RIP brasileiro jovial

Vistos pelo mundo lá fora, e pela perspectiva histórica, os brasileiros foram quatro, arrisco teorizar:

De início, durante o período que vai do descobrimento até a colonização, foi o tempo do Brasileiro Índio.

O mundo nos via como uma descoberta pitoresca, um animal que bem serviria como uma atração de circo na Europa.

Com o tempo, nos tornamos provedores mundiais de riquezas.

Um Brasileiro Produtor. Eficiente na agricultura e mineração além de um comerciante muitas vezes ingênuo.

Do ouro ao café, fomos facilmente achacados, expostos por nossa gigantesca costa.

Em seguida, nossas dimensões continentais e diversidade natural deram origem, no século passado, ao mito do Brasileiro do Futuro.

O País que dominaria o mundo, imaginavam os estrangeiros.

Uma potência em potencial, com o perdão do trocadilho.

O Brasileiro do Futuro existiu até praticamente o final do século XX.

Ao mesmo tempo, a ele se sobrepôs outro tipo de ser humano, mais mundano, bem representado e exportado desde os filmes da Atlântida.

Tornamos-nos o Brasileiro Jovial, bem humorado, hospitaleiro, malemolente no samba e no futebol. Cabeça fresca e irresponsável. Malandro e cativante.

O primeiro mundo, mais rico, mais plastificado e mais formal, quando nos conhecia pessoalmente, sorria.

Causávamos até certa inveja.

Já os que se aventuravam a nos conhecer por dentro, os que sentavam num boteco e pedir uma gelada, não raro, se apaixonavam por uma nativa, eram rapidamente seduzidos por nossa cultura e a abraçavam com a invariável alcunha de “o gringo”.

O Brasileiro Jovial dava menos importância aos bens materiais e ao crescimento do PIB, em troca da alegria
de viver.

Verdade que essa imagem tão positiva e romântica trazia inúmeras incongruências para quem nos estudasse melhor.

A violência, a corrupção, a criminalidade eram o outro lado dessa moeda de savoir-faire e bem viver.

Um lado que não divulgávamos, em nome do clichê que nos beneficiava em amor próprio e em turismo.

Permitimos a existência desse falso brasileiro, nossa quarta versão para o mundo, por comodismo e por defesa.

Melhor ser visto de forma festiva do que encarar a realidade de nossa falta de educação eterna e mediocridade intelectual atávica.

Esse brasileiro imagético começou a adoecer no governo Lula.

Doença que se tangibilizou no fatídico 1×7 da Copa.

A tristeza e humilhação se espalhou pelo Brasil contaminando a todos.

Foi revelada ao mundo como poeira de vulcão em imagens da Estação Espacial.

Após a eleição de Jair Bolsonaro o mundo, perplexo, viu esse quarto espécime de brasileiro, o jovial, ser levado para
a UTI em estado grave.

De lá para cá, coitado, só piorou.

Infecção generalizada de falta de inspiração.

Metástase de descrença.

Pois bem.

Cabe a esta coluna divulgar uma triste notícia:

“Nota de Falecimento: é com extremo pesar que amigos e familiares informam o falecimento do Brasileiro Festivo, ocorrido na última semana. O brasileiro do samba e futebol, da alegria e do bom humor, não está mais entre nós. Veio a falecer depois de lutar pela vida por dois anos, e pereceu contaminado por Covid-19. Não deixa descendentes e a família pede para não enviarem flores nem coroas.”

No mesmo dia, nasceu o quinto Brasileiro Histórico.

Um bobão.

Capaz de acreditar que o governo está mesmo trabalhando pelo fim do desmatamento e da corrupção.

Trata-se do Brasileiro Imbecil, que lota os parques e se aperta em cultos pseudo-religiosos.

Um brasileiro tacanho, que não acredita em ciência, nem em bom senso.

P.S. Dizem os enfermeiros, que em seu último suspiro, o Brasileiro Jovial murmurou:

— Fora Bolsonaro! — e se foi.


Mais posts

Ver mais

Copyright © 2021 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.