Risco-país da Argentina dispara e eleva pressão sobre dívida de Milei

Indicador calculado pelo JPMorgan chegou a 710 pontos, maior nível desde outubro de 2025; queda dos títulos argentinos aumenta preocupação do mercado com os vencimentos de 2027

Foto de arquivo de Javier Milei em cerimônia na Casa Rosada, em Buenos Aires, em dezembro de 2023. A imagem não registra um evento ligado à alta recente do risco-país. Crédito: Wikimedia Commons.
Foto: Foto de arquivo de Javier Milei em cerimônia na Casa Rosada, em Buenos Aires, em dezembro de 2023. A imagem não registra um evento ligado à alta recente do risco-país. Crédito: Wikimedia Commons.

A percepção de risco sobre a economia argentina voltou a crescer entre investidores. O risco-país do país alcançou 710 pontos nesta segunda-feira, 20, maior patamar desde outubro de 2025, após uma nova rodada de vendas de títulos da dívida pública negociados no exterior.

O indicador, calculado pelo JPMorgan, avançou 35 pontos em relação ao fechamento anterior e completou oito sessões consecutivas de alta. Em um mês, a elevação acumulada chegou a 35%, enquanto os papéis soberanos argentinos denominados em dólar registraram perdas próximas de 6% no período.

O movimento traz um alerta para o governo de Javier Milei em um momento em que a Argentina precisa reforçar suas fontes de financiamento externo. O país terá compromissos relevantes com credores privados e com o Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2027, em um cenário de acesso restrito ao mercado internacional.

Estimativas divulgadas pela imprensa argentina apontam que os vencimentos do próximo ano podem variar entre US$ 21 bilhões e US$ 29 bilhões, a depender dos compromissos considerados. Para enfrentar esse calendário, o governo precisará contar com reservas, receitas de exportação, investimentos ou novas emissões de dívida.

É justamente nesse ponto que a alta do risco-país ganha importância. O indicador mede a remuneração extra exigida pelos investidores para comprar títulos de um país em relação aos papéis do Tesouro dos Estados Unidos. Aos 710 pontos, a diferença equivale a cerca de 7,1 pontos percentuais ao ano.

Na prática, quanto maior o risco-país, mais caro tende a ser captar recursos no exterior. Isso dificulta a estratégia de rolar dívidas — isto é, emitir novos títulos para substituir papéis que estão vencendo — e amplia a pressão sobre as reservas internacionais.

Os títulos argentinos de prazo mais longo foram os mais afetados pela cautela do mercado. Na sessão desta segunda, os papéis emitidos pelo governo em dólar caíam, em média, 1,5% em Wall Street, enquanto alguns contratos acumulavam desvalorização superior a 7% em um mês.

O ambiente externo também contribui para a deterioração. A inflação mais resistente nos Estados Unidos elevou as expectativas de juros altos por mais tempo, o que torna os títulos americanos mais atrativos e reduz o apetite dos investidores por ativos considerados mais arriscados.

Embora o FMI tenha reconhecido os esforços de ajuste fiscal do governo Milei, o respaldo institucional não elimina as dúvidas sobre a capacidade de a Argentina obter financiamento privado em condições mais favoráveis. Para o mercado, a evolução das reservas e a disponibilidade de dólares serão determinantes para medir a capacidade do país de cumprir seus compromissos.

A alta do risco-país não significa, por si só, que a Argentina esteja perto de um calote. O indicador, porém, mostra que os investidores passaram a cobrar um prêmio maior para financiar o país — um sinal de que as dúvidas sobre 2027 voltaram ao centro do debate econômico.

Da IstoÉ