário para fornecer submarinos nucleares). Biden ainda não conseguiu atrair os aliados tradicionais que haviam sido maltratados por Trump. E pode nem conseguir isso este ano.

Victor Lage, coordenador de pós-graduação em Relações Internacionais da UFBA, destaca a importância da tecnologia na balança de poder. Os EUA estão de olho na China, entre outras razões, pela dimensão dos investimentos do gigante asiático nessa área, principalmente na implantação intensiva do 5G em várias esferas — como vigilância e comunicação. Os chineses estão ganhando essa guerra estratégica. A China tem conseguido, ainda, atrair nações antes isoladas para aumentar sua área de influência. Com grande fôlego econômico, tem facilitada sua entrada em países totalitários da África e do Oriente Médio. “A China se preocupa em montar um cinturão internacional”, reforça Luciana Mello, com 17 anos de atuação em comércio exterior e especialização em História das Relações Internacionais pela UERJ. A relação do país asiático com diferentes nações africanas se fortalece, o que será um aspecto definidor para a política internacional dos próximos anos. “Muito se tem debatido sobre o modelo chinês, com controle do Estado”, destaca Lage. Xi Jinping ampliou seu poder e investiu contra os bilionários e as gigantes tecnológicas em seu país, o que afetou as perspectivas de investimentos e acendeu o alerta para a insolvência de corporações como a Evergrande. O fantasma de uma crise financeira no “motor chinês” assombra os mercados mundiais. Para Biden, também se desenha um cabo-de-guerra explosivo entre EUA e Rússia, com a movimentação de milhares de soldados russos na região da fronteira com a Ucrânia. Esse é o maior risco de conflito real em 2022. Os EUA de Joe Biden, ao lado dos tradicionais aliados da Europa Ocidental, prometem severas sanções a Vladimir Putin no caso de uma invasão. O presidente russo tenta evitar que o país vizinho, ex-satélite soviético, ingresse na OTAN. O investimento bélico e a ameaça de interferência digital nos EUA, com a ação de hackers russos, permanecem pontos críticos entre os dois países.

Outro aspecto relevante em 2022 serão as eleições francesas, que mexem com temas sensíveis e têm implicações geopolíticas: a aliança com a Alemanha, o futuro da União Europeia, a ascensão da extrema direita e a crise migratória. Com problemas econômicos agravados pela pandemia em casa, países que recebem essas ondas precisarão demonstrar capacidade de combinar o bem- estar social com a austeridade pela qual o mundo terá de passar. São aspectos importantes na correlação de forças para este ano.

Para Luciana, as relações mundiais estarão mais multifacetadas, sem alinhamentos automáticos a determinada nação ou bloco. Países secundários ganharam mais poder de barganha. Isso muda a dinâmica do comércio mundial. Ainda sob a sombra da pandemia, a tendência é de as nações se voltarem para dentro, “curando as próprias feridas”, resolvendo crises econômicas pioradas pela Covid. Para a professora, será um ano de recuperação de economias locais — incluindo os EUA. “Como o interno depende do externo, espera-se uma série de negociações em cenário muito mais diversificado.”