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Rifado para salvar o capitão

Marcelo Queiroga substitui Eduardo Pazuello como capacho de Bolsonaro na gestão da pandemia e promete continuar a política de morte do antecessor, promovendo cloroquina e minimizando o impacto do isolamento social

Crédito: Fotos: Raul Spinassé/folhapress; Mateus Bonome/Agif/AFP; Reprodução
CRÍTICA Ludhimla Hajjar não aceitou cargo no governo: questão de coerência (Crédito:Mateus Bonomi)

Um fantoche do presidente Jair Bolsonaro deixou o governo e outro está entrando em cena. A saída do general Eduardo Pazuello do cargo de ministro da Saúde é o ponto alto de uma das gestões sanitárias mais desastrosas e irresponsáveis de que se tem notícia na história do Brasil. Mas a chegada de Marcelo Queiroga, que deveria ser algo auspicioso pelo mero fato dele ser médico e presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), não representa qualquer sinal de virada e nem um choque de racionalidade no ministério. Por suas primeiras palavras deu para perceber que ele não aliviará o discurso pró-cloroquina do governo. O novo ministro também explicitou que quem manda é Bolsonaro e que ele será um mero executor de ordens, seguirá a cartilha do presidente, ou seja, a doença continuará sendo politizada. Pode-se se pensar que nada pode ser pior do que Pazuello no comando do que quer que seja, mas tudo indica que Queiroga, se tiver alguma boa intenção, terá obstáculos intransponíveis para expressá-la. Na prática, Bolsonaro continuará mandando na Saúde e o máximo que o novo ministro, cardiologista experiente, vai fazer é dar um verniz científico para as decisões insensatas que o chefe toma para favorecer o aumento do número de mortos pela Covid-19.

CARTILHA Queiroga chega declarando submissão a Bolsonaro e apoiando a cloroquina (Crédito:Sociedade Brasileira de Cardiologia)

Queiroga assume o cargo no pior momento da pandemia, em meio a uma situação desesperadora, quando os óbitos avançam para 300 mil e há um esgotamento dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) espalhados pelo País. A falta de infra-estrutura começa a matar mais brasileiros. Pazuello, que não é médico e nem entende bulhufas de logística de saúde, deu contribuições decisivas para essa situação. Em sua passagem de dez meses pelo ministério, ele não mexeu uma palha para ajudar os estados, impôs a morosidade em todas as decisões que foi obrigado a tomar, fomentou o negacionismo e conseguiu alavancar a letalidade do vírus de maneira aberrante. O número de contaminados chega a 12 milhões, sobe exponencialmente e, ao mesmo tempo, a vacinação avança devagar, por força e obra do ministro e principalmente de Bolsonaro, a mente por trás da estratégia de devastação, que demorou três meses para entrar na fila global de vacinas. Até agora só 5% dos brasileiros foram imunizados e, diariamente, se registram filas intermináveis em postos de saúde em várias partes do País de idosos e outros grupos prioritários tentando se vacinar. O Programa Nacional de Vacinação, conhecido pela presteza, foi achincalhado por Pazuello. A última semana foi a mais mortífera da pandemia, com mais de 3 mil mortos por dia e esgotamento dos leitos de UTI em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná.

“Minha qualificação, meus objetivos e planos seguem uma linha distinta do desejo do governo atual” Ludhmila Hajjar, médica

O médico paraibano não foi o primeiro escolhido para o cargo. Antes dele, a médica cardiologista Ludhmila Hajjar foi convidada para assumir o Ministério e recusou, justamente por não concordar com a postura imperial insana de Bolsonaro em relação a uma área técnica como a saúde. “Acho que, realmente, não houve uma convergência técnica entre nós. A minha qualificação, os meus objetivos e meus planos seguem uma linha, que acho que é distinta do desejo do governo atual”, justificou a médica. Em relação à cloroquina, vermífugos e outros charlatanismos propagados por Bolsonaro, ela disse que se trata de discussão ultrapassada. “Estamos discutindo azitromicina, cloroquina, ivermectina. É coisa do passado. A ciência já deu essa resposta.”, disse Ludhmila. Pelas posições críticas, ela e sua família passaram a sofrer ameaças de morte de bolsonaristas.

