Risco de "guerra longa" no Irã pressiona arsenal dos EUA

Risco de "guerra longa" no Irã pressiona arsenal dos EUA

"MaisCom conflito ameaçando se arrastar, custos e uso acelerado de munições avançam sobre estoque de armamentos americano. Para especialistas, operação prolongada poderia deixar os EUA vulneráveis a outras ameaças.Durante as quase duas semanas do conflito com o Irã, os EUA já acumulam milhares de ataques em todo o país, empregando mais de 20 sistemas de armas por armas por ar, terra e mar.

Após matar o ex-líder supremo iraniano Ali Khamenei, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que a guerra poderia durar de quatro a cinco semanas, mas que os EUA têm a "capacidade de ir muito além disso".

"Não temos escassez de munições", disse o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, durante uma visita ao Comando Central das Forças Armadas em 5 de março. "Nossos estoques de armas defensivas e ofensivas nos permitem sustentar esta campanha pelo tempo que for necessário."

O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, fez garantias semelhantes. "Temos munições de precisão suficientes para a tarefa, tanto ofensiva quanto defensiva", afirmou ao lado de Hegseth.

Na segunda-feira, porém, Trump recuou e alegou que os ataques podem acabar "muito em breve". Uma postagem sua no começo de março indicou que os EUA têm "estoques de munições de níveis médio e médio-alto" de sobra. "No nível mais alto, temos um bom suprimento, mas não estamos onde gostaríamos de estar", completou, sobre os armamentos de alta categoria, que incluem mísseis e interceptadores de longo alcance.

A matemática da guerra no Irã

Para Kelly Grieco, pesquisadora sênior do think tank Stimson Center, a distinção feita por Trump é importante. "Há limitações reais nos estoques desse tipo", disse ela.

Desde o início do conflito, EUA, Israel e Irã lançaram uma enxurrada de ataques pela região. Segundo o Comando Central dos EUA, 3 mil alvos foram atingidos apenas nos primeiros sete dias.

Em resposta, o Irã disparou milhares de drones Shahed-136 e centenas de mísseis contra alvos americanos na região. É aqui que a matemática fica desconfortável para os EUA, aponta Grieco.

A produção de cada drone Shahed custa entre 20 mil e 50 mil dólares. Já as várias formas de defesa usadas pelos EUA e aliados não são baratas. Cada disparo de um caças armados com mísseis AIM-9 custa 450 mil dólares, além de 40 mil dólares por hora apenas para manter o avião no ar.

"O custo de operar o caça por uma hora equivale ao custo de um Shahed", disse Grieco. "Não é eficiente. Não é uma troca de custos favorável."

Ela argumenta que os EUA deveriam ter aprendido com a Ucrânia, que encontrou métodos mais baratos, como drones interceptores que custam menos que os Shaheds. "Os Estados Unidos testaram essa tecnologia, só não a compraram em quantidade suficiente", afirmou.

Já os mísseis de defesa Patriot, muito mais caros (cerca de 3 milhões de dólares cada), são reservados para interceptar mísseis balísticos iranianos. Mark Cancian, conselheiro sênior do think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, estima que os estoques estão sendo consumidos rapidamente.

"No início, acho que havia cerca de 1.000 Patriots, e já reduzimos bastante esse inventário", disse. Ele estima que entre 200 e 300 mísseis deste tipo já foram usados.

Além disso, armas de alta categoria levam tempo para serem produzidas. A Lockheed Martin entregou apenas 620 interceptores PAC-3 em todo o ano de 2025. "Se você fosse à empresa hoje e dissesse que quer comprar mais um Patriot, levaria pelo menos dois anos para ele ficar pronto", afirmou Cancian.

Para armas de curto alcance, como bombas, kits JDAM e mísseis Hellfire, o cenário é diferente. "Militarmente, acho que poderíamos sustentar isso por muito tempo. Temos munições terrestres para isso", disse Cancian.

Casa Branca se reúne com empresas de defesa

Em 6 de março, Trump se reuniu com várias empresas de defesa e depois afirmou que os fabricantes concordaram em quadruplicar a produção das armas de mais alta categoria. A Casa Branca enfatizou que a reunião estava marcada havia semanas.

Grieco, porém, duvida da novidade desses acordos. "Achei aquilo praticamente um não-anúncio, porque nos últimos meses a maioria dessas medidas já havia sido anunciada", disse.

O acordo da Lockheed Martin para ampliar a produção dos PAC-3 de 600 para 2.000 por ano é público desde janeiro. Após a reunião, nenhum novo cronograma foi divulgado. A meta continua sendo 2030.

Mesmo acelerar a produção não é simples. "Existem gargalos em vários pontos e, mesmo jogando muito dinheiro no problema, não é só apertar um botão e produzir. Ainda vai levar tempo", afirmou a analista.

Estoques baixos podem ter consequências globais

Analistas concordam que os EUA provavelmente não ficarão sem armas durante a guerra no Irã, mas há preocupações para o futuro.

"Vai acabar? Não é bem assim que eu colocaria", disse Grieco. "Não acho que nada vá realmente acabar nesta guerra. Mas o problema é que ficaremos com estoques 'no osso' e isso vai limitar nossas opções nos próximos anos no Indo-Pacífico, na Europa ou até no Oriente Médio."

O presidente ucraniano Volodimir Zelenski já soou o alarme.

"Há preocupações de que, no caso de uma guerra prolongada, os EUA possam reduzir o fornecimento de sistemas de defesa aérea e mísseis para a Ucrânia", disse Zelenski à emissora italiana RAI.

Em entrevista à Bloomberg, o ex-secretário de Estado Antony Blinken fez um alerta semelhante. Uma operação prolongada no Irã poderia deixar os EUA vulneráveis a ameaças da Rússia e da China, afirmou.

O Irã está sendo subestimado?

O general americano Dan Caine informou que os lançamentos de mísseis balísticos iranianos caíram "86% desde o primeiro dia de combate". Washington interpreta isso como sinal de progresso.

Grieco reconhece que é difícil saber os detalhes por trás dessa queda, mas considera provável que "tenhamos causado uma degradação significativa da força de mísseis balísticos".

Quanto aos drones Shahed, a produção descentralizada torna quase impossível estimar estoques. Mas Grieco argumenta que os EUA podem ter subestimado o Irã. "Se o objetivo é mudança de regime, o poder aéreo sozinho não vai bastar."

Ela acredita que a contenção anterior do Irã diante de ataques dos EUA e de Israel foi interpretada como fraqueza, levando a falhas de dissuasão. "Eles estão lutando pela sobrevivência do regime. Têm incentivos para lutar duro e pagar altos custos", afirmou.

Cancian concorda. "Nós os atingimos com força, e eles não pediram paz", disse. "Isso talvez não tenha sido antecipado."

A captura rápida do ex-líder Nicolás Maduro na Venezuela, em janeiro, alimentou a confiança de Washington sobre os possíveis desfechos da operação. Mas os EUA já erraram antes sobre a duração e o custo de suas guerras. O arsenal do governo Trump pode não se esgotar no Irã, mas permanecem dúvidas sobre o que restará quando tudo terminar.