O fim da escala de trabalho 6×1 no Brasil marcou uma mudança na trajetória de Rick Azevedo, ex-balconista de farmácia que transformou relatos sobre a própria rotina profissional em uma mobilização nacional pela redução da jornada. Eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro em 2026, o ativista agora pretende levar ao Congresso a defesa da nova legislação e impedir possíveis retrocessos nos direitos dos trabalhadores.
A mudança foi oficializada na sexta-feira (16), com a promulgação da Emenda Constitucional 141/2026 pelo Congresso Nacional. A nova regra estabelece uma jornada máxima de 40 horas semanais e garante dois dias de descanso remunerado por semana, com início previsto para dezembro.
Azevedo, fundador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), afirma que a aprovação representa uma conquista coletiva, resultado da mobilização de trabalhadores, entidades sindicais, movimentos sociais e parlamentares.
De vídeos nas redes sociais à mobilização nacional
Natural de Taipas, no Tocantins, Rick Azevedo mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades profissionais. Trabalhando como balconista de farmácia, passou a questionar a rotina de seis dias de expediente para apenas um de descanso.
O descontentamento levou à publicação de vídeos nas redes sociais, nos quais relatava as dificuldades de conciliar o trabalho com atividades domésticas, estudos, cuidados com a saúde e convivência familiar.
As publicações ganharam repercussão e estimularam outros trabalhadores a compartilhar experiências semelhantes. A mobilização deu origem ao VAT, que passou a defender o fim da escala 6×1 como uma questão de qualidade de vida.
Segundo Azevedo, o movimento nasceu fora das instituições políticas e ganhou força ao reunir pessoas submetidas a jornadas semelhantes em diferentes setores da economia.
Proposta passou por anos de discussão no Congresso
A discussão legislativa sobre a redução da jornada começou antes da criação do VAT.
Em dezembro de 2019, o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) apresentou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que previa a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas.
O texto permaneceu por anos em tramitação na Câmara dos Deputados. Posteriormente, a mobilização pelo fim da escala 6×1 inspirou a apresentação da PEC 8/2025, liderada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que propunha uma semana de trabalho de quatro dias.
As propostas passaram por negociações e alterações até a aprovação do texto que estabeleceu o limite de 40 horas semanais e dois dias de descanso remunerado.
Azevedo afirma que desconhecia a existência da proposta de 2019 quando começou a publicar seus vídeos. Para ele, a contribuição do VAT foi transformar uma reivindicação trabalhista antiga em um debate de alcance nacional.
Eleito deputado, Rick Azevedo quer criar a Bancada CLT
A atuação nas redes sociais também impulsionou a trajetória política do fundador do VAT.
Eleito vereador do Rio de Janeiro em 2024, Azevedo conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados nas eleições de 2026, com 191.371 votos, tornando-se o segundo candidato a deputado federal mais votado do estado, conforme os dados apresentados.
Entre suas prioridades para o mandato está a criação de uma articulação parlamentar que pretende chamar de Bancada CLT.
A proposta é reunir deputados de diferentes partidos comprometidos com a proteção dos direitos trabalhistas e com a fiscalização do cumprimento da nova jornada.
Azevedo também manifesta preocupação com possíveis tentativas de flexibilização das regras, especialmente por meio de contratações que possam descaracterizar vínculos de emprego.
Fiscalização será desafio para aplicação das novas regras
Apesar de comemorar a aprovação da emenda constitucional, o deputado eleito considera que a mudança precisará ser acompanhada por mecanismos de fiscalização.
Entre os riscos apontados por ele estão a pejotização fraudulenta, a retirada de direitos por meio de contratos irregulares e possíveis reduções indiretas de remuneração.
Azevedo defende o fortalecimento da atuação do Ministério do Trabalho, do Ministério Público do Trabalho e das entidades sindicais para garantir o cumprimento das novas disposições.
Ele também reconhece que a adaptação exigirá planejamento das empresas, especialmente dos pequenos negócios, que poderão precisar reorganizar escalas e equipes.
Mudança pode afetar qualidade de vida e organização das empresas
Para o fundador do VAT, a principal consequência da nova jornada será a ampliação do tempo disponível para descanso, convivência familiar, educação e cuidados pessoais.
Azevedo também avalia que trabalhadores menos sobrecarregados podem apresentar melhores condições de saúde e produtividade.
A reorganização das escalas poderá exigir novas contratações em determinados setores, embora os efeitos econômicos dependam de fatores como atividade empresarial, custos operacionais e capacidade de adaptação.
O deputado eleito considera que a aprovação da emenda não encerra o debate sobre as condições de trabalho no país. Sua intenção é manter a mobilização social e ampliar a discussão sobre outras garantias trabalhistas durante o próximo mandato.
Da IstoÉ e Agência Brasil