ENCENAÇÃO Pressionado, agora Bolsonaro se alia ao personagem Zé Gotinha: desfaçatez (Crédito:Pedro Ladeira)

Já Queiroga não demonstra estar preocupado com questões de princípios. Ele adaptou seu discurso aos dogmas de Bolsonaro e não parece disposto a contrariar o chefe. “A política é do governo Bolsonaro, não do ministro. O ministro executa a política do governo”, disse Queiroga. Diferentemente do antecessor, o novo ministro fez o Juramento de Hipócrates e tem um compromisso ético com sua profissão. Mas diante de Bolsonaro isso vira piada. Qualquer iniciativa que Queiroga quiser tomar, precisará passar pelo crivo presidencial, cuja orientação é negacionista. Como não se preocupa com a perda de vidas, Bolsonaro tende a fazer do novo ministro mais um mero executor de suas ideias impiedosas. Uma das frentes em que Queiroga deve atuar é na criação de um bloco de médicos para defender a cloroquina, o “tratamento precoce” e relativizar os benefícios das máscaras e do isolamento.

Secretários estaduais de Saúde que conhecem o novo ministro dizem que não é do estilo de Queiroga bater de frente com quem está acima. É um conciliador que se sente confortável em obedecer ordens. Bolsonaro divide os médicos e tem apoiadores ferrenhos nesse grupo profissional desde que expulsou os cubanos do Mais Médicos do Brasil, em um dos passos iniciais de seu governo. O presidente conta com a simpatia do Conselho Federal de Medicina (CFM) e, embora não pareça, há um grande contingente de médicos que defende a cloroquina. Queiroga já antecipou que pretende fazer um amplo debate com sua comunidade para discutir uma estratégia de combate à doença. Ele quer que a turma pró-cloroquina, que passa receita dos remédios do kit-Covid e não se assume, comece a se manifestar publicamente. Cristão e adventista, ele não tem grandes objeções às teorias criacionistas. O atual coordenador do Centro de Contingência da Covid-19 no governo paulista, o médico João Gabbardo, lamentou, pelo Twitter, que Queiroga tenha assumido sem rechaçar do uso da cloroquina ou defender um lockdow para não desagradar Bolsonaro.

“Estou sabendo que os EUA têm vacinas extras e que não vão usar toda essa vacina. E essa vacina, quem sabe, poderia ser doada ao Brasil” Lula, ex-presidente (Crédito:MARCELO D. SANTS)

O velho e o novo ministro passaram a semana aparecendo juntos para tentar tornar a posição do que sai menos vexatória, mas a mensagem de inoperância que o governo passa para seus cidadãos e para o mundo é a pior possível. Militares próximos de Pazuello não consegue dormir direito porque tem medo de ser preso. Ele é investigado pelo STF por omissão na crise de oxigênio em Manaus. “Esperava que o Brasil pudesse ter um melhor desempenho. Começando pelo governo, todos os interlocutores devem agir de forma séria”, alertou Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS. O fracasso da gestão sanitária de Bolsonaro se tornou também um trunfo político de Lula, que voltou ao jogo e já se posiciona como candidato. Em entrevista à CNN, Lula expôs sua preocupação e pediu ajuda a Joe Biden no combate ao coronavírus. “Estou sabendo que os EUA têm vacinas extras e que não vão usar toda essa vacina. E essa vacina, quem sabe, poderia ser doada ao Brasil”, disse.

O mandamento fundamental de Hipócrates, fundador da medicina ocidental, que deve ser seguido por qualquer médico é “Primeiro, não prejudicar”, não causar danos, do latim Primum non nocere. Em outras palavras, o médico não é obrigado a curar, pode não saber o que fazer e não avançar, mas ele não pode tornar pior o que já está ruim. O que Bolsonaro e seus ministros fazem é exatamente isso. O entendimento milenar e base da cultura médica é desconsiderado pelos gestores de saúde do governo e Queiroga, apesar de ser um cardiologista respeitável, tem tudo para decepcionar. Se quisesse mesfazer o bem, ele assumiria com a condição de Bolsonaro usar máscara e parar de falar da cloroquina. O Ministério da Saúde perdeu a confiança da sociedade e abandonou o papel fundamental de articulador de políticas públicas. Em vez de ajudar, Bolsonaro e seus fantoches só trabalham para prejudicar os doentes.