O diretor ítalo-chileno Marco Bechis retoma o tema da ditadura militar argentina com o filme “Retorno a Buenos Aires”. A obra será exibida nesta sexta-feira, 11 de setembro, no Festival de Cinema de Veneza. A coprodução ítalo-brasileira, que integra a competição oficial da edição de 2026 do evento cinematográfico, disputa o prestigiado Leão de Ouro.
- O filme “Retorno a Buenos Aires” resgata a memória da ditadura militar argentina, sendo exibido e competindo no Festival de Veneza.
- Dirigido por Marco Bechis, a obra narra a volta de Mariano Guerra à Argentina para depor contra os ex-militares responsáveis por sua tortura.
- A produção ítalo-brasileira, que tem Adriano Giannini no elenco principal, concorre ao Leão de Ouro na edição de 2026 do festival.
O longa, que chega aos cinemas no próximo dia 17 de setembro, demonstra como os danos causados pela guerra se tornam ainda mais devastadores com o passar do tempo. O filme também marca um dos papéis mais desafiadores da carreira do ator italiano Adriano Giannini.
Ambientado em Buenos Aires, em 2008, o filme acompanha Mariano Guerra, interpretado por Giannini. Ele retorna à Argentina depois de 33 anos na Itália para depor no julgamento dos ex-militares responsáveis por seu sequestro, tortura e escravização durante a ditadura.
O retorno, compartilhado com outras vítimas do regime, está longe de representar uma simples viagem ao passado. Os sobreviventes são alojados em instalações improvisadas do Ministério da Justiça, em um ambiente marcado pela tristeza, pelo medo e pela incerteza. A experiência os obriga a confrontar lembranças que muitos tentaram, durante décadas, manter reprimidas.
O momento mais difícil, porém, é o depoimento diante dos próprios algozes. As vítimas precisam encarar os acusados e correr o risco de ter suas histórias contestadas ou até de serem responsabilizadas criminalmente.
A ditadura argentina em retrospectiva
“Retorno à Argentina 50 anos depois com uma história que não é minha, mas que nasce de uma ferida que conheço bem”, afirma Bechis. O diretor também foi sequestrado durante a ditadura argentina e explica que optou pela ficção para abordar uma experiência cuja dimensão, segundo ele, nem sempre pode ser transmitida apenas pela memória.
Para Bechis, a retomada do episódio histórico também serve para refletir sobre conflitos contemporâneos. O cineasta relaciona a trajetória dos sobreviventes argentinos às vítimas de guerras em diferentes partes do mundo, citando Gaza, a Ucrânia e países africanos afetados por conflitos.
Qual o legado dos conflitos?
A questão central, de acordo com o diretor, é a passagem de sobrevivente a testemunha. “Quantos desses sobreviventes conseguem dar o passo para se tornarem testemunhas?”, questiona. Para ele, o processo é fundamental para que os crimes sejam reconhecidos e os responsáveis, julgados. Mas também levanta outra pergunta: “Onde estão os tribunais?”.
O desafio de interpretar Mariano Guerra
Adriano Giannini, por sua vez, considera Mariano um personagem particularmente complexo, marcado por conflitos internos, medo, vergonha e culpa. O ator afirma que a experiência de trabalhar com Marco Bechis foi essencial para encontrar o personagem. “Foi um papel desafiador repleto de conflitos, medo, vergonha e culpa”, relata Giannini.
Segundo o ator, o conhecimento pessoal do diretor sobre o período ajudou a criar uma conexão mais profunda durante as filmagens. Marco Bechis exigiu que ambos abandonassem “máscaras e artifícios” para buscar uma relação genuína que servisse de apoio à construção do personagem. O elenco inclui ainda Ana Celentano, Verónica Gerez, Olivia Nuss, Adrián Fondari, Paula Cohen e Marcelo Chaparro.